27 de maio de 2006

As criaturas do esgoto

Um amigo, na verdade um grande amigo, disse-me que eu deveria deixar de me apoquentar com as cobras que, há alguns dias, resolveram fixar morada em minha casa. Confesso que, no começo, elas me assustavam: a pele viscosa, quase gosmenta; os dentes agudos pingando veneno; os olhos de não-ser (como diria Riobaldo). Silvavam naquele timbre irritante entre o metálico e o borbulhante, sabe como? Entravam pelas frestas, refestelavam-se nos móveis, deixavam tudo impregnado com um cheiro meio de vômito. Desapareciam quando eu me aproximava. Incômodo total. Tinha de limpar tudo, passar pano, desinfetante, álcool, abrir as janelas, deixar entrar o sol. E antes que o dia terminasse, bastava eu sair um minuto, elas voltavam. Até que conversei com esse meu amigo, na verdade um grande amigo. O segredo é não se deixar incomodar por elas. Ignorá-las. Mostrar qual é o verdadeiro lugar delas: as sombras, o esgoto, o imundo. Pena que já era um pouco tarde para salvar minha casa, toda carcomida pelas malditas. Aqui, porém, elas não virão. E, caso o façam, já sei exatamente como proceder.

6 comentários:

dona da jaca disse...

anotadíssimo!

é... eu fico no msn quase sempre, mas trabalhando, sempre fazendo alguma coisa que é aparentemente mais importante.

como vc tá?

Fabi Lima disse...

Hummm... foi feia a coisa heim querido?! Aqui certamente elas não virão!
Beijos e sucesso com o novo blog!

Ana Beatriz Guerra disse...

Oi, Ricardo, parabéns também pela sua iniciativa de abrir um novo espaço. Vamos nos visitar sempre! Abraço,

Ninne disse...

Ignorar funciona bem,mas nem sempre dá pra ignorar né?sei lá,pelo menos eu não consigo.

já arrumei lá o seu link :*

Carmem Luisa disse...

Você também escreve muito - muito bem.

Manu disse...

Fantástica metáfora! Entre linhas: to adorando tirar o atraso da leitura deste blog fantástico!