6 de junho de 2006

Outra reedição...

Também publicado no falecido blogue, ainda hoje este pequeno escrito me parece dizer respeito. Menos aos sentimentos nele envolvidos, mas muito mais pelos significados que acabei, digamos, "embutindo" em seus meandros... Boa leitura!

“O medo do goleiro”

Todos já tiveram, sem exceção, ao menos um grande amor na vida. Ainda que limitado a uma única experiência – em geral adolescente; em alguns casos na fase madura – vivenciar o nascimento disso que será o tormento fundamental da existência humana é, sem dúvida, uma daquelas coisas que se farão imprescindíveis na educação sentimental de qualquer ser humano que se preze. Na minha vida, o primeiro desses grandes amores talvez se localize num período entre meus oito e quatorze anos, início da década de 70, logo que comecei a estudar numa escola estadual, recém-reformada – por dentro e por fora – pelo governo.
Conheci Márcia numa sala de aula, segundo ano do antigo primário, hoje primeiro grau. Éramos bem umas trinta ou quarenta crianças, todas muito parecidas em suas carências e capacidades. Num tempo em que os hormônios pareciam só vir depois dos treze ou quatorze anos, sermos "crianças" não chegava a ser bem uma ofensa. Naturalmente, havia algumas mais desenvolvidas que outras, mas nada que chegasse a atrapalhar uma certa homogeneidade próxima à do leite Ninho Instantâneo. Mas ela estava lá, destacando-se no meio daquele perigo de algazarra, com seu perfil arrebitado, num orgulho ainda sem consciência, balançando os cabelos... vá lá: claros, um ouro impuro mas brando em meus olhos castanhos. Sei que foi ali, naquele lugar, um segundo da esperança que ela ergueu, um sorriso e o exercício de matemática sem solução, foi bem ali que passei a amar secretamente Márcia e seus mistérios.
Até o grande incidente que inaugurou nosso período de separação, por volta dos treze anos, havia – não sei bem como dizer – havia sempre um clima de entendimento entre nós dois. Por imposições escolares, Márcia e eu costumávamos nos ver cotidianamente, na casa de nossa professora. Eu, como o melhor aluno da classe na época, bem entendido; Márcia como sobrinha-neta. Isso desde os oito anos de idade, uma convivência pacífica, ainda que cercada de cuidados de minha parte, sem saber exatamente o que me impelia a querer ficar mais e mais a cada dia, sentindo o perfume do banho tomado, um conforto incômodo que emanava de minha amiga, misturando regras gramaticais e ciências naturais, geografia e história em estudos sociais. O fato é que Márcia era uma presença maior que o Ultra-Seven em minhas tardes sem lição de casa ou futebol na rua. Sei que parece idiota, talvez fosse mesmo, porque todos o éramos naqueles tempos incontestáveis; mas Márcia e eu formávamos alguma coisa boa, de que eu não sabia precisar a exata matéria.
Isso, até o primeiro rompimento, objeto de outro relato, já antigo. Algum tempo mais tarde, ambos entrados na adolescência, voltamos a estudar na mesma sala. De início, separados por uma torrente de amigos e inimigos, por comportamentos e, principalmente, por uma espécie de namoro que ela começara no ano anterior, com um dos chamados "repetentes", numa época em que isso era motivo de estigmatização por parte de todos. Rubão, era como o chamávamos nós, os "estudiosos", por motivos que iam da obviedade até o obscuro das conversas maliciosas. Seja como for, nada me parecia tão distante quanto Márcia de braços dados com Rubão, e pensamentos nada românticos se pendurando no trapézio machadiano de minha cabeça me diziam que eu nunca mais conquistaria Márcia, que era assim mesmo, o mundo pertencia aos mais fortes. Bem, não diria o mundo todo, mas pelo menos sua parte feminina, que era o que importava naquele momento. O fato é que minha outrora amiga como que parecia se comprazer de desfilar com os músculos de Rubão diante, principalmente, de mim, recolhido num canto do pátio com minha magreza de não-esportista, junto a meus iguais.
Naquele ano, o último de nossa inocência, a direção da escola resolveu promover um campeonato interno de futebol de salão, e o torneio da oitava série envolvia apenas quatro classes, entre elas a minha. Em princípio, nada que me dissesse respeito, até sabermos que a condição sine qua non para participar era o desempenho, digamos, acadêmico. Traduzindo: notas baixas, "vermelhas", como dizíamos, excluíam o pelejador do time. Traduzindo a tradução: fui alçado à categoria de titular, eu que, apesar de gostar do esporte, nunca me considerei nada além de um jogador esforçado. Apesar disso, e para resumir a história, conseguimos levar o torneio até uma partida de desempate com a classe favorita, aquela em que jogava – adivinharam – Rubão, inacreditavelmente isento das sanções escolares. Na torcida, outra obviedade desta história: Márcia. O jogo prometia ser um massacre, já que Rubão e companhia, mordidos pela derrota diante de nós no jogo anterior, juravam vingança. Para aumentar o clima de perigo, uma garoa já não tão paulistana tornava o piso da quadra tão seguro quanto amor de adolescente. Com tudo isso, havia entre os jogadores de nosso time, talvez mais em mim que nos demais, um desejo, uma esperança, quem sabe uma confiança de vencer, de mostrar uma capacidade que nós mesmos desconhecíamos, e Márcia ali sentada, olhando para mim, para Rubão, eu não tinha bem certeza, sei que essa vontade foi tomando conta da gente, próximos à beira do milagre, que é o que esperávamos. A verdade é que o jogo começou nervoso, nós apenas tentando impedir que o adversário fizesse o gol, até, num instante distraído, a bola sobrar para mim, cara a cara com o goleiro, e eu acertar o chute com raiva calculada, um a zero. Então, quase sem querer, meus olhos se voltaram para Márcia, ignoro com que intenção, e não vi nada, ou melhor, vi exatamente isso: nada. A Márcia que eu conhecera e amara, isso eu percebia naquele momento, ainda que não tivesse palavras para o dizer, aquela Márcia não existia mais, pode ser que nunca tivesse existido, fruto de desejos infantis e adolescentes, só sei que minha Márcia passou a ser apenas uma imagem emoldurada no quarto de meus fantasmas pessoais, tamanha a impressão causada por aquele olhar, o primeiro de muitos que eu teria de enfrentar na vida.
Depois daquilo, a partida não fazia mais qualquer diferença, ao menos para mim. Tudo se quebrara, sem solda ou cola possível que não o tempo, mas não somente os dois de um jogo de futebol. Vencemos, para não se dizer que a perda foi total. Vencemos os favoritos, levamos a taça, as medalhas, as pequenas glórias de nossos quatorze anos. Vencemos, sobretudo, nossos temores mais evidentes. Mas aquele gol marcou um fim e um começo, que só hoje sou capaz de compreender em todas as implicações. As mulheres movem a vida, afinal, e isso eu percebi quando Márcia beijou um Rubão desconsolado naquela noite plena de vitórias, derrotas, e novos saberes. As medalhas e a taça sumiram com o passar do tempo, assim como meus companheiros de jornada, muitos ainda vivos, outros nem tanto. De minha ex-amiga, soube, recentemente, estar casada e feliz, longe de Rubão. O beijo de Márcia, esse, no entanto, está comigo até hoje, marcado na pele e nos olhos assombrados pelo desejo. Mudo. Como o medo do goleiro na hora do gol.

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