Blogue de um pretenso poeta, intelectual de cafeteria, reclamão de todas as horas e professor de Literatura por profissão (e, dizem, talento). Poemas e exercícios narrativos, crítica de cultura e maledicências ligeiras em tom farsesco. Tudo aqui é mentira.
28 de outubro de 2008
Não bastasse isso ainda tem mais aquilo...
O ano está horrível para todo mundo, eu sei. Quer dizer, quase todo mundo. Projetos abortados, iniciativas postas a pique, revistas fechadas, livros que não serão editados, e assim vamos. Tudo até seria suportável - dentro dos parâmetros da economia de mercado - se não fosse o império da canalhice. Imagine a situação: um dia você está ali, trabalhando duro por uma revista ou por uma editora. No outro dia, você chega para trabalhar e, como dizia a canção, encontra outro em seu lugar. Assim, sem mais essa. Sem telefonema, sem aviso prévio, sem um mísero e-mail. Que vem depois que você escreve um, pedindo explicações. E aí, segue o balaio de desculpas esfarrapadas, incluindo um "se eu soubesse que você tinha interesse em continuar conosco..." Ah, então tá. Era o caso de perguntar isso diretamente para mim, não? Se bem que, sejamos francos, isso nem passou pela cabeça da dona fulana e seu jeito tosco de administrar uma empresa. E, sem querer rogar praga, que eu nem acredito nisso, mas tudo indica que aquela publicação não dura muito mais. Pena, pois já foi uma das mais importantes em sua área. Agora nem sabe para que lado atira, e quando o faz, faz errado. Perde colaboradores, perde amigos e vai cavando sua cova no cemitério das revistas memoráveis. Eu disse memoráveis? Sim, mas não por seus últimos anos...
22 de outubro de 2008
Das aprendizagens
Duas ocasiões em que as pessoas se revelam como realmente são: dirigindo (automóvel, moto, tanto faz) e no dia-a-dia do trabalho. Na verdade, tem mais uma: quando entra dinheiro na jogada. Tirando isso, somos socialmente contidos em tudo. (Eu ia dizer "hipócritas", "falsos", coisas assim, mas, pensando direito, o que restaria da civilização - qualquer uma - se todos nos revelássemos como somos?)
20 de outubro de 2008
Rapidíssima
Do porquê eu não acreditar na humanidade (o que inclui, apesar dos paradoxos, os advogados, economistas, jornalistas, políticos, escritores paranóicos e professores)
Porque não.
Porque não.
17 de outubro de 2008
Ninguém aprende mesmo...
Algumas coisas nunca mudam:
- nasce um trouxa a cada segundo;
- ninguém nunca perdeu dinheiro subestimando a inteligência alheia;
- só há duas certezas na vida: a de que vamos morrer e a de que alguém vai nos sacanear (frase que encabeça meu perfil orkuteano, e que devo à colaboração de meu colega de editora, Fernando);
- pior que cabeças de melancia só mesmo cobras criadas que não sobem escadas rolantes;
- não existe almoço grátis.
Tudo isso a propósito de uma campanha que tem mobilizado muita gente que ambiciona ter um serviço supostamente "de graça". E o povo ainda acredita nisso!
- nasce um trouxa a cada segundo;
- ninguém nunca perdeu dinheiro subestimando a inteligência alheia;
- só há duas certezas na vida: a de que vamos morrer e a de que alguém vai nos sacanear (frase que encabeça meu perfil orkuteano, e que devo à colaboração de meu colega de editora, Fernando);
- pior que cabeças de melancia só mesmo cobras criadas que não sobem escadas rolantes;
- não existe almoço grátis.
Tudo isso a propósito de uma campanha que tem mobilizado muita gente que ambiciona ter um serviço supostamente "de graça". E o povo ainda acredita nisso!
14 de outubro de 2008
Small potatoes
A respeito do último lance da campanha de Marta Suplicy, o que se pode dizer? Trata-se, sem dúvida, de um golpe baixo. Tão baixo quanto os desferidos por seus ex-adversários, em disputas anteriores. Ou quanto o de Collor contra Lula, quando ambos disputaram a presidência da República. Mas como se sabe, pimenta nos olhos dos outros... E, para completar a infâmia, vem a candidata afirmar, com a maior candura, que "não sabia de nada", que isso é "decisão do marqueteiro". Ah, me engana que eu gosto!
O teor da embrulhada faz-me lembrar de um fato ocorrido já há algum tempo, quando um colega professor teria dito a seus alunos que ele era "o único professor heterossexual do curso" (confrontado, ele teria negado tudo, como de praxe). Cabe perguntar qual a relevância disso: a homossexualidade faria um professor (ou seja lá o que for) pior? Homossexuais seriam incompetentes para exercer cargos de qualquer natureza? Para muita gente que se diz progressista, nada como um pequeno confronto para fazer cair a máscara do recalque, do preconceituoso internalizado na figura pública de pessoa "da esquerda", cujo passatempo é sair por aí acusando os desafetos de pertencerem à "direita". Assim, até eu.
O teor da embrulhada faz-me lembrar de um fato ocorrido já há algum tempo, quando um colega professor teria dito a seus alunos que ele era "o único professor heterossexual do curso" (confrontado, ele teria negado tudo, como de praxe). Cabe perguntar qual a relevância disso: a homossexualidade faria um professor (ou seja lá o que for) pior? Homossexuais seriam incompetentes para exercer cargos de qualquer natureza? Para muita gente que se diz progressista, nada como um pequeno confronto para fazer cair a máscara do recalque, do preconceituoso internalizado na figura pública de pessoa "da esquerda", cujo passatempo é sair por aí acusando os desafetos de pertencerem à "direita". Assim, até eu.
10 de outubro de 2008
Dos reencontros
Prometi que ia falar de reencontros, pois eis-me aqui conforme o prometido.
Depois de ter feito Letras, resolvi cursar outra graduação, em Comunicação Social. Não foi a melhor experiência de minha vida, mas o saldo foi, direi bastante positivo. Conheci pessoas legais lá - ainda que eu mesmo não tenha sido uma pessoa legal, mas isso não chega a ser nenhuma novidade para quem me conhece -, travei contatos com bons professores (e muitos picaretas também), acabei tendo uma formação que hoje me permite desempenhar até que bem algumas das atividades das quais retiro meu ganha-pão. Mas o melhor, de fato, foram as pessoas. Duas, em particular, são de minha maior estima, respeito e consideração: Érica e Cris (Moá, como a chamamos até hoje). Todos eram mais novos que eu, e plenos de uma juventude que me remoçava sempre que os encontrava (daí, talvez, meus arroubos adolescentes em plena idade do juízo...hehehe!). Enfim, o tempo passou, todos ou quase todos se formaram e, em 2006, a Cris resolveu agitar em reencontro em comemoração aos 10 anos da turma. Claro que nem todos foram, o que foi uma decepção, mas nem por isso inesperada. Neste ano, marcamos outro. E mais uma vez, só um terço da turma de reviu, praticamente os mesmos de 2006. Não obstante isso, pensamos em marcar um churrasco, desta vez na casa da Érica. Trocamos e-mails e, nessa troca, algo no mínimo bizarro aconteceu...
Um de nossos ex-colegas, cujo nome prefiro declinar aqui, resolveu entrar na conversa fazendo algumas gracinhas do tipo "sempre que ouço falar em encontrar pessoas que não vejo há tempos, sinto algo dentro de mim que não sei se é saudade ou falta de dramim..." Não me recordo das palavras exatas, mas o tom era mais ou menos esse. Ok, muitos vão dizer que, sendo eu mesmo um sujeito sarcástico, eu deveria ter entendido o rapaz, mas não foi mesmo o caso. Primeiro que esse tipo de coisa a gente diz "ao vivo", na cara das pessoas, até para deixar claro que é "somente uma brincadeira", ou coisa que o valha. Por escrito, em e-mails, geralmente soa mal. Segundo que, para mim, há coisas com as quais não se brinca, e a mais importante delas é a amizade. Nada é mais valioso que isso. E manifestar desprezo, por mais que tenha sido apenas uma forma jocosa de se dirigir a nós, soou - ao menos em meu entender - desrespeitoso. Sinto muito, meu caro, mas você podia ter nos poupado dessa, sinceramente. Pior é que, com essas e outras, nem sei mais se esse churrasco vai, afinal, acontecer. Talvez o tempo tenha separado definitivamente alguns de nós, não sei. Talvez tenhamos feito de nossas vidas algo tão insano que só reste mesmo lembrar de um tempo em que fomos mais felizes, pondo de lado qualquer possibilidade de reencontro. Talvez envelhecer seja isso, encarar o passado com as tintas de um sarcasmo que só confirma o quanto estamos despreparados para o presente...
Depois de ter feito Letras, resolvi cursar outra graduação, em Comunicação Social. Não foi a melhor experiência de minha vida, mas o saldo foi, direi bastante positivo. Conheci pessoas legais lá - ainda que eu mesmo não tenha sido uma pessoa legal, mas isso não chega a ser nenhuma novidade para quem me conhece -, travei contatos com bons professores (e muitos picaretas também), acabei tendo uma formação que hoje me permite desempenhar até que bem algumas das atividades das quais retiro meu ganha-pão. Mas o melhor, de fato, foram as pessoas. Duas, em particular, são de minha maior estima, respeito e consideração: Érica e Cris (Moá, como a chamamos até hoje). Todos eram mais novos que eu, e plenos de uma juventude que me remoçava sempre que os encontrava (daí, talvez, meus arroubos adolescentes em plena idade do juízo...hehehe!). Enfim, o tempo passou, todos ou quase todos se formaram e, em 2006, a Cris resolveu agitar em reencontro em comemoração aos 10 anos da turma. Claro que nem todos foram, o que foi uma decepção, mas nem por isso inesperada. Neste ano, marcamos outro. E mais uma vez, só um terço da turma de reviu, praticamente os mesmos de 2006. Não obstante isso, pensamos em marcar um churrasco, desta vez na casa da Érica. Trocamos e-mails e, nessa troca, algo no mínimo bizarro aconteceu...
Um de nossos ex-colegas, cujo nome prefiro declinar aqui, resolveu entrar na conversa fazendo algumas gracinhas do tipo "sempre que ouço falar em encontrar pessoas que não vejo há tempos, sinto algo dentro de mim que não sei se é saudade ou falta de dramim..." Não me recordo das palavras exatas, mas o tom era mais ou menos esse. Ok, muitos vão dizer que, sendo eu mesmo um sujeito sarcástico, eu deveria ter entendido o rapaz, mas não foi mesmo o caso. Primeiro que esse tipo de coisa a gente diz "ao vivo", na cara das pessoas, até para deixar claro que é "somente uma brincadeira", ou coisa que o valha. Por escrito, em e-mails, geralmente soa mal. Segundo que, para mim, há coisas com as quais não se brinca, e a mais importante delas é a amizade. Nada é mais valioso que isso. E manifestar desprezo, por mais que tenha sido apenas uma forma jocosa de se dirigir a nós, soou - ao menos em meu entender - desrespeitoso. Sinto muito, meu caro, mas você podia ter nos poupado dessa, sinceramente. Pior é que, com essas e outras, nem sei mais se esse churrasco vai, afinal, acontecer. Talvez o tempo tenha separado definitivamente alguns de nós, não sei. Talvez tenhamos feito de nossas vidas algo tão insano que só reste mesmo lembrar de um tempo em que fomos mais felizes, pondo de lado qualquer possibilidade de reencontro. Talvez envelhecer seja isso, encarar o passado com as tintas de um sarcasmo que só confirma o quanto estamos despreparados para o presente...
8 de outubro de 2008
Vocês não viram nada...
E a crise, que o Lula dizia que era "problema do Bush", chegou. Acresce que quase todo mundo acreditou em mais esse embuste, de onde se conclui que somos mesmo um país de bananas. Nanicas. Mas não fiquem felizes, porque o pior ainda não veio: a depressão em escala mundial, que vai levar à bancarrota muita gente e muito país. Espero, para variar, estar errado, mas não sei não...
Agora, o que poucos se perguntam é quem, afinal, está ganhando com essa barafunda toda? Sim, porque só um imbecil ingênuo pode acreditar que TODOS sairão perdendo com essa zona econômica. Não, queridos(as): alguém sempre ganha, e muito. E também não precisa ser muito esperto para saber quem: os especuladores de sempre. E não são os administradores da Sadia e da Aracruz, como o estúpido falastrão declarou. Essas empresas acreditaram na valorização do Real sob o império lulista. Cairam na real, finalmente. Talvez, no fundo, tenha sido merecido; afinal, quem mandou acreditar neste país e em quem o "governa"?
Agora, o que poucos se perguntam é quem, afinal, está ganhando com essa barafunda toda? Sim, porque só um imbecil ingênuo pode acreditar que TODOS sairão perdendo com essa zona econômica. Não, queridos(as): alguém sempre ganha, e muito. E também não precisa ser muito esperto para saber quem: os especuladores de sempre. E não são os administradores da Sadia e da Aracruz, como o estúpido falastrão declarou. Essas empresas acreditaram na valorização do Real sob o império lulista. Cairam na real, finalmente. Talvez, no fundo, tenha sido merecido; afinal, quem mandou acreditar neste país e em quem o "governa"?
1 de outubro de 2008
26 de setembro de 2008
Diálogos imponderáveis
Exemplos de conversas hipotéticas, mas plausíveis:
1
- Oi, lembra de mim? (Sem dizer o nome, nem de onde nos conhecemos.)
- Não.
- Ah, vai dizer que não lembra; faz um esforço!
- Se eu fizer um esforço nem vou dizer o que vai sair.
- ...
2
- Oi, lembra de mim?
- E como eu poderia esquecer? Você foi aquela pessoa que apareceu, disse que me amava etc. etc. e que, de repente, depois que eu desgracei toda minha vida por você - ou seja, depois que me apaixonei - resolveu sumir, alegando que estava confusa, que tinha uma outra pessoa, com quem você inclusive ia casar, e o resto a gente já sabe. E como você está?
- Não, estou melhor, fiz terapia, e coisa e tal, agora estou bem. Mas só estou te ligando pra pedir desculpas pelo que fiz, que não foi legal nem pra mim nem pra você, e que espero que a gente possa ser amigos daqui pra frente...
- Ah, bom. Então vamos tomar um café para...
- Não, nem pensar! Sou uma pessoa casada, não quero retomar aquilo tudo, impossível a gente se ver!
(Pensamento: trata-se de uma pessoa que leva a expressão "amizade virtual" à últimas conseqüências. Ou é maluca mesmo. Tendo à segunda hipótese.)
3
- Oi, você não me conhece, mas eu conheço uma pessoa que te conhece e que diz que gosta muito de você e que você é muito legal.
- Sei. E quem é essa pessoa? (Quem, neste mundo sem deus, pode achar isso de mim?)
- Ah, adivinha!
(Nada mais boçal que essa coisa estúpida de ficar fazendo joguinho de adivinhação. Pior que isso, só mesmo a onda do politicamente correto.)
- Olha, não tenho a menor idéia. Mas espera um pouco que vou consultar a lista telefônica. Vou ditar nome por nome e, quando o nome dessa pessoa aparecer, você grita "achou!!!!". Combinado?
Faltou, como deve ter percebido o(a) leitor(a) mais arguto(a), o comentário a respeito de encontros com ex-colegas de faculdade. Vou deixar vocês na expectativa mais uma vez, sinto muito.
1
- Oi, lembra de mim? (Sem dizer o nome, nem de onde nos conhecemos.)
- Não.
- Ah, vai dizer que não lembra; faz um esforço!
- Se eu fizer um esforço nem vou dizer o que vai sair.
- ...
2
- Oi, lembra de mim?
- E como eu poderia esquecer? Você foi aquela pessoa que apareceu, disse que me amava etc. etc. e que, de repente, depois que eu desgracei toda minha vida por você - ou seja, depois que me apaixonei - resolveu sumir, alegando que estava confusa, que tinha uma outra pessoa, com quem você inclusive ia casar, e o resto a gente já sabe. E como você está?
- Não, estou melhor, fiz terapia, e coisa e tal, agora estou bem. Mas só estou te ligando pra pedir desculpas pelo que fiz, que não foi legal nem pra mim nem pra você, e que espero que a gente possa ser amigos daqui pra frente...
- Ah, bom. Então vamos tomar um café para...
- Não, nem pensar! Sou uma pessoa casada, não quero retomar aquilo tudo, impossível a gente se ver!
(Pensamento: trata-se de uma pessoa que leva a expressão "amizade virtual" à últimas conseqüências. Ou é maluca mesmo. Tendo à segunda hipótese.)
3
- Oi, você não me conhece, mas eu conheço uma pessoa que te conhece e que diz que gosta muito de você e que você é muito legal.
- Sei. E quem é essa pessoa? (Quem, neste mundo sem deus, pode achar isso de mim?)
- Ah, adivinha!
(Nada mais boçal que essa coisa estúpida de ficar fazendo joguinho de adivinhação. Pior que isso, só mesmo a onda do politicamente correto.)
- Olha, não tenho a menor idéia. Mas espera um pouco que vou consultar a lista telefônica. Vou ditar nome por nome e, quando o nome dessa pessoa aparecer, você grita "achou!!!!". Combinado?
Faltou, como deve ter percebido o(a) leitor(a) mais arguto(a), o comentário a respeito de encontros com ex-colegas de faculdade. Vou deixar vocês na expectativa mais uma vez, sinto muito.
22 de setembro de 2008
Mensagem na garrafa
Querida E.:
que bom que você veio aqui, leu alguma coisa e se deu ao trabalho de me mandar um e-mail comentando um de meus posts. Acho que você é a primeira pessoa, daquele pessoal da faculdade, que visitou meu blogue - a despeito de eu o manter já faz um certo tempo. Não vou negar que foi uma grata surpresa, eu que não gosto delas. E vindo de você, a quem muito admiro e respeito, foi particularmente especial.
Dito isso, reitero o que já dissera: muito do que este blogue traz é triste, menos por mim, e muito mais pelo mundo - que só faz nos deprimir mais e mais. Talvez a essência seja isso: não me permito o luxo da alegria - ainda que sejam as pequenas felicidades cotidianas, os instantes domésticos de plenitude - porque seria compactuar com a idéia de que nos espera alguma coisa que não seja a destruição, o aniquilamento, a decepção. Não sou assim; nunca fui. Acresce que, pela vias comuns do existir, tomamos contato com pessoas que nunca nos deixam esquecer a condição humana, essa capacidade infinita da crueldade, da vilania, da calhordice. Salvam-se, contudo, umas poucas, justamente aquelas que me fazem acreditar que ainda é possível adiar o lamaçal no qual chafurdaremos mais dia, menos dia. Você é uma dessas pessoas. E é por isso que escrevo esta carta, coloco-a numa garrafa e jogo-a neste mar virtual em que (ainda) conseguimos nos encontrar e nos falar. Talvez um dia você a leia. Talvez outros o façam. E eu, aqui, mesmo descrente da humanidade e de suas escolhas, pararei de teclar no computador e olharei pela janela, esperando que o dia que nasce ao menos não me traga as notícias cinzentas de sempre.
que bom que você veio aqui, leu alguma coisa e se deu ao trabalho de me mandar um e-mail comentando um de meus posts. Acho que você é a primeira pessoa, daquele pessoal da faculdade, que visitou meu blogue - a despeito de eu o manter já faz um certo tempo. Não vou negar que foi uma grata surpresa, eu que não gosto delas. E vindo de você, a quem muito admiro e respeito, foi particularmente especial.
Dito isso, reitero o que já dissera: muito do que este blogue traz é triste, menos por mim, e muito mais pelo mundo - que só faz nos deprimir mais e mais. Talvez a essência seja isso: não me permito o luxo da alegria - ainda que sejam as pequenas felicidades cotidianas, os instantes domésticos de plenitude - porque seria compactuar com a idéia de que nos espera alguma coisa que não seja a destruição, o aniquilamento, a decepção. Não sou assim; nunca fui. Acresce que, pela vias comuns do existir, tomamos contato com pessoas que nunca nos deixam esquecer a condição humana, essa capacidade infinita da crueldade, da vilania, da calhordice. Salvam-se, contudo, umas poucas, justamente aquelas que me fazem acreditar que ainda é possível adiar o lamaçal no qual chafurdaremos mais dia, menos dia. Você é uma dessas pessoas. E é por isso que escrevo esta carta, coloco-a numa garrafa e jogo-a neste mar virtual em que (ainda) conseguimos nos encontrar e nos falar. Talvez um dia você a leia. Talvez outros o façam. E eu, aqui, mesmo descrente da humanidade e de suas escolhas, pararei de teclar no computador e olharei pela janela, esperando que o dia que nasce ao menos não me traga as notícias cinzentas de sempre.
21 de setembro de 2008
Sobre rever pessoas
Os últimos dias, à parte a endoidecedora rotina de passar de um trabalho a outro, sem descanso, incluíram rever pessoas que eu não via há algum tempo e ensaiar uma tentativa de encontro entre ex-colegas de faculdade. No geral, gosto dessas ocasiões. Claro que só revemos pessoas de quem gostamos, a não ser em caos fortuitos como restaurantes e locais públicos, nos quais sempre existe a chance de esbarrar em gente desagradável. Assim sendo, e apesar de sempre premidos pelo tempo que não temos, são momentos em que você retorna a épocas menos infelizes, constata a passagem dos anos em você e nas pessoas, lembra situações cômicas ou nem tanto etc. Foi assim com a Renata, a Juliana e a Taty, questão de duas semanas atrás. Com a Fátima e a Kátia, no mesmo período. Com a Dani e a Janete, semana passada. Mais que mosaicos do passado, são e serão sempre presenças indeléveis, pelo que compartilhamos, pela amizade que fomos construindo - aos poucos e pacientemente. A elas, minha pequena homenagem neste blogue.
P.S.: valeria um post a respeito do acima citado encontro de ex-colegas. Mas deixo isso para uma próxima vez.
P.S.: valeria um post a respeito do acima citado encontro de ex-colegas. Mas deixo isso para uma próxima vez.
15 de setembro de 2008
Diretamente do inferno
A maturidade não traz sabedoria alguma. Também não proporciona epifanias, uma vida melhor, menos preocupações, essas coisas que a mídia faz questão de divulgar só para que tenhamos a ilusão de que, velhos, prestamos para alguma coisa que não seja azucrinar os novos. O que a maturidade traz, certamente, é uma saúde pior, a certeza de que seu corpo já não agüenta os trancos que o existir nos proporciona, o desalento, nenhum encanto.
6 de setembro de 2008
Hahaha
Imaginem a cena: lotação subindo ruas íngremes na zona leste. O motorista, ao que parece, tem vocação para assassino, daqueles psicopatas. Acelera, freia com força, passa por lombadas sem diminuir, faz curvas sem tirar o pé do acelerador. E a desgraça ali, lotada, um calor de cozinhar até galo velho, pessoas com o desodorante vencido. Para completar, o som berrando nos alto-falantes: "rebola, rebola, rebola... é assim que você gosta? rebola, rebola..." ou coisa do gênero. Não há mesmo nenhuma esperança pra essa gente. Eu disse gente? Esqueçam.
4 de setembro de 2008
Cultura isenta? Nem pensar!
E depois, quando eu digo que o mundo é composto de gente que f... e gente que é f... - e que a maior parte, incluindo eu mesmo, está no segundo grupo, ainda me dizem que sou pessimista. Acabei de ter mais uma prova, hoje mesmo, de que nem chego perto da verdade, quando o assunto é o mundo calhorda.
3 de setembro de 2008
Muito engraçado
O presidente, em mais uma de suas aparições públicas, desta vez fazendo demagogia com o petróleo que ninguém sabe se pode realmente ser extraído, soltou o verbo e pôs na avenida seu repertório infinito de gracinhas. A platéia que lá estava, toda ela composta de acólitos, deu risada. Não achei graça alguma. Na verdade até eu, com cólica renal, sou capaz de tiradas melhores e, diga-se, menos vulgares. Mas a pérola ficou para o trecho em que o grande líder iluminado disse que, do jeito que a Petrobras "vai fundo", daqui a pouco a broca vai puxar um "japonesinho" e aí teremos um problema internacional. Juro, estou com dor de estômago de tanto rir. Valem lembrar que, há pouco, o mesmo sujeito participava das cerimônias em comemoração ao centenário da imigração... japonesa. Diplomatas ririam, bajuladores rirão, a massa rirá. Mas, é claro, ninguém admitirá que discriminamos pessoas, tudo não passou de uma brincadeira, eu é que não tenho bom humor, sou um representante da direita etc. etc. Enquanto isso, a caravana passa...
1 de setembro de 2008
Para guardar no caderninho preto
Pesquisa recentemente divulgada mostra que parcela considerável do público de cinema prefere assistir a filmes dublados. Da pespectiva de quem gosta de ver tudo cor-de-rosa, nada mais animador, já que, assim, estamos nos igualando aos norte-americanos, que também preferem assistir aos filmes estrangeiros dublados no idioma deles. Estaríamos nos tornando menos colonizados, livrando-nos, desse modo, do jugo do imperialismo ianque? Nem pensar, já que 90% do que assistimos nos cinemas é produto de lá mesmo. O que a pesquisa mostra, de maneira quase cristalina, é que continuamos analfabetos, cada vez mais, e que não há estatística governamental que consiga mascarar a farsa que é o ensino neste país. Preferir a dublagem não é afirmar o idioma local, a marca de nossa nacionalidade capenga, mas simplesmente é uma forma de disfarçar a incapacidade de ler as legendas e acompanhar o filme ao mesmo tempo. Um problema que pode ser, também, coisa de limítrofe. Neste caso, concordo: estamos bem próximos aos norte-americanos.
27 de agosto de 2008
Reiteração necessária
Já disse mais de uma vez, mas não custa repetir - até para que eu mesmo não esqueça: não acredito em nada a não ser na infinita capacidade do ser humano ser um calhorda f.d.p. com qualquer um que não seja ele mesmo. Ou, como já escreveu Machado de Assis: "suporta-se com paciência a cólica alheia". Mas eu acho que nem isso.
18 de agosto de 2008
Das novidades meio antigas
Fui cobrado por não haver noticiado aqui minhas mais recentes atividades no campo da cultura, ou melhor, no campo da divulgação dela. Correndo o risco de ver quem eu não quero ou ler coisas desagradáveis escritas pelo desafeto habitual que insiste em achar que pode ser meu inimigo, vamos a elas:
- desde o último sábado (16 de agosto), estou ministrando uma oficina de literatura para o vestibular. Na verdade, são encontros em que este que vos escreve fala, por quase duas horas, sobre cada uma das obras que constam da lista de livros obrigatórios da Fuvest/Unicamp. A iniciativa é da Coordenadoria de Bibliotecas do Município de São Paulo, a quem agradeço a confiança depositada. Essas oficinas estão acontecendo em diversas bibliotecas da cidade, mas as minhas são a da Vila Prudente e a da Penha, onde fui muito bem recebido, tanto pelos funcionários quanto pelo público presente (só na Penha eram cerca de 100 inscritos).
- nas bancas, desde o último dia 15, o novo número da Biblioteca EntreLivros - Especial Literatura e Jornalismo, no qual escrevi sobre a crônica e particularmente sobre Nelson Rodrigues cronista esportivo. Acho que ficou pior que o anterior, sobre Machado de Assis, mas ficou assim, então não vou chorar sobre o leite derramado. Comprem, divulguem - se forem amigos(as). Se não forem, vão para o raio que os parta, que a vida já está chata o suficiente sem vocês, os invejosos...hehehe!
- desde o último sábado (16 de agosto), estou ministrando uma oficina de literatura para o vestibular. Na verdade, são encontros em que este que vos escreve fala, por quase duas horas, sobre cada uma das obras que constam da lista de livros obrigatórios da Fuvest/Unicamp. A iniciativa é da Coordenadoria de Bibliotecas do Município de São Paulo, a quem agradeço a confiança depositada. Essas oficinas estão acontecendo em diversas bibliotecas da cidade, mas as minhas são a da Vila Prudente e a da Penha, onde fui muito bem recebido, tanto pelos funcionários quanto pelo público presente (só na Penha eram cerca de 100 inscritos).
- nas bancas, desde o último dia 15, o novo número da Biblioteca EntreLivros - Especial Literatura e Jornalismo, no qual escrevi sobre a crônica e particularmente sobre Nelson Rodrigues cronista esportivo. Acho que ficou pior que o anterior, sobre Machado de Assis, mas ficou assim, então não vou chorar sobre o leite derramado. Comprem, divulguem - se forem amigos(as). Se não forem, vão para o raio que os parta, que a vida já está chata o suficiente sem vocês, os invejosos...hehehe!
13 de agosto de 2008
Todo dia...
A rotina, em si, não é ruim. Nociva é a rotina que se torna a única alternativa em sua vida. Esta, por seu turno, mais e mais expõe sua face descarnada. A agonia nos arrasta para o fundo de seu poço seco...
8 de agosto de 2008
Chove...
Alguns pesadelos se confirmam. Outros só adiam - para nossa agonia - sua chegada. Ao fim e ao cabo, para usar uma expressão bem desgastada, que bem-aventurança é possível e plausível em país escuso? Enquanto isso, sentimos os vermos roerem nossa carne, lentamente, sem descanso.
Assinar:
Postagens (Atom)