Estava eu voltando para casa, hoje, de metrô. Vagão cheio. No meio do trajeto, entra um camarada de camisa listrada (tenho um pé atrás com camisas listradas, já acho que é coisa de festa junina, o que também odeio), fone de ouvido pendurado no pescoço e falando alto, bem alto: "Não, meu querido, você vai ver, ela vai acabar se convencendo que está no caminho do pecado. Porque Jesus vai salvar ela. Sim, por Jesus!", e dava um murro na porta do vagão. Fez isso mais duas ou três vezes. Desligou o celular. Teclou outro número. E tornou a vociferar: "É, porque hoje está um dia lindo, um dia de Jesus. Um sol bonito, calor. Sim, porque eu acho que quando o sábado fica cinzento, é até coisa do...", e hesitou por um segundo. "...acho que deus (sim, para mim é minúsculo), nesses dias nublados, deus está de mau humor. Por Jesus!" E mais um murro na porta.
Pensei comigo: que espécie de divindade é essa que tem bom e mau humor, que faz dias cinzentos ou ensolarados conforme lhe dê na veneta de ter dormido de traseiro de fora da coberta ou não? Que deus é esse em que figuras assim acreditam? O que senti, ali, foi somente ódio e intolerância a quem fosse diferente do molde cristão; um fundamentalismo raivoso, de precisar andar com focinheira e rédea curta. Pior é constatar que ele não é o único, não será o último, mas que sua miopia é compartilhada entre milhões, incluindo gente poderosa e de prestígio, jogadores de futebol e políticos. É esse mundo que está chocando o ovo da serpente. E, sinceramente, não sei que quero estar vivo e fazer parte desse cenário que se desenha mais e mais no horizonte ensolarado de uma divindade tão excessivamente humana.
Blogue de um pretenso poeta, intelectual de cafeteria, reclamão de todas as horas e professor de Literatura por profissão (e, dizem, talento). Poemas e exercícios narrativos, crítica de cultura e maledicências ligeiras em tom farsesco. Tudo aqui é mentira.
26 de junho de 2010
Primeira edição esgotada!
E não é que a coisa acabou dando certo? Pois a tiragem inicial do Retratos japoneses do Brasil, antologia de narrativas nikkeis da qual tive a honra de participar, esgotou no lançamento. De acordo com a Marília, a organizadora, mais de duzentas pessoas compareceram (meus amigos, minhas amigas, ex-alunos e alunas etc. entre esse público - a quem agradeço publicamente) e prestigiaram o pequeno evento. Para quem não teve mesmo como ir, um aviso: há exemplares à venda na Livraria da Vila, na Saraiva e, sob encomenda, na Livraria Cultura. Para quem podia ter ido e não foi por preguiça, raiva de mim ou coisa de pequena monta, reitero que estão todos(as) devidamente marcados em meu livro de capa preta. Não que isso modifique em nada o que vocês já acham de mim, mas não custa reforçar o recado.
22 de junho de 2010
Carta a meu desafeto
(Atenção: o texto a seguir é ficcional. Qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, é mera coincidência. É preciso dizer isso sempre, que saco!)
Z:
olha, cansou. Nunca entendi bem essa sua necessidade de que eu reparasse em sua existência. Talvez seja complexo de inferioridade, alguma forma de compensar a ausência, em você, de atributos físicos e/ou intelectuais dos quais só você mesmo se convenceu. Quando, finalmente, percebo que você existe, me dou conta de que eu era apenas um objeto de suas neuroses, que você via em mim algo que com certeza você nunca seria nem será. Até tentei ser seu amigo, mas desde o início você me enfiou numa rede de mentiras e de histórias enviesadas das quais até hoje não sei separar o falso do eventualmente verdadeiro. Quando achei que você havia desistido de vez em tentar me sacanear, eis que recebo um recado seu dizendo que queria meu e-mail para que você pudesse bloqueá-lo. Como coisa que eu, em algum momento insano, iria escrever alguma coisa para você, ainda mais levando em conta que eu havia bloqueado você bem antes. Mais engraçado é eu fornecer meu e-mail - que você tem ou tinha - para sua finalidade amalucada. Quer me parecer que, na verdade, você ainda queria me atazanar a vida mais um pouco e inventou esse pretexto com esse único fim. Não posso dizer que não fico aborrecido, pois talvez tivéssemos alguma possibilidade de configurar algum trabalho conjunto, quiçá uma amizade. Mas você, como sempre, conseguiu destruir tudo com sua paranoia, sua neurose, seu orgulho de pseudopensador das esquerdas e das classes oprimidas. Fiquemos assim: guarde-se para seus raros amigos, aqueles que entendem seu complexo de feiúra e sua mania de grandeza. E, por favor, não me procure mais, não entre em meu blogue, não me mande mensagens, e-mails, o diabo. Viver já está complicado demais, e eu realmente não preciso de mais uma figura maluca a cruzar meu caminho.
Atenciosamente,
R.
Z:
olha, cansou. Nunca entendi bem essa sua necessidade de que eu reparasse em sua existência. Talvez seja complexo de inferioridade, alguma forma de compensar a ausência, em você, de atributos físicos e/ou intelectuais dos quais só você mesmo se convenceu. Quando, finalmente, percebo que você existe, me dou conta de que eu era apenas um objeto de suas neuroses, que você via em mim algo que com certeza você nunca seria nem será. Até tentei ser seu amigo, mas desde o início você me enfiou numa rede de mentiras e de histórias enviesadas das quais até hoje não sei separar o falso do eventualmente verdadeiro. Quando achei que você havia desistido de vez em tentar me sacanear, eis que recebo um recado seu dizendo que queria meu e-mail para que você pudesse bloqueá-lo. Como coisa que eu, em algum momento insano, iria escrever alguma coisa para você, ainda mais levando em conta que eu havia bloqueado você bem antes. Mais engraçado é eu fornecer meu e-mail - que você tem ou tinha - para sua finalidade amalucada. Quer me parecer que, na verdade, você ainda queria me atazanar a vida mais um pouco e inventou esse pretexto com esse único fim. Não posso dizer que não fico aborrecido, pois talvez tivéssemos alguma possibilidade de configurar algum trabalho conjunto, quiçá uma amizade. Mas você, como sempre, conseguiu destruir tudo com sua paranoia, sua neurose, seu orgulho de pseudopensador das esquerdas e das classes oprimidas. Fiquemos assim: guarde-se para seus raros amigos, aqueles que entendem seu complexo de feiúra e sua mania de grandeza. E, por favor, não me procure mais, não entre em meu blogue, não me mande mensagens, e-mails, o diabo. Viver já está complicado demais, e eu realmente não preciso de mais uma figura maluca a cruzar meu caminho.
Atenciosamente,
R.
Das hipocrisias
Olha, não tem coisa que me deixa mais emputecido que gente fingida, mentirosa. E nem preciso lembrar que são esses que fazem questão de cobrar de nós a sinceridade absoluta. Se isso existisse simplesmente não haveria vida social possível.
Não quero ser pessimista, mas...
... acho que ainda não vimos o pior do que está por vir. E eu me refiro a tudo.
Dos traumas
Podem duvidar, mas nunca mais misturo comida com remédio, bebida e noites sem dormir. Estou com azia até agora. Isso se não for um tumor no intestino, estômago ou em lugar pior.
Das doenças
Nas minhas andanças por aí conheci um bocado de pessoas doentes. No caso, doentes mentais. No geral, entre esquizofrênicos, psicóticos e paranoicos, a incidência maior está entre os últimos. No fundo, creio que todos somos um pouco cada um desses, em maior ou menor grau, o que possibilita ou impede a convivência social, conforme o caso. O problema é que alguns desses andam por aí, frequentando os bancos escolares. Há os que, inclusive, ministram aulas. Complicado quando esses duas figuras se encontram no mesmo tempo e espaço. Pior ainda: um não reconhece no outro sua própria doença. De modo que qualquer possibilidade de haver sociabilidade ali torna-se impossível. O encontro entre egos semelhantes, na cegueira e na insegurança, pode gerar incidentes irremediáveis. Melhor não misturar.
15 de junho de 2010
Bizarrices - 2
Cena 1, 14h30: um congestionamento dos infernos. Carros, ônibus, buzinas. Bares lotados. padarias idem. Nem um pastelzinho dava pra comer. Com fome mesmo, resolvi entrar no meu carro, que estava no estacionamento, e esperar até um pouco após o início do maldito jogo.
Cena 2, 15h45: quase nenhum carro na rua. Saí tranquilo e voltei pra casa. A coisa só ficou chata quando fui chegando perto do bairro onde moro. Os idiotas motorizados, bandeirinhas balançando ao vento, um braço pra fora da janela, coisa de pobre (e não de bolso) mesmo. Entrei no apartamento e tranquei a porta. Ufa, sobrevivi ao primeiro dia de jogo da "seleção" do anão, ops, do ser humano verticalmente prejudicado.
Cena 2, 15h45: quase nenhum carro na rua. Saí tranquilo e voltei pra casa. A coisa só ficou chata quando fui chegando perto do bairro onde moro. Os idiotas motorizados, bandeirinhas balançando ao vento, um braço pra fora da janela, coisa de pobre (e não de bolso) mesmo. Entrei no apartamento e tranquei a porta. Ufa, sobrevivi ao primeiro dia de jogo da "seleção" do anão, ops, do ser humano verticalmente prejudicado.
11 de junho de 2010
24 de maio de 2010
Uma antologia antológica!
Vou divulgar em outros lugares também, mas fica o lembrete: faço parte dessa antologia e ficarei feliz (até onde isso me é possível, claro! Rsrs) com a presença dos(as) amigos(as) no local. Se comprarem o livro, então, sou capaz até de me sentir otimista. Dia 25 de junho, a partir das 19 horas. Local? Casa das Rosas, ali no comecinho da avenida Paulista, em São Paulo.
22 de maio de 2010
Máximas diminutas
- Não existe incompreensão que não seja piorada por mais incompreensão ainda.
- A cada passo rumo ao topo da montanha mais perto você fica de se esborrachar lá embaixo.
- Pior que uma azia só mesmo somando a ela uma dor de cabeça de ver luzinhas à frente.
- Diga-me com quem andas e eu direi que deves sair em disparada na direção contrária.
- Gente que se contenta com menos inevitavelmente terá menos ainda. O mundo odeia a mediocridade. Bom, eu pelo menos odeio.
- Toda generalização é perigosa. Incluindo esta.
- O problema nem é trabalhar com esquizofrênicos. O difícil mesmo é suportar o odor.
- A cada passo rumo ao topo da montanha mais perto você fica de se esborrachar lá embaixo.
- Pior que uma azia só mesmo somando a ela uma dor de cabeça de ver luzinhas à frente.
- Diga-me com quem andas e eu direi que deves sair em disparada na direção contrária.
- Gente que se contenta com menos inevitavelmente terá menos ainda. O mundo odeia a mediocridade. Bom, eu pelo menos odeio.
- Toda generalização é perigosa. Incluindo esta.
- O problema nem é trabalhar com esquizofrênicos. O difícil mesmo é suportar o odor.
20 de maio de 2010
18 de maio de 2010
Aula básica
Quantas vezes tenho de dizer: não confundam minhas manifestações literárias com algo que encerre alguma verdade. Absolutamente tudo aqui é invenção de uma mente doentia. Mas isso qualquer estudante, de Letras ou não, deveria saber. Não tenho culpa se a burrice ou a maldade imperam por aí. É por essas é outras que desisti de escrever prosa ficcional. As pessoas acham que a personagem é alguém que eu conheça realmente, e aí a perversão corre solta. Então no dia em que eu escrever usando uma voz feminina significa que eu virei travesti, transformista ou mulher? Minhas personagens bebem; isso significa que eu sou um bebum inveterado? Vamos deixar claro de uma vez: tudo aqui é mentira. Eu mesmo não existo, sou uma personagem inventada por um sujeito que se esconde na alcunha de "O arquiteto das palavras". Por acaso vocês também acham que as opiniões de Brás Cubas eram as do Machado de Assis? Se acham, então peço que revejam tudo o que supostamente aprenderam, porque não aprenderam nadinha de nada. É irritante ter de voltar o tempo todo a essa mesma ladainha, que inferno!
Frases soltas
- A diferença entre ser insistente e ser inconveniente está ligada ao quanto o outro lado esteja ou não interessado em você.
- Nem tudo está carregado de segundas intenções, mas quase tudo é suspeito até prova em contrário.
- Não existe bondade que não envolva algum tipo de interesse. Sórdido ou não.
- Ninguém ama ninguém, esse é o fato. Buscamos no outro apenas uma boia para nos salvarmos de nosso próprio desespero.
- Se eu tivesse um único minuto a mais de vida, eu o gastaria lembrando de tudo o que não fiz por medo, conveniência ou estupidez. Negativismo até o momento final, este é meu lema.
- A morte não me amedronta. O que me apavora é não saber quando e como ela virá.
- Nem tudo está carregado de segundas intenções, mas quase tudo é suspeito até prova em contrário.
- Não existe bondade que não envolva algum tipo de interesse. Sórdido ou não.
- Ninguém ama ninguém, esse é o fato. Buscamos no outro apenas uma boia para nos salvarmos de nosso próprio desespero.
- Se eu tivesse um único minuto a mais de vida, eu o gastaria lembrando de tudo o que não fiz por medo, conveniência ou estupidez. Negativismo até o momento final, este é meu lema.
- A morte não me amedronta. O que me apavora é não saber quando e como ela virá.
17 de maio de 2010
Vazio
Não tenho certeza, mas acho que perdi alguma coisa que acabou. Ou foi o começo disso que eu deixei escapar.
13 de maio de 2010
A vida em seu ritmo
Aos poucos volto à vida mais ou menos normal. Mil pendências, entretanto, a que darei conta nas próximas semanas, antes de entrar em férias, as primeiras depois de três anos.
11 de maio de 2010
Coisinhas
Seja louco: trabalhe doze ou dezesseis horas por dia, arrume frilas para complementar o orçamento, leve trabalhos de alunos pra corrigir (mas só porque a instituição OBRIGA seus docentes a fazerem isso), prepare provas, ministre oficinas de literatura aos sábados e outras coisinhas mais que você ainda arruma para as horas vagas. É insano, mas não troco esta vida que levo agora por nada. Quer dizer: nada, propriamente não; talvez por um prêmio da megasena, sozinho. Eu disse TALVEZ. Afinal, depois eu teria de aguentar o assédio familiar e dos "amigos" que apareceriam aos borbotões.
Por um instante
Por um instante, o recinto onde estávamos ficou mais gelado que a tarde uivando lá fora.
10 de maio de 2010
Pílulas de sabedoria sem rumo
Numa relação qualquer, quem confunde dor pela perda com manifestação do "verdadeiro eu" do outro realmente é um se desprovido de qualquer tipo de inteligência.
6 de maio de 2010
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