Mostrando postagens com marcador Resenhas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Resenhas. Mostrar todas as postagens

17 de julho de 2007

Algumas palavras

Para não dizer que a vida tem sido improdutiva: aproveitei o tempo mais ou menos livre para botar algumas leituras em dia e ir ao cinema. Por exemplo: por um desses desvios malucos de nossa existência, só fui tomar conhecimento da poesia de Ana Rusche há pouco tempo. E ela estava ali, bem perto, já que transitamos pelos mesmos blogues e sites de Literatura. Mas, nessa minha idiossincrasia anti-social, voltava e girava sempre pelos menos lugares, sem me aventurar em descobrir o que havia por trás (no bom sentido) daqueles outros nomes. Li o 8 femmes, antologia da qual ela e outras poetas participam e, além dos nomes que eu já conhecia, pude tomar contato com outras propostas poéticas - nem todas na linha do meu gosto pessoal, vale dizer -, o que é sempre uma forma de enriquecimento. Um amigo, agora distante, já me havia alertado para a necessidade de, nas palavras dele, "sair do escritório", como se meu isolamento fosse parte de uma atitude algo blasé diante dos colegas escritores. Não é o caso, e ele, mais do que ninguém, deveria saber disso. Mas convenhamos: sou tímido, não bebo, não fumo, e acho que qualquer grupo acima de quatro pessoas já se configura uma ameaça a minha integridade física. Fica difícil, não? Acresce que, quando todo mundo se reúne, normalmente estou trabalhando. Aliás, nem sei porque ainda estou vivo.
MInto: sei. E é para ter a oportunidade de ler bons poemas, descobrir pessoas legais e perder um pouco da descrença na redenção da humanidade. Mas só um pouco.

18 de abril de 2007

Filmes, livros e farsantes

Alguém aí foi assistir ao filme O cheiro do ralo ? Sinceramente, depois de O ano em que meus pais saíram de férias, talvez seja o melhor filme brasileiro dos últimos anos. Um petardo nas consciências anestesiadas deste país miserável. E depois ainda há quem prefira coisas como Cidade de Deus ou Carandiru... Nesses dois filmes, a bosta lat(r)ina-americana passa ao largo, nas células isoladas da violência contida na periferia, na favela e na prisão. Em O cheiro do ralo, o fedor que sai dos esgotos impregna nossas roupas, nossos cabelos e o pouco que nos resta de humanidade - no sentido idealista do termo. Tudo tem um preço: a dignidade, as lembranças, o corpo, a ética. Nesse sentido, lembra por demais a atitude de certos indivíduos que se metem a escrever resenhas apontando na obra de um escritor todos os defeitos que o próprio resenhador apresenta em sua "grande obra". E "obra", aqui, está nos dois sentidos - o sublime e, principalmente, o escatológico. Há quem se venda por ninharia e ainda pose de bacana - mas, qual a novidade disso, não é mesmo?

19 de janeiro de 2007

Voltando aos poucos...

O bom das férias é que você pode colocar em dia as leituras atrasadas, os filmes que você não viu e as caminhadas que você não fez. Isso, fora os dias dedicados a botar as papeladas em ordem, fazer aquela limpeza geral em casa, jogar fora pilhas e pilhas de tristezas acumuladas. Nas horas livres, além dos excelentes O Céu de Suely e d'Os Infiltrados, fomos assistir ao Mais Estranho que a Ficção, filme bastante interessante, a despeito de seu desfecho infeliz.
O que chama a atenção, em primeiro lugar, é a premissa da trama: um auditor da Receita Federal, de vida rotineira e medíocre, que de repente passa a ouvir uma voz narrando todas as suas ações - mas de forma, por assim dizer "literária". Logo saberemos que se trata de uma narrativa mesmo, um romance que uma escritora tenta finalizar, mas sem sucesso. Não sabemos, de início, se a vida do funcionário público é ficcional ou não - se sua vida está determinada pela escritora ou haveria, por assim dizer, um "livre arbítrio" da parte do sujeito. Saberemos que não, e me parece que é nesse ponto que o filme desanda, pois a criatura encontra a criadora - depois de mudar radicalmente seu modo de vida, fazendo tudo aquilo que sempre desejou fazer, inclusive apaixonando-se, o sujeito descobre (pela narradora) que iria morrer. Mais que isso: deveria morrer - para manter a coerência interna do romance e para concretizar o que poderia ser a obra-prima da escritora. Não avanço no enredo para não estragar o prazer discutível de quem acha que "o final é importante", mas posso dizer que o desfecho (e a seqüência que leva a isso) estraga um filme que poderia ser muito mais do que é. Apesar de manter o paradoxo (não se explica como a vida do auditor e a narrativa da escritora se cruzam), a solução é pobre, bem ao gosto de um público acostumado ao ramerrão das tardes televisivas. Uma pena, pois o filme é engraçadíssimo - ao menos para quem tenha capacidade de entender a sutileza das piadas, o que não foi o caso da público presente na sessão em que estivemos - e as interpretações foram de primeira linha. Mas não deixa de ser um filme impressionantemente inteligente - nada mais incondizente com nossos tempos.