Blogue de um pretenso poeta, intelectual de cafeteria, reclamão de todas as horas e professor de Literatura por profissão (e, dizem, talento). Poemas e exercícios narrativos, crítica de cultura e maledicências ligeiras em tom farsesco. Tudo aqui é mentira.
27 de novembro de 2007
Notas do dia-a-dia
Atentem: a empresa onde você trabalha, em agradecimento pelos serviços prestados por seus colaboradores, promove uma confraternização de final de ano. Até aí, tudo bem. O detalhe é que você não pode levar ninguém, a não ser você próprio - o que também não chega a ser nenhum absurdo. O melhor vem agora: se você não for, precisa preencher um formulário dizendo o motivo de sua ausência. Em outras palavras: você é quase obrigado - por constrangimento - a ir. Claro que nada impede que o(a) infeliz preencha o bendito formulário justificando tudo, mas vai ficar com a pecha de antissocial, ou coisa pior. Afinal, a empresa está gastando dinheiro com a festa, a qual, pensando bem, foi feita para você. Olha, não vejo a hora de experimentar o churrasco e entrar na piscina com todo aquele pessoal bacana...
26 de novembro de 2007
Recesso
Tenho escrito cada vez menos neste blogue. Não que eu haja, como muitos, desgostado da função. Apesar disto aqui não me gerar um centavo, ainda obtenho centigramas de prazer que não têm preço - como diria o comercial de cartão de crédito. Mas o que não consigo é tempo. Ou, ao menos, o tempo necessário para pensar num escrito, refletir mal e porcamente a respeito do dia-a-dia, e batucar algumas letras no teclado do computador. Acresce que determinados assuntos estão se tornando proibitivos: não se pode falar sobre atos do (des)governo; sobre manifestações do MST, MSE, Educafro ou o cacete; sobre queda de avião, de cabelo ou de peso. Na verdade, se você não quiser correr o risco de um processo ou coisa do gênero, melhor não falar a respeito de COISA ALGUMA. Ou isso, ou é preferível estacionar nas banalidades pessoais, ou ater-se a coisas que não incomodam ninguém, como Literatura. E, dito isso, a que ponto chegamos, não?
Mas, fora daqui, e a despeito da mesmice que tomou conta de minha existência, tenho escrito uma e outra coisinha, sim. Mas, por ora, não vou divulgar nada aqui. Vou mandar tudo para as revistas eletrônicas e impressas para ver se alguma delas me publica. Preciso sair um pouco do anonimato.
Mas, fora daqui, e a despeito da mesmice que tomou conta de minha existência, tenho escrito uma e outra coisinha, sim. Mas, por ora, não vou divulgar nada aqui. Vou mandar tudo para as revistas eletrônicas e impressas para ver se alguma delas me publica. Preciso sair um pouco do anonimato.
21 de novembro de 2007
Cansa...
Diante de algumas notícias, a gente fica sem saber onde é menos pior: se aqui, onde temos de agüentar os boquirrotos de sempre, ou em qualquer outro país, onde a idiotice também grassa às pampas.
Merda por merda, talvez seja melhor ficar com aquela que já conhecemos...
Merda por merda, talvez seja melhor ficar com aquela que já conhecemos...
19 de novembro de 2007
Reflexões Ligeiras
- A vida pode não ser uma merda, mas está bem próxima da privada.
- A vingança nunca vem a galope.
- Para quem jamais comeu caviar, ensopado de rim é manjar dos deuses. O oposto, porém, nunca será verdade.
- Garçons mal-humorados estragam até a melhor das refeições.
- A vingança nunca vem a galope.
- Para quem jamais comeu caviar, ensopado de rim é manjar dos deuses. O oposto, porém, nunca será verdade.
- Garçons mal-humorados estragam até a melhor das refeições.
14 de novembro de 2007
A pedidos...
Você gosta de escrever poemas? Acha que leva jeito? Então participe do 1o. Concurso de Poesia Esquina no Armadilha Poética. Mais informações, clique aqui.
12 de novembro de 2007
Proselitismo
Assim: ajudem um pobre revisor a aumentar seu prestígio. Comprem a última revista CULT, onde meu nome aparece no Expediente. E, claro, leiam a revista, ora essa!
7 de novembro de 2007
6 de novembro de 2007
Mistérios da meia-noite
Matutando aqui no meu cantinho - como diria o caipira - cheguei a algumas conclusões nada edificantes:
- se você tem 28 anos (e declara isso para todo mundo, mais de uma vez) e assume o cargo de chefia, inclusive tendo como subordinado um sujeito de 45, deve mesmo dar uma certa insegurança. Isso talvez explique a antipatia de meu chefe em relação a mim.
- por outro lado, estou me lixando pra isso. Mesmo. Raciocinem: se você é simpático, vão achar que é bajulação; se não for, que é marcação ou má-vontade. Entre a hipocrisia e a sinceridade, fico sempre com a última - a não ser que seja o caso de demonstrar cinismo. Então, melhor concentrar todos os meus esforços em não parecer legal. Até porque não sou mesmo.
- por outro lado do outro lado, acho que o problema é de outra ordem. Só que, mais uma vez, não serei eu a trazer ou oferecer conforto ou soluções. Neste caso, melhor o divã de um analista. Freudiano.
- ainda sobrou o lance de eu negociar a troca de horários. Estou até agora elaborando estratégias, mas na hora o que vai acontecer mesmo é um "foda-se". No caso, eu mesmo. Pensaram o quê?
- se você tem 28 anos (e declara isso para todo mundo, mais de uma vez) e assume o cargo de chefia, inclusive tendo como subordinado um sujeito de 45, deve mesmo dar uma certa insegurança. Isso talvez explique a antipatia de meu chefe em relação a mim.
- por outro lado, estou me lixando pra isso. Mesmo. Raciocinem: se você é simpático, vão achar que é bajulação; se não for, que é marcação ou má-vontade. Entre a hipocrisia e a sinceridade, fico sempre com a última - a não ser que seja o caso de demonstrar cinismo. Então, melhor concentrar todos os meus esforços em não parecer legal. Até porque não sou mesmo.
- por outro lado do outro lado, acho que o problema é de outra ordem. Só que, mais uma vez, não serei eu a trazer ou oferecer conforto ou soluções. Neste caso, melhor o divã de um analista. Freudiano.
- ainda sobrou o lance de eu negociar a troca de horários. Estou até agora elaborando estratégias, mas na hora o que vai acontecer mesmo é um "foda-se". No caso, eu mesmo. Pensaram o quê?
5 de novembro de 2007
Resultados da contenda. Ou: Diálogos sem dialogismo.
- Então, semana que vem vou precisar trocar de horário.
(Sobrolhos levantando-se)
- Bom, converse com as colegas e se uma delas topar, por mim tudo bem.
(Ah, que bom, então tudo acaba recaindo nas costas do "colaborador", que ainda precisa se indispor com os demais... Ou seja, na hora H, ninguém colabora com o colaborador.)
- Ah, tá. Bom, mas se eu não conseguir que elas troquem comigo, como ficamos?
- Não ficamos.
- Sei. A opção é eu faltar. Se entendi bem, só posso trocar de horário se alguém se dispuser a ficar no meu lugar no horário em que eu deveria estar aqui mas não estarei, mesmo que eu me comprometa a cumprir o horário na parte da manhã. É isso?
- É.
- Então melhor faltar.
- É o risco que você vai correr.
- Bom... e quanto amanhã?
- A falta de amanhã você pode compensar chegando mais cedo ou saindo mais tarde nos dias seguintes.
- Que bom.
(Nessa altura, fiquei sem entender exatamente as razões de não poder efetuar uma troca de turnos sem que eu precise arrumar alguém que fique no meu lugar. Ou melhor: entendi, mas achei melhor fingir que não.)
- Ah, e não esqueça de preencher o formulário A-27/45-5 de Justificativa de ausência. Faça isso amanhã, ok?
(Mas eu não ia faltar justamente... Bom, preciso dizer que desisti de entender a lógica da coisa?)
(Sobrolhos levantando-se)
- Bom, converse com as colegas e se uma delas topar, por mim tudo bem.
(Ah, que bom, então tudo acaba recaindo nas costas do "colaborador", que ainda precisa se indispor com os demais... Ou seja, na hora H, ninguém colabora com o colaborador.)
- Ah, tá. Bom, mas se eu não conseguir que elas troquem comigo, como ficamos?
- Não ficamos.
- Sei. A opção é eu faltar. Se entendi bem, só posso trocar de horário se alguém se dispuser a ficar no meu lugar no horário em que eu deveria estar aqui mas não estarei, mesmo que eu me comprometa a cumprir o horário na parte da manhã. É isso?
- É.
- Então melhor faltar.
- É o risco que você vai correr.
- Bom... e quanto amanhã?
- A falta de amanhã você pode compensar chegando mais cedo ou saindo mais tarde nos dias seguintes.
- Que bom.
(Nessa altura, fiquei sem entender exatamente as razões de não poder efetuar uma troca de turnos sem que eu precise arrumar alguém que fique no meu lugar. Ou melhor: entendi, mas achei melhor fingir que não.)
- Ah, e não esqueça de preencher o formulário A-27/45-5 de Justificativa de ausência. Faça isso amanhã, ok?
(Mas eu não ia faltar justamente... Bom, preciso dizer que desisti de entender a lógica da coisa?)
1 de novembro de 2007
Paranóias
Tenho uma ligeira impressão de que meu chefe imediato não gosta muito de mim. Até aí, nenhuma surpresa. Pago um sorvete para quem disser que foi com minha cara assim, de primeira. A coisa não funciona desse modo, não comigo. Não sou simpático, não faço o menor esforço para sê-lo. Não me socializo com ninguém - além de eu ser doentiamente tímido. De ordinário, mantenho sempre a expressão de quem acabou de tomar óleo de fígado de bacalhau ou de quem sofre de cólica renal. Não sou bonito. E, com todos esses atributos, ainda me deram o privilégio de encerrar o expediente sozinho, ou melhor, junto com o acima referido superior. É muita sorte mesmo. Agora, imagino a felicidade que tomará conta do coração dele quando eu o avisar, semana que vem, que irei faltar na terça-feira e que daqui a duas semanas, precisarei trocar de turno. Vai ser uma festa. Não vejo a hora.
P.S.: Aliás, tem coisa mais escrota que chefe?
P.S.: Aliás, tem coisa mais escrota que chefe?
31 de outubro de 2007
Comentário rápido, para não esquecer
Eu já disse que poetas são seres estranhos? Aqui estou eu, para que não digam que estou mentindo...
29 de outubro de 2007
Efeméride
E vocês sabiam que hoje foi o Dia Nacional do Livro? Pois é, nem o Lula. O que não é nenhuma surpresa vindo de alguém que comparou a leitura ao exercício numa esteira elétrica (ou bicicleta ergométrica, tanto faz): no começo é um saco, depois você percebe o quanto faz bem... Sem comentários!
Pode até não ser, mas...
Sabe quando, no trabalho, você é o último a saber das novidades? O que fica com o pior horário de entrada e de saída? O que é sempre deixado de fora em todas as conversas e situações? Pois é, não sei até onde é paranóia minha, mas que tem coisa aí, isso tem!
Não que eu esteja me importando com a situação de enjeitado, mas é foda todo mundo tomar as decisões e você - parte diretamente interessada - não ter a palavra, não poder emitir opinião, não nada.
Muito embora o clima para conversas minimamente intelectuais, ali, seja nenhum. Acho que se eu trabalhasse sozinho, numa sala cheia de samambaias, teria mais estímulo cerebral do que na atual conjuntura.
Resistirei ali mais do que três meses? Well, o que não fazemos por uns trocados, não é mesmo?
Não que eu esteja me importando com a situação de enjeitado, mas é foda todo mundo tomar as decisões e você - parte diretamente interessada - não ter a palavra, não poder emitir opinião, não nada.
Muito embora o clima para conversas minimamente intelectuais, ali, seja nenhum. Acho que se eu trabalhasse sozinho, numa sala cheia de samambaias, teria mais estímulo cerebral do que na atual conjuntura.
Resistirei ali mais do que três meses? Well, o que não fazemos por uns trocados, não é mesmo?
27 de outubro de 2007
Coisas particularmente irritantes
1. Corre por aí certa mania, entre profissionais do ensino e coordenadores (ou coisa que o valha), de se dirigir ao outro chamando-o de "professor". Assim:
- Você não acha isso, professor?
Mais ou menos como alguns fazem com garçons, lixeiros, comissários(as) de bordo e outras categorias. Odeio isso. Odeio que me chamem assim. Da próxima vez vou responder: "Escuta, você me conhece? Se sim, me chame pelo nome. Se não, antes de se dirigir a mim, pergunte como me chamo. Se não quiser se dar a esse trabalho, nem fale comigo. Poupa uma série de aborrecimentos: o seu, por ter de perguntar meu nome; o meu, de ter de falar com você." (A quem considere que eu esteja renegando minha própria categoria: não é o caso. Racionem: quando eu chamo o outro de "professor", eu estabeleço uma diferença entre mim e ele. Ou seja, eu não sou professor, o outro é. Sendo assim, reitero: ou me chamam por meu nome, ou me trate por "colega", que ao menos estabelece uma equanimidade - que não existe, eu sei, mas é o preço que se paga por viver socialmente. Claro que todas essas observações valem se o outro não for um fdp carreirista e sabotador. Aí é melhor deixar o doido continuar a falar sozinho ao telefone celular, ou seja o que estiver fazendo...)
2. Antigamente, havia um setor nas empresas que se chamava "Departamento de(o) Pessoal", com pequenas variações aqui e ali. Como parecia pouco simpático e eficiente, mudaram para "Setor de RH". Hoje, já falam em "Gerência de Relações Humanas", "Gerência de Pessoas", o escambau. Claro que só mudou o nome, já que a putaria continua a mesma - se não pior. Agora, de todas essas modas administrativas, a que mais me torra a paciência é a boiolice de chamar o (outrora) empregado de "colaborador". Como assim, "colaborador"? Deve ser para justificar a merda da salário e a quantidade de serviço que jogam em nossas costas. Sendo, "colaborador", intui-se que eu esteja lá para ajudar a empresa a galgar os degraus do sucesso, se forma abnegada, vestindo a camisa da equipe. Oras, eu não visto nem a camisa do time de futebol para o qual torço, que dirá o de uma empresa que só faz sugar meu sangue... Não, gênios da administração, nós somos "empregados" mesmo, paus-mandados, submissos e submetidos ao poder. Estou lá para ganhar um dinheirinho que pague minhas contas, e não para estabelecer intimidades, ser solidário, amiguinho ou o c... Se isso acontecer, ótimo; todos saímos lucrando. Mas o que me irrita é essa obrigatoriedade. De qualquer coisa. Ademais, se eu quisesse trabalhar numa coisa que me obrigasse a ser simpático, ia ser Relações Públicas ou recepcionista de consultório dentário, e não isso que estou fazendo para vocês, que diabos!
- Você não acha isso, professor?
Mais ou menos como alguns fazem com garçons, lixeiros, comissários(as) de bordo e outras categorias. Odeio isso. Odeio que me chamem assim. Da próxima vez vou responder: "Escuta, você me conhece? Se sim, me chame pelo nome. Se não, antes de se dirigir a mim, pergunte como me chamo. Se não quiser se dar a esse trabalho, nem fale comigo. Poupa uma série de aborrecimentos: o seu, por ter de perguntar meu nome; o meu, de ter de falar com você." (A quem considere que eu esteja renegando minha própria categoria: não é o caso. Racionem: quando eu chamo o outro de "professor", eu estabeleço uma diferença entre mim e ele. Ou seja, eu não sou professor, o outro é. Sendo assim, reitero: ou me chamam por meu nome, ou me trate por "colega", que ao menos estabelece uma equanimidade - que não existe, eu sei, mas é o preço que se paga por viver socialmente. Claro que todas essas observações valem se o outro não for um fdp carreirista e sabotador. Aí é melhor deixar o doido continuar a falar sozinho ao telefone celular, ou seja o que estiver fazendo...)
2. Antigamente, havia um setor nas empresas que se chamava "Departamento de(o) Pessoal", com pequenas variações aqui e ali. Como parecia pouco simpático e eficiente, mudaram para "Setor de RH". Hoje, já falam em "Gerência de Relações Humanas", "Gerência de Pessoas", o escambau. Claro que só mudou o nome, já que a putaria continua a mesma - se não pior. Agora, de todas essas modas administrativas, a que mais me torra a paciência é a boiolice de chamar o (outrora) empregado de "colaborador". Como assim, "colaborador"? Deve ser para justificar a merda da salário e a quantidade de serviço que jogam em nossas costas. Sendo, "colaborador", intui-se que eu esteja lá para ajudar a empresa a galgar os degraus do sucesso, se forma abnegada, vestindo a camisa da equipe. Oras, eu não visto nem a camisa do time de futebol para o qual torço, que dirá o de uma empresa que só faz sugar meu sangue... Não, gênios da administração, nós somos "empregados" mesmo, paus-mandados, submissos e submetidos ao poder. Estou lá para ganhar um dinheirinho que pague minhas contas, e não para estabelecer intimidades, ser solidário, amiguinho ou o c... Se isso acontecer, ótimo; todos saímos lucrando. Mas o que me irrita é essa obrigatoriedade. De qualquer coisa. Ademais, se eu quisesse trabalhar numa coisa que me obrigasse a ser simpático, ia ser Relações Públicas ou recepcionista de consultório dentário, e não isso que estou fazendo para vocês, que diabos!
24 de outubro de 2007
Frase do dia
"A verdade é que aquilo lá não é um lugar pra você aprender coisas novas, fazer carreira, essas coisas. Aquilo, no máximo, serve pra você ganhar aquele dinheirinho de cada dia..." (Dita por uma moça a outra, numa rua do centro da cidade)
22 de outubro de 2007
Poesia na parada...
Para que não digam que estou completamente alheio ao que acontece: de 30 de outubro a 4 de novembro acontece o Tordesilhas - Festival Ibero-Americano de Poesia Contemporânea. Claro que a programação do evento sofre de uma lacuna irreparável, que é minha ausência, mas ainda assim vale a pena acompanhar os debates e os recitais. Para quem tiver interesse, favor conferir a programação clicando aqui.
20 de outubro de 2007
Rumo ao Inferno
1o. dia:
- Então, sr. Fulano, acho que está tudo OK pra você trabalhar aqui conosco - pelo menos de minha parte. Agora é só aguardar o pessoal dos Recursos Humanos entrar em contato com você. Mas não se preocupe: vai demorar um pouquinho, coisa de duas semanas mais ou menos. E eles avisam com antecedência, que é pra você não ficar correndo atrás de documentos, essas coisas...
2o.dia (24 horas horas depois):
- Sr. Fulano? Aqui é a K., da empresa Tal e Qual. Então, estou ligando para saber se o senhor pode estar vindo aqui no máximo até amanhã para pegar a lista de documentos que o senhor deve providenciar para sua contratação...
Fulano acha estranho, quase inconveniente a pressa, mas se conforma. A vida não está mesmo fácil. Concorda, e no dia seguinte vai a Empresa Tal e Qual. Cancela compromissos, deixa de fazer coisas importantes só para descobrir, na chegada à empresa, que a lista era uma lista mesmo. Uma folha de papel com a relação de cópias e cópias de todos os documentos possíveis e imagináveis. Só faltou pedir exame de fezes. Por via das dúvidas, confere mais uma vez a lista para ver se não havia também essa exigência.
- Fulano - diz K., com um sorriso no rosto - você poderia estar vindo amanhã para fazer o exame médico admissional?
Mais essa, pensou Fulano. Não, não poderia. Mas aí se lembra das contas vencendo, do saldo bancário cada vez mais negativo. "A que horas?" "Às dez da manhã." Justamente no dia do rodízio do meu carro, catso! Quase diz isso, mas contém-se. Não, tudo bem.
3o. dia: Depois de deixar o automóvel no estacionamento às 7 da manhã (já calculando o prejuízo das horas mortas da manhã), Fulano resolve tomar um café para fazer hora até o momento do exame. Que seria inútil, claro. Ninguém diz ao médico que está tomando remédio tarja preta numa situação dessas. Nem que é dado a explosões de fúria a cada seis meses. O médico também não pergunta isso. No máximo medem sua pressão, encostam o estetoscópio no peito do(a) candidato(a), rabiscam um "APTO" na ficha, e acabou.
Pois nem isso acontece: logo após chegar à empresa Tal e Qual, Fulano recebe a notícia de que, por uma emergência de "última hora" (resta saber que tipo de emergência não é "de última hora"...), o médico não viria. Mas que Fulano poderia estar marcando o exame para outro dia e horário. E tome mais quinze reais de estacionamento.
4o. dia: De posse do exame médico e da maior parte dos documentos, Fulano vai à empresa Tal e Qual. Toma um ligeiro chá de cadeira de vinte minutos. Aí aparece K. com uma pastinha. Mais papéis para assinar, preencher etc. Com as mesmas informações que estão nas fichas que Fulano preenchera no processo de seleção e nos documentos que ele segura debaixo do braço. Mais uma hora para preencher tudo, para K. conferir a documentação e sabe-se lá mais o quê.
-Bom, por enquanto está tudo certo, Fulano. Você só está me devendo as fotos, o Atestado de Antecedentes, a Carta de Recomendação do Último Emprego e todos os comprovantes de eleição desde 1980. Ah, falta também o senhor trazer sua ficha de Sócio-remido do Clube de Biriba de Penápolis...
- ...
- Então.. até segunda-feira!
- Como assim, segunda-feira? Eu tenho compromissos que não posso adiar nem cancelar... Até porque vocês me disseram que demoraria um pouco para me chamar...
- Pois é, mas é que tivemos uma alteração no cronograma. Sabe como é...
Nesse momento, Fulano pensa mais uma vez que seria o caso de mandar tudo à merda. Sabia que ia se arrepender de não ter feito isso, mas...
- Ah, estava me esquecendo, Fulano; preciso falar de seu desempenho nos testes... Veja, você foi bem na parte prática e na redação, mas se saiu um pouco ruim na parte teórica. Então, preciso que você, nesses três meses de experiência, se comprometa a sanar essas falhas, seja fazendo cursos, seja mostrando que está estudando, não importa. Mas é preciso que você demonstre esse empenho, ok?
- ...zzz!
- Sobre a indumentária...
- Indumentária? Ninguém me falou disso.
- Não, nada complicado. Sexta-feira todo mundo pode usar jeans, mas normalmente espera-se que a pessoa venha com roupas melhores.
Bom, agora está me chamando de malaco. Se ela soubesse que o jeans que estou vestindo custa mais que toda a roupa que ela enverga..., conjectura Fulano.
- Então, até segunda!
- Vá esperando. Ok, mais uma frase que fica nas intenções. Mas, na segunda, não apenas Fulano vai se atrasar, como vestirá uma calça jeans, camiseta e que foda a Tal e Qual, K. e a corja toda de engravatados que ali trabalha. Fodam-se-lhe todos, não importa por qual orifício excrecitório, excrecitante, excretatório - ah, vossas excelências sabem quais são!
- Então, sr. Fulano, acho que está tudo OK pra você trabalhar aqui conosco - pelo menos de minha parte. Agora é só aguardar o pessoal dos Recursos Humanos entrar em contato com você. Mas não se preocupe: vai demorar um pouquinho, coisa de duas semanas mais ou menos. E eles avisam com antecedência, que é pra você não ficar correndo atrás de documentos, essas coisas...
2o.dia (24 horas horas depois):
- Sr. Fulano? Aqui é a K., da empresa Tal e Qual. Então, estou ligando para saber se o senhor pode estar vindo aqui no máximo até amanhã para pegar a lista de documentos que o senhor deve providenciar para sua contratação...
Fulano acha estranho, quase inconveniente a pressa, mas se conforma. A vida não está mesmo fácil. Concorda, e no dia seguinte vai a Empresa Tal e Qual. Cancela compromissos, deixa de fazer coisas importantes só para descobrir, na chegada à empresa, que a lista era uma lista mesmo. Uma folha de papel com a relação de cópias e cópias de todos os documentos possíveis e imagináveis. Só faltou pedir exame de fezes. Por via das dúvidas, confere mais uma vez a lista para ver se não havia também essa exigência.
- Fulano - diz K., com um sorriso no rosto - você poderia estar vindo amanhã para fazer o exame médico admissional?
Mais essa, pensou Fulano. Não, não poderia. Mas aí se lembra das contas vencendo, do saldo bancário cada vez mais negativo. "A que horas?" "Às dez da manhã." Justamente no dia do rodízio do meu carro, catso! Quase diz isso, mas contém-se. Não, tudo bem.
3o. dia: Depois de deixar o automóvel no estacionamento às 7 da manhã (já calculando o prejuízo das horas mortas da manhã), Fulano resolve tomar um café para fazer hora até o momento do exame. Que seria inútil, claro. Ninguém diz ao médico que está tomando remédio tarja preta numa situação dessas. Nem que é dado a explosões de fúria a cada seis meses. O médico também não pergunta isso. No máximo medem sua pressão, encostam o estetoscópio no peito do(a) candidato(a), rabiscam um "APTO" na ficha, e acabou.
Pois nem isso acontece: logo após chegar à empresa Tal e Qual, Fulano recebe a notícia de que, por uma emergência de "última hora" (resta saber que tipo de emergência não é "de última hora"...), o médico não viria. Mas que Fulano poderia estar marcando o exame para outro dia e horário. E tome mais quinze reais de estacionamento.
4o. dia: De posse do exame médico e da maior parte dos documentos, Fulano vai à empresa Tal e Qual. Toma um ligeiro chá de cadeira de vinte minutos. Aí aparece K. com uma pastinha. Mais papéis para assinar, preencher etc. Com as mesmas informações que estão nas fichas que Fulano preenchera no processo de seleção e nos documentos que ele segura debaixo do braço. Mais uma hora para preencher tudo, para K. conferir a documentação e sabe-se lá mais o quê.
-Bom, por enquanto está tudo certo, Fulano. Você só está me devendo as fotos, o Atestado de Antecedentes, a Carta de Recomendação do Último Emprego e todos os comprovantes de eleição desde 1980. Ah, falta também o senhor trazer sua ficha de Sócio-remido do Clube de Biriba de Penápolis...
- ...
- Então.. até segunda-feira!
- Como assim, segunda-feira? Eu tenho compromissos que não posso adiar nem cancelar... Até porque vocês me disseram que demoraria um pouco para me chamar...
- Pois é, mas é que tivemos uma alteração no cronograma. Sabe como é...
Nesse momento, Fulano pensa mais uma vez que seria o caso de mandar tudo à merda. Sabia que ia se arrepender de não ter feito isso, mas...
- Ah, estava me esquecendo, Fulano; preciso falar de seu desempenho nos testes... Veja, você foi bem na parte prática e na redação, mas se saiu um pouco ruim na parte teórica. Então, preciso que você, nesses três meses de experiência, se comprometa a sanar essas falhas, seja fazendo cursos, seja mostrando que está estudando, não importa. Mas é preciso que você demonstre esse empenho, ok?
- ...zzz!
- Sobre a indumentária...
- Indumentária? Ninguém me falou disso.
- Não, nada complicado. Sexta-feira todo mundo pode usar jeans, mas normalmente espera-se que a pessoa venha com roupas melhores.
Bom, agora está me chamando de malaco. Se ela soubesse que o jeans que estou vestindo custa mais que toda a roupa que ela enverga..., conjectura Fulano.
- Então, até segunda!
- Vá esperando. Ok, mais uma frase que fica nas intenções. Mas, na segunda, não apenas Fulano vai se atrasar, como vestirá uma calça jeans, camiseta e que foda a Tal e Qual, K. e a corja toda de engravatados que ali trabalha. Fodam-se-lhe todos, não importa por qual orifício excrecitório, excrecitante, excretatório - ah, vossas excelências sabem quais são!
15 de outubro de 2007
E, falando em lembrar, esqueci...
...de avisar que tem textos novos no Le Monde Diplomatique Brasil. Não achou o link ao lado? Então, clique aqui.
Mas a propósito de quê?
A que mundo pertencem os professores? São uma classe social? Uma categoria profissional? Lúmpens? Devo confessar que não tenho a resposta. Certo é que, mais que qualquer outro segmento, o universo dos professores é amplo e quase irrestrito, o que confere o alto nível de picaretagem a que estamos sujeitos. Até os ditos populares rebaixam essa figura: "Quem sabe faz; quem não sabe, ensina." E por aí vai. Em vários casos, trata-se da mais pura verdade. E os interesses são tantos, que não há mesmo como conciliar tudo e todos, mesmo porque há tipinhos que se dizem professores que faça-me o favor! Ganhando o que ganha, e tendo de se desdobrar em inúmeros empregos para pagar as contas e o imposto de renda, não espanta o grau de ignorância de parcela significativa desses profissionais. E, tendo de se equilibrar entre a direção e a clientela, com ameaças (por vezes físicas) de ambos os lados, não admira as panes nervosas, o estresse, as doenças cardíacas e gastrointestinais. Mas vamos comemorar assim mesmo, a troco de nada, apenas para esquecer - por um momento que seja - a desgraça que fizeram de uma profissão que talvez seja a mais importante de todas, mas que nunca, nunca, nunca na história deste país foi tão vilipendiada por todos os que dela dependem: governantes, dirigentes, pais e filhos (da p., que seja!).
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