22 de junho de 2006

Historinha para passar na "Sessão da Tarde"

“O primeiro beijo ou: A garota mais vagal da cidade”

Andréia foi uma das alunas que tive quando dei aulas num colégio técnico em São Paulo. No começo, como em todos os anos, minha atenção restringiu-se ao comum: mais uma garota em meio a tantas outras que, estudando Processamento de Dados, não se conformava em ter Língua Portuguesa no currículo. Depois, passei a me sentir estreitamente ligado a ela. Não sei, uns cabelos negros e finos, e olhos dourados, e um corpo que sabia ser adolescente, deixando quase de o ser. Mas os lábios... os lábios grossos, quase pedindo, articulando palavras naquele tom fino e seguro e frágil, parecia sedução e eu me sentia tocado pelo contato tépido de sua língua e o ouro de suas íris irradiando luzes fixas sobre mim. Mas era minha aluna, uma garota ainda; como superar as culpas que eu sentia?
Soube, depois, que ela costumava, vez por outra, tomar o mesmo ônibus que eu, ao voltar para casa. Nessas ocasiões, ensaiávamos conversas tímidas de ambos os lados, eu sentia um desejo crescendo nela, ela em mim, só que não ousávamos ultrapassar o limite traçado, sei que havia o medo da rejeição, da palavra dura como um veredicto, do que seria uma mentira, mas o que fazer com as contradições humanas? Percebia, percebíamos nossas hesitações, mas nada se efetivava, e assim fomos até setembro.
Nessa época, eu iria me mudar de São Paulo, pedira demissão do emprego, era um dos meus últimos dias de aula. Andréia e eu saímos juntos, como nos acostumáramos a fazer. É engraçado pensar que, mesmo entre os seus e os meus colegas, não havia insinuações maldosas ou maliciosas, como se o que existisse entre nós fosse tão hipotético que sequer mereceria atenção. Chegamos à parada de ônibus, ambos num silêncio cheio de pontas; eu mesmo não entendia o porquê de minha mudança, que eu atribuía a experiências novas (com as conseqüências imagináveis) e, a despeito do que eu sentia por Andréia, ou por conta da incerteza de seus sentimentos, ou pelos dois fatores, o certo é que eu sairia da cidade. Dentro do coletivo, o mesmo mutismo. Nós nos olhávamos furtivamente, um querendo que o outro quebrasse a barreira do vazio que crescia entre mim e ela. Mas talvez fosse a última chance e, então, Andréia sussurrou:
- Vou descer um ponto depois do meu. Você me acompanha?
Sim, eu concordei e, apesar das sombras e da noite e do precário da situação, desci com ela, propus que caminhássemos até sua casa. Ela assentiu. Durante o percurso, paramos, Andréia virou-se de frente para mim, eu respirava com dificuldade, ela se equilibrou na ponta dos pés para me alcançar, passou seus braços em torno do meu pescoço, segurei sua cintura, passei minha língua por seus lábios úmidos, nos beijamos com delicadeza no início, depois com fúria, trocamos líquidos quentes, sim, eu beijei Andréia, um beijo doce de chiclete e desejos, beijei Andréia, rapazes!, e senti o aroma de seus cabelos e a firmeza de seu corpo sem dores, nos beijamos e quase em seguida nos afastamos, talvez uma culpa, não sei bem, sentimos vergonha do que fizéramos, sequer sabíamos por quê, e nos olhamos novamente, e voltamos a nos abraçar num beijo mais longo, sob as luzes artificiais da cidade.
- Minha despedida, disse Andréia, num sorriso de que eu nunca soube precisar o alcance.
Após isso, ficamos sem nos ver mais. Nesse tempo, voltei para São Paulo, readaptei-me à vida agitada daqui, procurei viver. Minha ex-aluna, no entanto, não me saía da memória. Escrevi para ela, telefonei-lhe, mas jamais obtive resposta ou retorno. Todos os dias, passava em frente a sua casa, numa tentativa tola de encontrá-la sem, no entanto, ter coragem de tocar a campainha e perguntar por ela.
Uma noite, pude revê-la. Entrou no ônibus, reconheceu-me, novamente aquele sorriso que tanto me cativara. Era quase a mesma: percebia-se o cabelo mais curto, ligeiramente ruivo, o corpo mais desenvolvido. Crescera: os seios querendo beijar o mundo.
- Oi, Ricardo!, ela me cumprimentou. E, diante do meu olhar interrogativo: Desculpa não ter ligado; você sabe, continuo muito preguiçosa. Fez o comentário e emendou: Conhece o Márcio?, apresentando-me seu namorado.
Beijei-a no rosto, estendi a mão ao rapaz, os dois se afastaram. Virei-me para Denise, uma amiga que me acompanhava, expliquei:
- Uma ex-aluna minha.
Foi o que eu disse. Mas pensei, disfarçando a sensação da perda quase irreparável que, ao menos, ele era bonito, muito mais bonito do que eu.

2 comentários:

Vivis disse...

Oie...Passando correndo pra deicar um "oi" e dizer que atualizei meu blogue. Passa lá. Besitos.

Manu disse...

Ricardo, não ouse acabar com estas narrativas tão fantásticas, estou lendo a todas, agora que tenho mais calma, e amando cada ponto, virgula e letra. Ah, também não vejo a hora do seu livro, meu velho. Não posso esperar mais. E um livro de contos/crônicas que se desenha também!!!