E a crise, que o Lula dizia que era "problema do Bush", chegou. Acresce que quase todo mundo acreditou em mais esse embuste, de onde se conclui que somos mesmo um país de bananas. Nanicas. Mas não fiquem felizes, porque o pior ainda não veio: a depressão em escala mundial, que vai levar à bancarrota muita gente e muito país. Espero, para variar, estar errado, mas não sei não...
Agora, o que poucos se perguntam é quem, afinal, está ganhando com essa barafunda toda? Sim, porque só um imbecil ingênuo pode acreditar que TODOS sairão perdendo com essa zona econômica. Não, queridos(as): alguém sempre ganha, e muito. E também não precisa ser muito esperto para saber quem: os especuladores de sempre. E não são os administradores da Sadia e da Aracruz, como o estúpido falastrão declarou. Essas empresas acreditaram na valorização do Real sob o império lulista. Cairam na real, finalmente. Talvez, no fundo, tenha sido merecido; afinal, quem mandou acreditar neste país e em quem o "governa"?
Blogue de um pretenso poeta, intelectual de cafeteria, reclamão de todas as horas e professor de Literatura por profissão (e, dizem, talento). Poemas e exercícios narrativos, crítica de cultura e maledicências ligeiras em tom farsesco. Tudo aqui é mentira.
8 de outubro de 2008
1 de outubro de 2008
26 de setembro de 2008
Diálogos imponderáveis
Exemplos de conversas hipotéticas, mas plausíveis:
1
- Oi, lembra de mim? (Sem dizer o nome, nem de onde nos conhecemos.)
- Não.
- Ah, vai dizer que não lembra; faz um esforço!
- Se eu fizer um esforço nem vou dizer o que vai sair.
- ...
2
- Oi, lembra de mim?
- E como eu poderia esquecer? Você foi aquela pessoa que apareceu, disse que me amava etc. etc. e que, de repente, depois que eu desgracei toda minha vida por você - ou seja, depois que me apaixonei - resolveu sumir, alegando que estava confusa, que tinha uma outra pessoa, com quem você inclusive ia casar, e o resto a gente já sabe. E como você está?
- Não, estou melhor, fiz terapia, e coisa e tal, agora estou bem. Mas só estou te ligando pra pedir desculpas pelo que fiz, que não foi legal nem pra mim nem pra você, e que espero que a gente possa ser amigos daqui pra frente...
- Ah, bom. Então vamos tomar um café para...
- Não, nem pensar! Sou uma pessoa casada, não quero retomar aquilo tudo, impossível a gente se ver!
(Pensamento: trata-se de uma pessoa que leva a expressão "amizade virtual" à últimas conseqüências. Ou é maluca mesmo. Tendo à segunda hipótese.)
3
- Oi, você não me conhece, mas eu conheço uma pessoa que te conhece e que diz que gosta muito de você e que você é muito legal.
- Sei. E quem é essa pessoa? (Quem, neste mundo sem deus, pode achar isso de mim?)
- Ah, adivinha!
(Nada mais boçal que essa coisa estúpida de ficar fazendo joguinho de adivinhação. Pior que isso, só mesmo a onda do politicamente correto.)
- Olha, não tenho a menor idéia. Mas espera um pouco que vou consultar a lista telefônica. Vou ditar nome por nome e, quando o nome dessa pessoa aparecer, você grita "achou!!!!". Combinado?
Faltou, como deve ter percebido o(a) leitor(a) mais arguto(a), o comentário a respeito de encontros com ex-colegas de faculdade. Vou deixar vocês na expectativa mais uma vez, sinto muito.
1
- Oi, lembra de mim? (Sem dizer o nome, nem de onde nos conhecemos.)
- Não.
- Ah, vai dizer que não lembra; faz um esforço!
- Se eu fizer um esforço nem vou dizer o que vai sair.
- ...
2
- Oi, lembra de mim?
- E como eu poderia esquecer? Você foi aquela pessoa que apareceu, disse que me amava etc. etc. e que, de repente, depois que eu desgracei toda minha vida por você - ou seja, depois que me apaixonei - resolveu sumir, alegando que estava confusa, que tinha uma outra pessoa, com quem você inclusive ia casar, e o resto a gente já sabe. E como você está?
- Não, estou melhor, fiz terapia, e coisa e tal, agora estou bem. Mas só estou te ligando pra pedir desculpas pelo que fiz, que não foi legal nem pra mim nem pra você, e que espero que a gente possa ser amigos daqui pra frente...
- Ah, bom. Então vamos tomar um café para...
- Não, nem pensar! Sou uma pessoa casada, não quero retomar aquilo tudo, impossível a gente se ver!
(Pensamento: trata-se de uma pessoa que leva a expressão "amizade virtual" à últimas conseqüências. Ou é maluca mesmo. Tendo à segunda hipótese.)
3
- Oi, você não me conhece, mas eu conheço uma pessoa que te conhece e que diz que gosta muito de você e que você é muito legal.
- Sei. E quem é essa pessoa? (Quem, neste mundo sem deus, pode achar isso de mim?)
- Ah, adivinha!
(Nada mais boçal que essa coisa estúpida de ficar fazendo joguinho de adivinhação. Pior que isso, só mesmo a onda do politicamente correto.)
- Olha, não tenho a menor idéia. Mas espera um pouco que vou consultar a lista telefônica. Vou ditar nome por nome e, quando o nome dessa pessoa aparecer, você grita "achou!!!!". Combinado?
Faltou, como deve ter percebido o(a) leitor(a) mais arguto(a), o comentário a respeito de encontros com ex-colegas de faculdade. Vou deixar vocês na expectativa mais uma vez, sinto muito.
22 de setembro de 2008
Mensagem na garrafa
Querida E.:
que bom que você veio aqui, leu alguma coisa e se deu ao trabalho de me mandar um e-mail comentando um de meus posts. Acho que você é a primeira pessoa, daquele pessoal da faculdade, que visitou meu blogue - a despeito de eu o manter já faz um certo tempo. Não vou negar que foi uma grata surpresa, eu que não gosto delas. E vindo de você, a quem muito admiro e respeito, foi particularmente especial.
Dito isso, reitero o que já dissera: muito do que este blogue traz é triste, menos por mim, e muito mais pelo mundo - que só faz nos deprimir mais e mais. Talvez a essência seja isso: não me permito o luxo da alegria - ainda que sejam as pequenas felicidades cotidianas, os instantes domésticos de plenitude - porque seria compactuar com a idéia de que nos espera alguma coisa que não seja a destruição, o aniquilamento, a decepção. Não sou assim; nunca fui. Acresce que, pela vias comuns do existir, tomamos contato com pessoas que nunca nos deixam esquecer a condição humana, essa capacidade infinita da crueldade, da vilania, da calhordice. Salvam-se, contudo, umas poucas, justamente aquelas que me fazem acreditar que ainda é possível adiar o lamaçal no qual chafurdaremos mais dia, menos dia. Você é uma dessas pessoas. E é por isso que escrevo esta carta, coloco-a numa garrafa e jogo-a neste mar virtual em que (ainda) conseguimos nos encontrar e nos falar. Talvez um dia você a leia. Talvez outros o façam. E eu, aqui, mesmo descrente da humanidade e de suas escolhas, pararei de teclar no computador e olharei pela janela, esperando que o dia que nasce ao menos não me traga as notícias cinzentas de sempre.
que bom que você veio aqui, leu alguma coisa e se deu ao trabalho de me mandar um e-mail comentando um de meus posts. Acho que você é a primeira pessoa, daquele pessoal da faculdade, que visitou meu blogue - a despeito de eu o manter já faz um certo tempo. Não vou negar que foi uma grata surpresa, eu que não gosto delas. E vindo de você, a quem muito admiro e respeito, foi particularmente especial.
Dito isso, reitero o que já dissera: muito do que este blogue traz é triste, menos por mim, e muito mais pelo mundo - que só faz nos deprimir mais e mais. Talvez a essência seja isso: não me permito o luxo da alegria - ainda que sejam as pequenas felicidades cotidianas, os instantes domésticos de plenitude - porque seria compactuar com a idéia de que nos espera alguma coisa que não seja a destruição, o aniquilamento, a decepção. Não sou assim; nunca fui. Acresce que, pela vias comuns do existir, tomamos contato com pessoas que nunca nos deixam esquecer a condição humana, essa capacidade infinita da crueldade, da vilania, da calhordice. Salvam-se, contudo, umas poucas, justamente aquelas que me fazem acreditar que ainda é possível adiar o lamaçal no qual chafurdaremos mais dia, menos dia. Você é uma dessas pessoas. E é por isso que escrevo esta carta, coloco-a numa garrafa e jogo-a neste mar virtual em que (ainda) conseguimos nos encontrar e nos falar. Talvez um dia você a leia. Talvez outros o façam. E eu, aqui, mesmo descrente da humanidade e de suas escolhas, pararei de teclar no computador e olharei pela janela, esperando que o dia que nasce ao menos não me traga as notícias cinzentas de sempre.
21 de setembro de 2008
Sobre rever pessoas
Os últimos dias, à parte a endoidecedora rotina de passar de um trabalho a outro, sem descanso, incluíram rever pessoas que eu não via há algum tempo e ensaiar uma tentativa de encontro entre ex-colegas de faculdade. No geral, gosto dessas ocasiões. Claro que só revemos pessoas de quem gostamos, a não ser em caos fortuitos como restaurantes e locais públicos, nos quais sempre existe a chance de esbarrar em gente desagradável. Assim sendo, e apesar de sempre premidos pelo tempo que não temos, são momentos em que você retorna a épocas menos infelizes, constata a passagem dos anos em você e nas pessoas, lembra situações cômicas ou nem tanto etc. Foi assim com a Renata, a Juliana e a Taty, questão de duas semanas atrás. Com a Fátima e a Kátia, no mesmo período. Com a Dani e a Janete, semana passada. Mais que mosaicos do passado, são e serão sempre presenças indeléveis, pelo que compartilhamos, pela amizade que fomos construindo - aos poucos e pacientemente. A elas, minha pequena homenagem neste blogue.
P.S.: valeria um post a respeito do acima citado encontro de ex-colegas. Mas deixo isso para uma próxima vez.
P.S.: valeria um post a respeito do acima citado encontro de ex-colegas. Mas deixo isso para uma próxima vez.
15 de setembro de 2008
Diretamente do inferno
A maturidade não traz sabedoria alguma. Também não proporciona epifanias, uma vida melhor, menos preocupações, essas coisas que a mídia faz questão de divulgar só para que tenhamos a ilusão de que, velhos, prestamos para alguma coisa que não seja azucrinar os novos. O que a maturidade traz, certamente, é uma saúde pior, a certeza de que seu corpo já não agüenta os trancos que o existir nos proporciona, o desalento, nenhum encanto.
6 de setembro de 2008
Hahaha
Imaginem a cena: lotação subindo ruas íngremes na zona leste. O motorista, ao que parece, tem vocação para assassino, daqueles psicopatas. Acelera, freia com força, passa por lombadas sem diminuir, faz curvas sem tirar o pé do acelerador. E a desgraça ali, lotada, um calor de cozinhar até galo velho, pessoas com o desodorante vencido. Para completar, o som berrando nos alto-falantes: "rebola, rebola, rebola... é assim que você gosta? rebola, rebola..." ou coisa do gênero. Não há mesmo nenhuma esperança pra essa gente. Eu disse gente? Esqueçam.
4 de setembro de 2008
Cultura isenta? Nem pensar!
E depois, quando eu digo que o mundo é composto de gente que f... e gente que é f... - e que a maior parte, incluindo eu mesmo, está no segundo grupo, ainda me dizem que sou pessimista. Acabei de ter mais uma prova, hoje mesmo, de que nem chego perto da verdade, quando o assunto é o mundo calhorda.
3 de setembro de 2008
Muito engraçado
O presidente, em mais uma de suas aparições públicas, desta vez fazendo demagogia com o petróleo que ninguém sabe se pode realmente ser extraído, soltou o verbo e pôs na avenida seu repertório infinito de gracinhas. A platéia que lá estava, toda ela composta de acólitos, deu risada. Não achei graça alguma. Na verdade até eu, com cólica renal, sou capaz de tiradas melhores e, diga-se, menos vulgares. Mas a pérola ficou para o trecho em que o grande líder iluminado disse que, do jeito que a Petrobras "vai fundo", daqui a pouco a broca vai puxar um "japonesinho" e aí teremos um problema internacional. Juro, estou com dor de estômago de tanto rir. Valem lembrar que, há pouco, o mesmo sujeito participava das cerimônias em comemoração ao centenário da imigração... japonesa. Diplomatas ririam, bajuladores rirão, a massa rirá. Mas, é claro, ninguém admitirá que discriminamos pessoas, tudo não passou de uma brincadeira, eu é que não tenho bom humor, sou um representante da direita etc. etc. Enquanto isso, a caravana passa...
1 de setembro de 2008
Para guardar no caderninho preto
Pesquisa recentemente divulgada mostra que parcela considerável do público de cinema prefere assistir a filmes dublados. Da pespectiva de quem gosta de ver tudo cor-de-rosa, nada mais animador, já que, assim, estamos nos igualando aos norte-americanos, que também preferem assistir aos filmes estrangeiros dublados no idioma deles. Estaríamos nos tornando menos colonizados, livrando-nos, desse modo, do jugo do imperialismo ianque? Nem pensar, já que 90% do que assistimos nos cinemas é produto de lá mesmo. O que a pesquisa mostra, de maneira quase cristalina, é que continuamos analfabetos, cada vez mais, e que não há estatística governamental que consiga mascarar a farsa que é o ensino neste país. Preferir a dublagem não é afirmar o idioma local, a marca de nossa nacionalidade capenga, mas simplesmente é uma forma de disfarçar a incapacidade de ler as legendas e acompanhar o filme ao mesmo tempo. Um problema que pode ser, também, coisa de limítrofe. Neste caso, concordo: estamos bem próximos aos norte-americanos.
27 de agosto de 2008
Reiteração necessária
Já disse mais de uma vez, mas não custa repetir - até para que eu mesmo não esqueça: não acredito em nada a não ser na infinita capacidade do ser humano ser um calhorda f.d.p. com qualquer um que não seja ele mesmo. Ou, como já escreveu Machado de Assis: "suporta-se com paciência a cólica alheia". Mas eu acho que nem isso.
18 de agosto de 2008
Das novidades meio antigas
Fui cobrado por não haver noticiado aqui minhas mais recentes atividades no campo da cultura, ou melhor, no campo da divulgação dela. Correndo o risco de ver quem eu não quero ou ler coisas desagradáveis escritas pelo desafeto habitual que insiste em achar que pode ser meu inimigo, vamos a elas:
- desde o último sábado (16 de agosto), estou ministrando uma oficina de literatura para o vestibular. Na verdade, são encontros em que este que vos escreve fala, por quase duas horas, sobre cada uma das obras que constam da lista de livros obrigatórios da Fuvest/Unicamp. A iniciativa é da Coordenadoria de Bibliotecas do Município de São Paulo, a quem agradeço a confiança depositada. Essas oficinas estão acontecendo em diversas bibliotecas da cidade, mas as minhas são a da Vila Prudente e a da Penha, onde fui muito bem recebido, tanto pelos funcionários quanto pelo público presente (só na Penha eram cerca de 100 inscritos).
- nas bancas, desde o último dia 15, o novo número da Biblioteca EntreLivros - Especial Literatura e Jornalismo, no qual escrevi sobre a crônica e particularmente sobre Nelson Rodrigues cronista esportivo. Acho que ficou pior que o anterior, sobre Machado de Assis, mas ficou assim, então não vou chorar sobre o leite derramado. Comprem, divulguem - se forem amigos(as). Se não forem, vão para o raio que os parta, que a vida já está chata o suficiente sem vocês, os invejosos...hehehe!
- desde o último sábado (16 de agosto), estou ministrando uma oficina de literatura para o vestibular. Na verdade, são encontros em que este que vos escreve fala, por quase duas horas, sobre cada uma das obras que constam da lista de livros obrigatórios da Fuvest/Unicamp. A iniciativa é da Coordenadoria de Bibliotecas do Município de São Paulo, a quem agradeço a confiança depositada. Essas oficinas estão acontecendo em diversas bibliotecas da cidade, mas as minhas são a da Vila Prudente e a da Penha, onde fui muito bem recebido, tanto pelos funcionários quanto pelo público presente (só na Penha eram cerca de 100 inscritos).
- nas bancas, desde o último dia 15, o novo número da Biblioteca EntreLivros - Especial Literatura e Jornalismo, no qual escrevi sobre a crônica e particularmente sobre Nelson Rodrigues cronista esportivo. Acho que ficou pior que o anterior, sobre Machado de Assis, mas ficou assim, então não vou chorar sobre o leite derramado. Comprem, divulguem - se forem amigos(as). Se não forem, vão para o raio que os parta, que a vida já está chata o suficiente sem vocês, os invejosos...hehehe!
13 de agosto de 2008
Todo dia...
A rotina, em si, não é ruim. Nociva é a rotina que se torna a única alternativa em sua vida. Esta, por seu turno, mais e mais expõe sua face descarnada. A agonia nos arrasta para o fundo de seu poço seco...
8 de agosto de 2008
Chove...
Alguns pesadelos se confirmam. Outros só adiam - para nossa agonia - sua chegada. Ao fim e ao cabo, para usar uma expressão bem desgastada, que bem-aventurança é possível e plausível em país escuso? Enquanto isso, sentimos os vermos roerem nossa carne, lentamente, sem descanso.
4 de agosto de 2008
O que nos espera...
Semana começando, volta às aulas, nenhuma expectativa a não ser o pior do pior. O caso da inglesa que foi morta e esquartejada pelo "namorado" dá o que pensar. Por exemplo: disseram que ela era apaixonada pelo Brasil. Ah, se era isso mesmo, bem-feito! Quem mandou achar que isso aqui (ô-ô) seria um lugar aprazível? Nem lá, nem cá: a verdade é que o mundo inteiro tornou-se insuportável e, para onde quer que a gente se volte, tem um mala para nos torrar o saco e/ou tornar nossa existência um inferno.
2 de agosto de 2008
31 de julho de 2008
Reflexão irrefletida
Há horas em que penso se há algum motivo para continuar. E, sinceramente, fico cada vez mais convicto de que não. Não neste mundo. Não nessas condições.
29 de julho de 2008
Para não ficar em branco
Assim: permaneço nessa cruzada insana pela sobrevivência, de modo que este blogue nem sempre será atualizado. O bom é que, no mês de julho, ninguém lê nada mesmo, e assim poucas pessoas ficaram descontentes. E em agosto - por sinal, mês do cachorro louco - sai outro número da Biblioteca EntreLivros com um artigo meu, desta vez sobre Jornalismo, Literatura e as Crônicas de Nelson Rodrigues. Está tão ruim que vocês vão ter de comprar a revista só para descer o malho.
20 de julho de 2008
De volta, ou quase...
Fato é que não existe vida intelectual quando você é obrigado a passar metade de sua vida tentando sobreviver, ou melhor, trabalhando somente para pagar suas contas...
Mas, para que não digam que morri e esqueci de me enterrar, tem poema meu publicado no Palavra, do Le Monde Diplomatique. Podem clicar aqui.
Mas, para que não digam que morri e esqueci de me enterrar, tem poema meu publicado no Palavra, do Le Monde Diplomatique. Podem clicar aqui.
4 de julho de 2008
Entrevista
Ninguém perguntou, mas como o blogue é meu mesmo, segue a entrevista que concedi à jornalista Francis Neves, publicada, em parte, no jornal laboratório do curso de Jornalismo da Unesp. O texto original foi modificado e aumentado, não alterando, contudo, sua essência. Boa leitura.
Pergunta: Qual parente seu veio diretamente do Japão? Como ele relata esta experiência?
R.: Meus avós, tanto os paternos quanto os maternos, vieram do Japão. Infelizmente, todos já faleceram. Os relatos que ficaram, sujeitos evidentemente às distorções de memória e acidentes de percurso, não diferem dos demais depoimentos de outros imigrantes. Falam dos tempos difíceis de adaptação à alimentação, clima, costumes e idioma. Meu avô paterno teria sido um dos fundadores da cidade de Assaí-PR, e lá ele teria sido uma espécie de micro-empresário na época, com fábricas de sorvete e refrigerantes (em épocas distintas). A repressão surgida principalmente durante a 2ª. Guerra parece ter sido mais intensa na região interiorana do Brasil, pelo que pude ouvir quando era criança. Aqui em São Paulo, onde minha mãe nasceu, ela teria sido um pouco menos explícita – uma de minhas tias casou-se com um descendente de alemães, e isso no final dos anos de 1950, quando esse comportamento não era dos mais aceitos entre os nipo-brasileiros.
P.: Como foi a adaptação do imigrante?
R.: Conforme disse antes, teria sido difícil. Não bastasse a má vontade das autoridades locais em relação aos japoneses, as diferenças eram enormes em relação a todos os aspectos da vida social. Ainda hoje, de certo modo, essas particularidades permanecem.
P.: Neste ano de 2008, duas escolas de samba (a Unidos da Vila Maria, em SP, e a Porto da Pedra, no RJ) retrataram o Japão no Carnaval. O que o senhor acha destes desfiles? Qual a importância deles para a comunidade nipônica no Brasil?
R.: Da minha perspectiva, a apropriação do tema por duas escolas de samba só se explica por conta do marketing em torno disso, a tal comemoração em torno dos 100 anos da imigração e o dinheiro que isso pode gerar. Claro que contribui para essa visão o fato de eu ter ojeriza pelo Carnaval, ainda que veja nele a plena expressão de um modo de ser "nosso" - para o bem e para o mal. Veja que o simples fato de eu dizer “nosso” já levantaria, por parte de muita gente, uma série de manifestações indignadas, primeiro por eu não gostar de Carnaval – o que confirmaria minha condição alienígena; segundo, por tomar como “meu” algo que os nacionais (como se eu não tivesse essa condição também) desejam exclusivamente para eles. A expressão “tem japonês no samba”, apesar de preconceituosa aos olhos de hoje, ainda diz muito do que muitos pensam a respeito dos nipo-brasileiros. Sinceramente, não vejo nisso nenhuma importância para a dita comunidade nipônica, a não ser fomentar a farsa ilusória de nossa "integração", que nunca – e friso o “nunca” – será plena, é bom reiterar.
P.: Como é a vida dos descendentes? No que difere dos brasileiros "comuns"?
R.: A pergunta, em si, já diz muito, embora eu saiba não ter sido sua intenção fomentar a desavença. Salvo os casos mais peculiares, não me parece haver grandes diferenças. No meu caso em particular, a única coisa que permanece é o hábito de comer arroz feito à moda japonesa – sem óleo nem sal. Me parece, contudo, que a garotada mais nova está voltando a assumir determinados hábitos, mas do Japão moderno, em função dos mangas e dos animes. Isso tem a ver com o fenômeno já velho da globalização, cujos efeitos deletérios ainda não foram totalmente sentidos por nós. Aqui em São Paulo, pelo menos, não vejo diferenças significativas, embora eu saiba haver comunidades no interior do estado que pautam sua vida em manter os costumes tradicionais do Japão, coisa que nem os próprios japoneses de lá mais sabem do que se trata.
P.: Houve alguma discriminação por ser japonês?
R.: Sempre, embora de maneira velada na maior parte das vezes. O que não torna a discriminação menos odiosa, pelo contrário. Veja que só o ato de chamar alguém de "japonês" (como escrevi numa daquelas crônicas no site da Abril) já é, em si, uma forma de discriminação. O que você diria se alguém chegasse numa roda de pessoas e chamasse o rapaz mais moreno de "ô, africano", ou coisa similar? Pois é assim que eu encaro o problema. Muitos dizem que é exagero de minha parte, ao que sempre respondo que, no começo, Hitler era só um sujeito mais excêntrico do que os demais. As desgraças da humanidade nunca começam de uma só vez. E acho hipocrisia os descendentes dizerem, como disseram em algumas reportagens recentemente veiculadas, que não sofreram discriminação ou que levam tudo na brincadeira. Com esse tipo de comportamento não se deveria brincar muito menos relevar.
P.: Em um dos seus textos no site da Abril, o senhor diz que "nunca serei considerado brasileiro - está na cara. Mas também não sou nem nunca serei japonês - e isto está no coração". Eu gostaria que o senhor explorasse essa realidade, que não é exclusividade sua (outros entrevistados meus disseram algo bem parecido!). Como é, então, se sentir assim, meio sem nacionalidade definida? Há coisas boas nesse sentido? R.: Se o mundo fosse um lugar menos injusto, talvez o fato de não pertencer a lugar algum fosse de fato uma vantagem. Mas não é, e cada vez mais parece que as coisas caminham para o aumento dos nacionalismos, dos extremismos, do ódio étnico e tribal. Curioso é que essa "sensação" não ocorre com os demais membros do caldo étnico-cultural brasileiro, não sei se você já reparou nisso. Um negro ou um branco sentem-se perfeitamente "brasileiros", e ninguém contesta a legitimidade disso. Agora, um oriental (e não me refiro aos árabes ou indianos, embora mesmo eles possam ser discriminados, e são), pelas características físicas, está sempre fadado a ser visto como estrangeiro. O fato de eu não saber o idioma japonês, por outro lado, me faria ser discriminado no Japão também, onde eu seria categorizado como "fracassado". Como declarei no texto citado por você, minha dedicação está voltada ao Brasil, pela perspectiva de um olhar crítico sobre nossa sociedade, o que talvez me dê uma visada menos usual, que mestres como Roberto Schwarz (austríaco) e Anatol Rosenfeld (alemão) tiveram a respeito do mesmo assunto. Claro que a comparação é descabida, pela desproporção intelectual entre mim e eles, mas serve como indicação a respeito do que estou tentando dizer. Não faz muito tempo, falei com um conhecido, Jiro Takahashi, a respeito da ausência do assunto "japonês" em meus poemas. Na verdade, foi falta de percepção de minha parte, porque esse assunto sempre esteve ali, e só depois dessa conversa é que me dei conta disso. No caso, sob a forma de textos que sempre falavam do divórcio entre o sujeito e o mundo onde ele vive. Nada mais nipônico do que isso: o sujeito que se isola – e o Japão é uma ilha. Tudo temperado pela experiência do convívio – nem sempre pacífico – com o diferente (e nada mais "brasileiro", no mesmo sentido). Em suma, o deslocamento/descolamento permite enxergar com muita propriedade as contradições irresolvíveis de nossa formação social, mas, ao mesmo tempo, faz com que esse olhar seja o tempo deslegitimado por conta de minha condição “estrangeira”. Isso também diz muito de nosso tempo, em que os nacionalismos temperados por visões fascistóides ou pseudo-socialistas pululam aqui e acolá, esfacelando a suposta integração que a internet e as bolsas de valores trariam, como vaticinaram os ideólogos do neoliberalismo. Aqui no Brasil, como tentei demonstrar, não tem sido muito diferente, e não é essa conversa a respeito do “mútuo respeito” entre os japoneses e os brasileiros que vai mudar minha avaliação. A esse respeito, aliás, li uma carta enviada pelo leitor de uma importante revista semanal, na qual ele reclamava da “falta de agradecimento” da comunidade nipo-brasileira por conta de matéria publicada em “homenagem” aos 100 anos da imigração e à contribuição dos japoneses na vida cultural brasileira. Afinal, disse o leitor, “não me lembro da revista ter feito o mesmo em relação às comunidades italiana, portuguesa etc.” Me perdoe a expressão, mas isso é o primor da grossura e do preconceito embutido sob a forma de civilidade. Civilidade essa que o tal leitor cobra de pessoas que foram vistas, até o início da década de 1950, como “incapazes”, “imprestáveis”, “nocivos à sociedade” e por aí vai. Então, ou se trata de desconhecimento histórico (o que nem por isso redime o leitor de sua grosseria) ou é canalhice mesmo. Acho que são as duas coisas.
Pergunta: Qual parente seu veio diretamente do Japão? Como ele relata esta experiência?
R.: Meus avós, tanto os paternos quanto os maternos, vieram do Japão. Infelizmente, todos já faleceram. Os relatos que ficaram, sujeitos evidentemente às distorções de memória e acidentes de percurso, não diferem dos demais depoimentos de outros imigrantes. Falam dos tempos difíceis de adaptação à alimentação, clima, costumes e idioma. Meu avô paterno teria sido um dos fundadores da cidade de Assaí-PR, e lá ele teria sido uma espécie de micro-empresário na época, com fábricas de sorvete e refrigerantes (em épocas distintas). A repressão surgida principalmente durante a 2ª. Guerra parece ter sido mais intensa na região interiorana do Brasil, pelo que pude ouvir quando era criança. Aqui em São Paulo, onde minha mãe nasceu, ela teria sido um pouco menos explícita – uma de minhas tias casou-se com um descendente de alemães, e isso no final dos anos de 1950, quando esse comportamento não era dos mais aceitos entre os nipo-brasileiros.
P.: Como foi a adaptação do imigrante?
R.: Conforme disse antes, teria sido difícil. Não bastasse a má vontade das autoridades locais em relação aos japoneses, as diferenças eram enormes em relação a todos os aspectos da vida social. Ainda hoje, de certo modo, essas particularidades permanecem.
P.: Neste ano de 2008, duas escolas de samba (a Unidos da Vila Maria, em SP, e a Porto da Pedra, no RJ) retrataram o Japão no Carnaval. O que o senhor acha destes desfiles? Qual a importância deles para a comunidade nipônica no Brasil?
R.: Da minha perspectiva, a apropriação do tema por duas escolas de samba só se explica por conta do marketing em torno disso, a tal comemoração em torno dos 100 anos da imigração e o dinheiro que isso pode gerar. Claro que contribui para essa visão o fato de eu ter ojeriza pelo Carnaval, ainda que veja nele a plena expressão de um modo de ser "nosso" - para o bem e para o mal. Veja que o simples fato de eu dizer “nosso” já levantaria, por parte de muita gente, uma série de manifestações indignadas, primeiro por eu não gostar de Carnaval – o que confirmaria minha condição alienígena; segundo, por tomar como “meu” algo que os nacionais (como se eu não tivesse essa condição também) desejam exclusivamente para eles. A expressão “tem japonês no samba”, apesar de preconceituosa aos olhos de hoje, ainda diz muito do que muitos pensam a respeito dos nipo-brasileiros. Sinceramente, não vejo nisso nenhuma importância para a dita comunidade nipônica, a não ser fomentar a farsa ilusória de nossa "integração", que nunca – e friso o “nunca” – será plena, é bom reiterar.
P.: Como é a vida dos descendentes? No que difere dos brasileiros "comuns"?
R.: A pergunta, em si, já diz muito, embora eu saiba não ter sido sua intenção fomentar a desavença. Salvo os casos mais peculiares, não me parece haver grandes diferenças. No meu caso em particular, a única coisa que permanece é o hábito de comer arroz feito à moda japonesa – sem óleo nem sal. Me parece, contudo, que a garotada mais nova está voltando a assumir determinados hábitos, mas do Japão moderno, em função dos mangas e dos animes. Isso tem a ver com o fenômeno já velho da globalização, cujos efeitos deletérios ainda não foram totalmente sentidos por nós. Aqui em São Paulo, pelo menos, não vejo diferenças significativas, embora eu saiba haver comunidades no interior do estado que pautam sua vida em manter os costumes tradicionais do Japão, coisa que nem os próprios japoneses de lá mais sabem do que se trata.
P.: Houve alguma discriminação por ser japonês?
R.: Sempre, embora de maneira velada na maior parte das vezes. O que não torna a discriminação menos odiosa, pelo contrário. Veja que só o ato de chamar alguém de "japonês" (como escrevi numa daquelas crônicas no site da Abril) já é, em si, uma forma de discriminação. O que você diria se alguém chegasse numa roda de pessoas e chamasse o rapaz mais moreno de "ô, africano", ou coisa similar? Pois é assim que eu encaro o problema. Muitos dizem que é exagero de minha parte, ao que sempre respondo que, no começo, Hitler era só um sujeito mais excêntrico do que os demais. As desgraças da humanidade nunca começam de uma só vez. E acho hipocrisia os descendentes dizerem, como disseram em algumas reportagens recentemente veiculadas, que não sofreram discriminação ou que levam tudo na brincadeira. Com esse tipo de comportamento não se deveria brincar muito menos relevar.
P.: Em um dos seus textos no site da Abril, o senhor diz que "nunca serei considerado brasileiro - está na cara. Mas também não sou nem nunca serei japonês - e isto está no coração". Eu gostaria que o senhor explorasse essa realidade, que não é exclusividade sua (outros entrevistados meus disseram algo bem parecido!). Como é, então, se sentir assim, meio sem nacionalidade definida? Há coisas boas nesse sentido? R.: Se o mundo fosse um lugar menos injusto, talvez o fato de não pertencer a lugar algum fosse de fato uma vantagem. Mas não é, e cada vez mais parece que as coisas caminham para o aumento dos nacionalismos, dos extremismos, do ódio étnico e tribal. Curioso é que essa "sensação" não ocorre com os demais membros do caldo étnico-cultural brasileiro, não sei se você já reparou nisso. Um negro ou um branco sentem-se perfeitamente "brasileiros", e ninguém contesta a legitimidade disso. Agora, um oriental (e não me refiro aos árabes ou indianos, embora mesmo eles possam ser discriminados, e são), pelas características físicas, está sempre fadado a ser visto como estrangeiro. O fato de eu não saber o idioma japonês, por outro lado, me faria ser discriminado no Japão também, onde eu seria categorizado como "fracassado". Como declarei no texto citado por você, minha dedicação está voltada ao Brasil, pela perspectiva de um olhar crítico sobre nossa sociedade, o que talvez me dê uma visada menos usual, que mestres como Roberto Schwarz (austríaco) e Anatol Rosenfeld (alemão) tiveram a respeito do mesmo assunto. Claro que a comparação é descabida, pela desproporção intelectual entre mim e eles, mas serve como indicação a respeito do que estou tentando dizer. Não faz muito tempo, falei com um conhecido, Jiro Takahashi, a respeito da ausência do assunto "japonês" em meus poemas. Na verdade, foi falta de percepção de minha parte, porque esse assunto sempre esteve ali, e só depois dessa conversa é que me dei conta disso. No caso, sob a forma de textos que sempre falavam do divórcio entre o sujeito e o mundo onde ele vive. Nada mais nipônico do que isso: o sujeito que se isola – e o Japão é uma ilha. Tudo temperado pela experiência do convívio – nem sempre pacífico – com o diferente (e nada mais "brasileiro", no mesmo sentido). Em suma, o deslocamento/descolamento permite enxergar com muita propriedade as contradições irresolvíveis de nossa formação social, mas, ao mesmo tempo, faz com que esse olhar seja o tempo deslegitimado por conta de minha condição “estrangeira”. Isso também diz muito de nosso tempo, em que os nacionalismos temperados por visões fascistóides ou pseudo-socialistas pululam aqui e acolá, esfacelando a suposta integração que a internet e as bolsas de valores trariam, como vaticinaram os ideólogos do neoliberalismo. Aqui no Brasil, como tentei demonstrar, não tem sido muito diferente, e não é essa conversa a respeito do “mútuo respeito” entre os japoneses e os brasileiros que vai mudar minha avaliação. A esse respeito, aliás, li uma carta enviada pelo leitor de uma importante revista semanal, na qual ele reclamava da “falta de agradecimento” da comunidade nipo-brasileira por conta de matéria publicada em “homenagem” aos 100 anos da imigração e à contribuição dos japoneses na vida cultural brasileira. Afinal, disse o leitor, “não me lembro da revista ter feito o mesmo em relação às comunidades italiana, portuguesa etc.” Me perdoe a expressão, mas isso é o primor da grossura e do preconceito embutido sob a forma de civilidade. Civilidade essa que o tal leitor cobra de pessoas que foram vistas, até o início da década de 1950, como “incapazes”, “imprestáveis”, “nocivos à sociedade” e por aí vai. Então, ou se trata de desconhecimento histórico (o que nem por isso redime o leitor de sua grosseria) ou é canalhice mesmo. Acho que são as duas coisas.
Assinar:
Postagens (Atom)