9 de junho de 2006

Mais um texto longo que ninguém vai ler...

“Os limites”

A amizade é sempre um aprendizado difícil. Enquanto brincamos, não importa se junto a árvores ou num videogame de última geração, estamos constantemente exercitando nossa capacidade de convivência, aceitando ou rejeitando o que o outro nos oferece ou subtrai. Já adultos, saindo em programas comuns ou oferecendo jantares, permanecemos aprendendo a controlar o encontro de egos os mais diversos, sempre temerosos da invasão alheia e da inevitável explosão que resultaria disso. Brigas, ofensas, mágoas, tudo parece um processo em que nós nos obrigamos a tomar atitudes que fundamentarão toda a nossa vida a partir daquele momento, apontando, ou para a felicidade, ou para a desgraça total.
Nunca fui de muitas amizades. Aliás, acho improvável que qualquer ser humano normal tenha, durante a vida, mais do que cinco ou seis amigos, daqueles de verdade. Durante a infância e a adolescência, tive pelo menos dois, em muita coisa opostos, mas que estiveram comigo em quase todos os momentos difíceis, desde a mudança de escola até o primeiro emprego. Sérgio era o mais expansivo; Henrique fazia o gênero ranzinza. Ainda que amigos, poucas vezes tivemos experiências em comum, talvez pela diferença de temperamentos que nos levava a posições, várias vezes, antagônicas. No geral, era eu o mediador, justamente o menos capaz de tomar qualquer tipo de decisão, quanto mais a que fosse correta ou conveniente. Uma vez, no entanto, tivemos de atuar juntos, ou quase.
Foi numa época em que a moda, entre nós, era jogar cartas. Nem importava muito o jogo, até porque não havia interesse monetário; éramos apenas um grupo de adolescentes competindo entre si para ver quem era o mais esperto ou o mais sortudo. Meus pais haviam saído, de modo que a casa era toda nossa. E, dentre as muitas bobagens que jovens são capazes de fazer quando se pilham sozinhos, alguns de nós escolheram a pior: beber. Sérgio estava nesse grupo. No começo, era difícil resistir ao rosto sorridente e redondo de nosso amigo, embalado por alguns goles de um vinho barato que alguém havia trazido. Os amendoins e as batatas fritas, que deveriam durar a tarde toda, estavam sendo devorados com uma velocidade inimaginável pelos que bebiam. Apenas Henrique e eu, sóbrios, acompanhávamos a escalada da euforia; no começo, divertidos; com o tempo, apreensivos. Sérgio parecia estar perdendo o controle, o que foi notado pelos demais: tudo o que fazia era olhar para as cartas que tinha na mão e rir, rir muito. Por melhor que fosse o jogo, não creio que houvesse motivo para tanta alegria, a não ser...
— Um bando de palhaços!, disse Sérgio.
— Como é que é?, perguntamos.
— Palhaços. O valete, a dama, o rei, o coringa... Ôrra, meu, cada figura esquisita!
O que fizemos foi trocar sensações de desamparo; nunca havíamos passado por aquilo. Nossos olhares se voltaram para o Nélson, um dos que trouxera as bebidas, e o mais experiente da turma. Sua tranqüilidade, seu autocontrole, seu senso de responsabilidade, com certeza, nos tirariam daquela situação complicada. Ele, levantando-se rapidamente, fez soar sua decisão:
— Bom, pessoal, hora de se mandar!
Se mandar? Mas que negócio era aquele? Nosso amigo ali, bancando o ridículo, mal podendo ficar sentado, quanto mais de pé, e a solução era ir embora? Além do mais, aquilo estava acontecendo em minha casa, e eu é que teria explicações a dar se o Sérgio, sei lá, desmaiasse, entrasse em coma, morresse. Além disso, onde deixaríamos o cadáver? Pensei no terreno baldio perto dali, mas foi um instante só. Logo voltei à realidade, constatando que, como bons adolescentes, estávamos, literalmente, entrando em pânico. Vozes se alternavam:
— Banho frio. Me disseram que banho frio é bom pra essas coisas.
— É, mas café é melhor pro cara acordar.
— Ele está dormindo?
— Bom, quando a gente deita no chão...
— Onde?!
—Ali, debaixo da mesa.
Com o coração dividido entre a batedeira e a geladeira, ou seja, entre a taquicardia e a síncope, decidimos aplicar todos os truques que conhecíamos para recuperar nosso amigo. Henrique, até então calado, lançou sua nota de sabedoria:
— Eu não falei? Só tinha que dar nisso mesmo! É o que dá não saber respeitar os limites!
— Limites? Que limites?, falei, enquanto tentava fazer com nosso bêbado debutante bebesse um pouco do café que havíamos preparado.
— Os limites, ora!, encerrou Henrique, balançando a cabeça.
Confesso que o mais difícil foi colocar o Sérgio no chuveiro, já que esse negócio de tirar roupa de homem não fazia parte de nosso cotidiano. Enfim, depois de muita luta e recomendações, deixamos o sujeito lá dentro, ainda vestido, rezando para que a água fria não o pusesse em estado de choque. Minutos de ansiedade se passaram até que a porta do banheiro se abriu, mostrando uma figura deplorável, os cabelos e as roupas pingando, e um riso sem graça nos lábios. Ainda trôpego, mas menos bêbado, Sérgio tentava se desculpar:
— Ô, pessoal, mancada, heim?, disse, enquanto se sentava.
O caso é que ele não se sentou. Digo melhor: desabou na cadeira e caiu direto ao chão, adquirindo a densidade do plasma. Não sei por quê, mas me lembrei também das aulas de biologia: nosso amigo era a encarnação da matéria protéica inerte, sem vontade própria. Entre a queda e esse pensamento, a debandada foi quase total: Nélson alegou uma dor de cabeça repentina, Walter tinha a lição de matemática para fazer, o Pedro esquecera a torneira do banheiro aberta. Ficamos somente o Henrique e eu. Além, é óbvio, de nosso incômodo bebum.
— E agora?, perguntei.
— Ele vomitou no banheiro. Bom, pelo menos acertou no vaso
Uma das figuras de linguagem mais recorrente em minhas relações fraternais era, sem dúvida, a ironia. Por outro lado, talvez ele estivesse falando aquilo a sério. Porque uma das coisas que mais me surpreendia no Henrique era sua capacidade quase única de ver a realidade sem qualquer maquiagem, extraindo dos fatos apenas o que eles continham de concreto.
— Vai morrer.
— Tá brincando!
— Você vai morrer se não arrumar essa bagunça. Olha o banheiro! A sala, então... E, balançando a cabeça: é o que dá passar dos limites.
Não agüentei aquele tom de sermão paterno adiantado. Afinal, já que eu tinha de levar a bronca, que ao menos fosse do titular, e não de um regra três qualquer. Com meus brios sacudidos, como diria o cronista, resolvi dar um basta naquela empulhação:
— Escuta, já tô por aqui com esse papo de “limites”, tá legal? Você só fala, fala, fala, mas fazer que é bom, nada! Quer saber? Por que você não foi embora junto com os outros? Pelo menos eu não tinha que ficar te agüentando aqui, me torrando! Sou eu que vou me ferrar, mesmo, não é?
Faltava um golpe final, uma frase arrasadora que colocaria aquele imbecil de uma vez por todas em seu lugar, aniquilando aquela existência miserável, alguma coisa do tipo...
— Pô, Henrique, me ajuda!
Por alguns segundos, os mais longos de minha vida até então, Henrique me olhou seriamente. Contemplou os copos sobre a mesa, as cartas espalhadas, bitucas de cigarros, a massa amorfa que um dia tinha sido nosso amigo, a água que ele trouxera do banheiro. Quando percebi, havia um sorriso em seu rosto, um sorriso meio gozador, meio solidário, não soube dizer exatamente qual seria, em meio a meu desespero.
— Se a gente começar agora acho que dá tempo até seus pais chegarem.
Não acreditei no que ouvi, pelo menos durante o pasmo inicial. Logo em seguida, porém, e mesmo sem compreender direito o que levara Henrique a mudar de humor, limpei, digo, limpamos todos os vestígios de nossa imprudência. Ao fim, restava apenas um, o mais pesado. Este, depois de mil pedidos de desculpas de nossa parte, foi entregue a seu pai, que, avalio, deve ter dado boas risadas com o ocorrido, passada a tempestade do primeiro momento.
Aquele dia, contudo, me marcou pela oportunidade de travar contato com um Henrique até então desconhecido. Ele, que não representava para mim mais que um colega muito mal-humorado, passara a ser uma pessoa com quem se podia contar, para os bons e maus momentos. Henrique me ensinara mais um passo na complicada arte da amizade. Com sua casmurrice, sua sinceridade irritante, mas, sobretudo, com sua tolerância, ele criou o elo que nos manteria unidos nos quase quinze anos seguintes, depois dos quais cada um de nós seguiu o seu caminho, seja lá para onde ele apontasse. Mas após tanto tempo, penso, algo satisfeito, que eu também lhe ensinei alguma coisa. O valor de um bom grito na hora certa, quem sabe? Ou a percepção dos limites da paciência alheia (no caso, a minha). Prefiro ser menos modesto, entretanto; digamos que, comigo, Henrique pôde exercer um pouco sua parte afetiva, escondida atrás da máscara da severidade nipônica tão longamente cultivada. Sem querer, ajudei meu amigo a romper um limite, mesmo que timidamente, e só naquela ocasião.
Nos anos seguintes, ainda aprenderíamos muito um com o outro, enquanto nossos egos cresciam e nossos olhos se voltavam para direções diversas. Jogamos futebol juntos, compartilhamos angústias amorosas, vivenciamos nossas dúvidas existenciais, até um dia em que deixamos de nos ver, de nos falar, de nos preocupar mutuamente com nosso bem-estar. Recentemente, pude vê-lo passando apressado pela rua. Esbocei um chamado, mas ele estava longe, talvez não me tivesse visto, ou preferisse mesmo não me ver. Eu poderia tê-lo alcançado, se quisesse, mas apenas observei-o dobrando a esquina seguinte, sumindo de minha vista. Creio que – é quase certo – talvez tenha sido melhor assim, somente a lembrança da amizade servindo de sustento para nosso afeto, de uma época em que romper limites pedia muito mais que coragem. A verdade é que não resistiríamos a nossos próprios fantasmas, à certeza de que o tempo passou e plantou raízes definitivas em todos nós, transformando-nos em homens vagos e insensíveis. Parece contradição, eu sei; mas quem disse que a vida não tem dessas coisas?

5 comentários:

Aline disse...

Ricardo, desculpe a ausência...é que ando correndo pra caramba!
Gostei muito do texto!! A todo momento estamos nos relacionando com pessoas muito diferentes e isso gera um aprendizado. Porém, amigos de verdade são poucos...ouso dizer, que pode-se contar nos dedos.
Beijos

Lívia disse...

Ricardo
Estou numa fase muito emotiva, só posso dizer que adorei seu texto, talvez pq eu me identifique, talvez pq eu não queira me distanciar de alguns de meus amigos... No fim sabemos que é exatamente isso o que acontece.

Beijos

diniz disse...

Lembro de ter lidos textos seus na cult . Teu blog é legal , se tiver um tempinho passe no desmemorias
www.desmemoria.zip.net

abraços
diniz

Kuka disse...

Quase deu pra ouvir "With a Little Help From My Friends" enquanto lia. Muito, muito bom! Que mania a sua de achar que só é bom em poesia!

Manu disse...

Cara, que relato maravilhoso, receio que eu tenha ficado de olhos mareados em pleno expediente, mas quem manda eu ler seus textos, sabendo do efeito que têm sobre mim? Dizem que amigo te ajuda com a mudança, mas um amigo de verdade te ajuda a esconder um corpo, destes, se houver um no mundo é muito para cada um de nós, mas como vovó já dizia: se deste mundo ao morrer houver uma única pessoa a quem possa chamar de amigo, então tua vida já terá valido a pena! (imagino que esta frase não é dela exclusiva, mas ela vive dizendo-a!). Vi em seu texto muitos momentos meus retratados e acredito que seja este mesmo o tal livro traçado que o P. Coelho (e todos o mundo oriental antes dele) quis dizer com Maktub, estava escrito! Um grande abraço meu velho. Obrigado por compartilhar este período.