Por ora acabou. Se, de um lado, isso implica não ver mais (ou ver muito menos) pessoas que se tornaram queridas ao longo desses últimos dois anos, também significa ficar pelo menos um mês sem ter de olhar para a cara de muita gente infeliz. Viver, como os antigos discos de vinil, sempre tem dois lados.
Mas final de ano também traz consigo o inferno das compras. Não as suas, ou melhor, as minhas - que isso eu faço pela internet mesmo, que é muito mais cômodo e barato. O problema é que sair para um simples cineminha vira operação de guerra: é preciso planejar as estratégias de modo a não ser apanhado no congestionamento das ruas e dos estacionamentos. Isso implica sair da casa cedo, deixar o carro numa garagem central e pegar metrô, por exemplo. E haja disposição para entrar nos vagões cheios de gente suada, correndo o risco de ser furtado ou encontrar um grupo de adolescentes cheios de hormônios gritando em seus ouvidos.
E ainda temos as chuvas de verão. Ou melhor, as tempestades. Nessas horas, se você der o azar tremendo de estar preso no trânsito em lugares baixos ou próximo a rios e córregos, só resta abdicar de seu ateísmo e rezar. Não que a mão do criador baixará à Terra para resgatar seu carrinho das águas, mas já que você não vai mesmo conseguir salvar seu patrimônio da desgraça, corra e salve-se a si próprio. Se estiver numa região alta, cuidado com as árvores - muitas não suportam a ventania e os cupins e desabam sobre os carros. E nem adianta deixar o carro na garagem, a não ser que seja coberta e não esteja na baixada. Sabe como é: costuma chover granizo nesta época do ano...
Uma saída seria viajar. Mas como eu não tenho um Aerolula, desisti rapidinho da idéia. Até porque nem sei se terei emprego ou salário digno desse nome ano que vem. É bem provável que não. Pegar estrada virou coisa de suicida. Ir de ônibus é correr o risco de ser assaltado no meio do caminho. E esse negócio de reveillón, pra mim, é coisa de quem não se deu conta da merda em que estamos. Assim como o carnaval. Estão comemorando o quê, bando de alucinados?
Melhor mesmo ficar em casa, trancado. Mas, aí, dois problemas: os vizinhos, e a possibilidade de o prédio desabar. Bom, se for acontecer, melhor a segunda hipótese...
Blogue de um pretenso poeta, intelectual de cafeteria, reclamão de todas as horas e professor de Literatura por profissão (e, dizem, talento). Poemas e exercícios narrativos, crítica de cultura e maledicências ligeiras em tom farsesco. Tudo aqui é mentira.
16 de dezembro de 2006
11 de dezembro de 2006
Do mal e outras amenidades
Isto não é uma defesa da antipática tese que divide o mundo entre o "bem" e o "mal", ou como dizem os norte-americanos: entre os "bad guys" e os "good guys". Não acho que seja assim, essa coisa maniqueísta, e que tenta transformar em algo natural aquilo que é, essencialmente, psicossocial. Mas existem aqueles que parecem ter nascido para isso. Ou foram assim criados. E o que há em comum neles é a absoluta ausência da consideração pelo outro, que sempre é visto como aquele que deve ser vilipendiado. Seja como bajulador, seja como vítima de toda e qualquer violência possível. Conheço muitas pessoas assim. Não passa pela cabeça delas que temos contas para pagar, uma família (às vezes duas ou mais, conforme o caso), que nossa vida não se resume às picuinhas que eles próprios alimentam a fim de ganhar mais e mais poder. Para eles, a vida do outro não importa. Não vale nada. Daí as ameaças físicas, morais. Daí quererem o tempo todo processar quem não concorda com a visão doentia deles. Daí a profusão de chicaneiros. Como sempre há trouxas (ou conveniências) que façam o joguinho sujo dessas figuras, permanecemos assim. Será questão de ignorar a presença deles? E quando sua vida acaba cruzando o caminho dessas criaturas? Combatê-las significa criar o inferno para si mesmo(a); acatá-las significa aceitar a hipocrisia da relação. Afinal, somos todos farsantes, não é mesmo? Alguns mais, outros menos, mas todos. E, pensando bem, isso explica à perfeição como é que chegamos onde estamos: na merda. Enfim, boa semana para todos(as)!
5 de dezembro de 2006
Frases mornas
Algumas pessoas, se morressem, preencheriam uma lacuna infindável em nossa existência.
Tenho comigo a convicção de que não é possível termos certeza de nada.
Não, gente, eu ga-ran-to que essa ponte é firme. Podem seguir em frente que ninguém vai cair.
Porque comigo é assim: não gosto de me sentir enganado. E não sou passivo. Pensam que sou passivo? Pois então aguardem meu advogado.
(No que você se dirige à saída para tomar um café, o sujeito chama você e entoa a ladainha) Sabe aquele pessoal? Então, vou ferrar quase todo mundo. Porque me disseram que, além de você, sou o único que cobra essas coisas. Ah, faça-me o favor! Parece desprezo, ou acham que a gente tem cara de trouxa. Não, eu vou falar, um a um, com eles. (Nessa hora, você hesita entre dizer alguma coisa do tipo: 'E eu kiko?', ou dar de ombros na linha do 'fazer o quê?' A prudência nos impele para a segunda opção.)
Marcar encontro com antigos (ou mesmo novos) amigos é encrenca certa. Não pelos horários, que nunca batem. Nem pelos gostos em matéria de comida ou bebida. O problema é percebermos o quanto estamos cada vez mais longe deles quanto mais desejamos estar perto.
Olha, a única alternativa possível é... (Comentário meu: se é única, não é alternativa...)
A permanência do "apagão" aeroviário é a mostra cabal da ausência de rumos em que está o país. E Lula nem se importa com isso, e sequer precisa. Ou precisaria?
Para quem espera achar algum nexo entre as frases, aviso: não há. Encarem como frases soltas, compostas ao calor da hora e da observação dos acontecimentos da semana. Talvez o nexo esteja no mosaico que elas compõem, sei lá.
Tenho comigo a convicção de que não é possível termos certeza de nada.
Não, gente, eu ga-ran-to que essa ponte é firme. Podem seguir em frente que ninguém vai cair.
Porque comigo é assim: não gosto de me sentir enganado. E não sou passivo. Pensam que sou passivo? Pois então aguardem meu advogado.
(No que você se dirige à saída para tomar um café, o sujeito chama você e entoa a ladainha) Sabe aquele pessoal? Então, vou ferrar quase todo mundo. Porque me disseram que, além de você, sou o único que cobra essas coisas. Ah, faça-me o favor! Parece desprezo, ou acham que a gente tem cara de trouxa. Não, eu vou falar, um a um, com eles. (Nessa hora, você hesita entre dizer alguma coisa do tipo: 'E eu kiko?', ou dar de ombros na linha do 'fazer o quê?' A prudência nos impele para a segunda opção.)
Marcar encontro com antigos (ou mesmo novos) amigos é encrenca certa. Não pelos horários, que nunca batem. Nem pelos gostos em matéria de comida ou bebida. O problema é percebermos o quanto estamos cada vez mais longe deles quanto mais desejamos estar perto.
Olha, a única alternativa possível é... (Comentário meu: se é única, não é alternativa...)
A permanência do "apagão" aeroviário é a mostra cabal da ausência de rumos em que está o país. E Lula nem se importa com isso, e sequer precisa. Ou precisaria?
Para quem espera achar algum nexo entre as frases, aviso: não há. Encarem como frases soltas, compostas ao calor da hora e da observação dos acontecimentos da semana. Talvez o nexo esteja no mosaico que elas compõem, sei lá.
2 de dezembro de 2006
Rápida!
É assim a vida de professor: chega o final de semestre e você tem um zilhão de trabalhos e provas para corrigir (ou, ao menos, ler). E, por um desses estranhos casos tipo Além da Imaginação, você nunca tem tempo de fazer tudo no tempo certo e as coisa vão se acumulando sobre sua mesa até formar aquela pilha assustadora. E os alunos perguntando a nota, se você já corrigiu, se... Aí vem a resposta padrão deste escriba: "Mandei tudo pra reciclagem de papel, porque seu trabalho só servia mesmo pra isso..." Finura incomparável, dita daquele jeito que só meus bons alunos entendem. E todos rimos com isso. Quer dizer, nem todos. Mas esses são os eternos enrustidos da vida. Enfim, tudo isso para justificar os longos intervalos sem escrever nada neste blogue (não que isso faça alguma diferença, claro!)...
26 de novembro de 2006
Pois então...
Nesse meio tempo: o Milton Hatoun ganhou outro prêmio, o invasor deste blogue levou o terceiro lugar (muito embora seu último livro tenha sido um fiasco - mas concursos literários sempre têm esse lance do imponderável e do inexplicável...), o São Paulo consagrou-se campeão brasileiro de 2006 (ainda que pudesse ter ganhado a Libertadores), fui a Uberlândia passar calor e apresentar um trabalho, tive problemas gastrointestinais (mas por conta de um pastel insidioso...hehehe!), vi que tem muita gente boa com trabalhos de boa qualidade pelo Brasil, vi também que a quantidade de ruindades ultrapassa exponencialmente as coisas boas, e por aí vai. E que não tem nada melhor que dormir, sob um calor insuportável, com o ar condicionado ligado. Os ecologicamente corretos que me desculpem, mas não vou dormir de janela aberta para sentir a brisa que não havia...
Aliás, nesse papo de "politicamente corretos", caímos na possibilidade da ditadura petista mais e mais ganhar músculos. Isso é péssimo para a democracia - pelo menos para aquela idéia feliz que ainda temos dela -, já que faz descrer da possibilidade de que a vida possa ser melhor sob seus auspícios. O problema é que ela (a democracia) dá trabalho, exige vigilância, e não conheço um malandro neste país que esteja disposto a fazer algo que não seja pelo seu próprio bem. É por isso que alguns ganham destaque e outros ficam no limbo.
Aliás, nesse papo de "politicamente corretos", caímos na possibilidade da ditadura petista mais e mais ganhar músculos. Isso é péssimo para a democracia - pelo menos para aquela idéia feliz que ainda temos dela -, já que faz descrer da possibilidade de que a vida possa ser melhor sob seus auspícios. O problema é que ela (a democracia) dá trabalho, exige vigilância, e não conheço um malandro neste país que esteja disposto a fazer algo que não seja pelo seu próprio bem. É por isso que alguns ganham destaque e outros ficam no limbo.
25 de novembro de 2006
De volta.
O simpósio em Uberlândia foi bom. Fez um calor do capeta, tive de bancar o coordenador do Grupo de Trabalho do qual participei, não tive ânimo de sair do périplo hotel-congresso-jantar-hotel, mas tudo correu bem. Não entreguei o trabalho apresentado, mas devo mandar uma versão melhor para a revista do Instituto de Letras. E me desliguei de celular, e-mail, orkut, essas coisas todas. Sequer consegui ler jornal. Mas reencontrei antigos colegas, agora professores em outras instituições espalhadas pelo país, vi trabalhos interessantes, tomei sorvete de milho verde e comprei queijo. E o melhor: meus vôos, tanto de ida quanto de volta, não atrasaram. Deu uma certa muvuca na chegada em Congonhas, mas isso já era esperado. De modo que estou de volta, trazendo na bagagem uma e outra coisa nova. Mas deixa eu desempacotar tudo...
Drika, não tenho a menor idéia de como fazer seu nome aparecer como você gostaria que fosse... Nessas coisas da vida digital sou um quase analfabeto. Bem, melhor isso do que se achar um grande escritor e fazer lobby para tentar ganhar prêmios, e nem assim...
Drika, não tenho a menor idéia de como fazer seu nome aparecer como você gostaria que fosse... Nessas coisas da vida digital sou um quase analfabeto. Bem, melhor isso do que se achar um grande escritor e fazer lobby para tentar ganhar prêmios, e nem assim...
18 de novembro de 2006
Um intervalo para nossos comerciais...
Semana sem novidades: basta dizer que estarei em Uberlândia, na Universidade Federal de lá, participando de um simpósio de Letras e Lingüística. Vou apresentar uma comunicação a respeito dos contos de Marçal Aquino, coisa básica. Fiquem aí quietinhos(as) que eu voltarei logo, e repleto de notícias...
14 de novembro de 2006
Algumas mensurações básicas...
A medida do seu envelhecimento é dada quando você não consegue mais passar uma noite em claro e, no dia seguinte, dar uma aula que preste.
O grau de insanidade de uma pessoa se mede na justa medida da necessidade dela (a pessoa) ficar se exibindo para gente que não está ligando a mínima para ela - a não ser para ridicularizá-la.
Mensura-se o senso de elegância de alguém pela quantidade de terninhos idênticos que tal figura tem em seu guarda-roupas. Quanto mais, pior.
O escritor fracassado se mostra quando este precisa histericamente demonstrar que tem alguma relevância no mundo cultural. Quanto maior a gritaria - de preferência acompanhada de olhos esbugalhados e cara ensebada - tanto pior sua obra. Ou mais farsesca.
Quanto mais mansa a fala, mais calhorda é a pessoa. O que não significa que os gritalhões sejam menos fdpês, claro!
A prova de que o homem realmente descende do macaco reside nas figuras que a gente encontra por aí, cujas feições e/ou comportamento, não passam de resquícios da vida sobre as árvores... Vocês não têm um colega ou conhecido (serve vizinho de vaga em garagem de condomínio) algo simiesco? Pois é...
Obs.: lay-out novo nesta bagaça. Cara nova para comemorar o exorcismo que aqui foi feito. Xô, fantasmas!
O grau de insanidade de uma pessoa se mede na justa medida da necessidade dela (a pessoa) ficar se exibindo para gente que não está ligando a mínima para ela - a não ser para ridicularizá-la.
Mensura-se o senso de elegância de alguém pela quantidade de terninhos idênticos que tal figura tem em seu guarda-roupas. Quanto mais, pior.
O escritor fracassado se mostra quando este precisa histericamente demonstrar que tem alguma relevância no mundo cultural. Quanto maior a gritaria - de preferência acompanhada de olhos esbugalhados e cara ensebada - tanto pior sua obra. Ou mais farsesca.
Quanto mais mansa a fala, mais calhorda é a pessoa. O que não significa que os gritalhões sejam menos fdpês, claro!
A prova de que o homem realmente descende do macaco reside nas figuras que a gente encontra por aí, cujas feições e/ou comportamento, não passam de resquícios da vida sobre as árvores... Vocês não têm um colega ou conhecido (serve vizinho de vaga em garagem de condomínio) algo simiesco? Pois é...
Obs.: lay-out novo nesta bagaça. Cara nova para comemorar o exorcismo que aqui foi feito. Xô, fantasmas!
9 de novembro de 2006
Mais poema.
"Da solidão"
Hoje acordei com teu sussurro
Fazendo riscos na paisagem de chumbo
Que eu insistia em esboçar.
Mas me virei, sentindo o gosto
Dos sonhos mal digeridos
E tu não estavas ali, e a janela
Me trazia um céu de sangue
Borrado enquanto crianças gritavam
E metais se retorciam
Em água e óleo e silêncios
Sujos que a chuva não lavava.
Há dias assim: de espaços
Impreenchíveis, de vozes
Que vêm sem mais - olho sem íris -
Em que o sol se abre
Para bocas secas e sem dentes,
Fendas que se fizeram de repente.
Ontem fui testemunha de um desastre que certamente passará à história como o novo "dia em que a música morreu"...
Hoje acordei com teu sussurro
Fazendo riscos na paisagem de chumbo
Que eu insistia em esboçar.
Mas me virei, sentindo o gosto
Dos sonhos mal digeridos
E tu não estavas ali, e a janela
Me trazia um céu de sangue
Borrado enquanto crianças gritavam
E metais se retorciam
Em água e óleo e silêncios
Sujos que a chuva não lavava.
Há dias assim: de espaços
Impreenchíveis, de vozes
Que vêm sem mais - olho sem íris -
Em que o sol se abre
Para bocas secas e sem dentes,
Fendas que se fizeram de repente.
Ontem fui testemunha de um desastre que certamente passará à história como o novo "dia em que a música morreu"...
6 de novembro de 2006
Poema. Sim, porque este é um blogue de (má) literatura!
"Dos ocos"
Porque, decerto, os míopes
Comem cereais dormidos ao fim da noite,
E junto ao meio-fio das avenidas
Os cegos andam, brandindo
Suas bengalas retráteis.
E para as paredes do prédio próximo
Abrem-se minhas janelas,
E dentro pessoas vêem TV
Ou mastigam o bolor no pão de cada dia,
Ou sonham com facas e outros objetos
Incisivos, ou trepam furiosamente
Com os pôsteres de mulheres
Amareladas de uso e prazo.
Porque, decerto, o oco que és,
Voz que vaza de tuas tripas,
Queda no asfalto onde
Nem crianças nem cães cagam,
Onde os nervos, expostos, pulsam sem ritmo
E, cobertor desastrado, tropicas
Em tristes tópicos catando o que resta
Da gosma (qual lesma) - de rastros -
Entre livros, e travos,
E egos despedaçados.
E não é que este blogue chega hoje aos 3.000 visitantes?
Porque, decerto, os míopes
Comem cereais dormidos ao fim da noite,
E junto ao meio-fio das avenidas
Os cegos andam, brandindo
Suas bengalas retráteis.
E para as paredes do prédio próximo
Abrem-se minhas janelas,
E dentro pessoas vêem TV
Ou mastigam o bolor no pão de cada dia,
Ou sonham com facas e outros objetos
Incisivos, ou trepam furiosamente
Com os pôsteres de mulheres
Amareladas de uso e prazo.
Porque, decerto, o oco que és,
Voz que vaza de tuas tripas,
Queda no asfalto onde
Nem crianças nem cães cagam,
Onde os nervos, expostos, pulsam sem ritmo
E, cobertor desastrado, tropicas
Em tristes tópicos catando o que resta
Da gosma (qual lesma) - de rastros -
Entre livros, e travos,
E egos despedaçados.
E não é que este blogue chega hoje aos 3.000 visitantes?
28 de outubro de 2006
Outros quatro anos levando vocês sabem onde...
Então, ao que tudo indica, teremos mais quatro anos com o "grande líder". Quer dizer, vai que, na última hora, os eleitores preparem uma surpresa e teremos outro nome para Presidente... Mas acho que não, e fica aberta a porteira para outra série de impunidades, de roubalheiras escancaradas, de mentiras deslavadas, de promessas que "nunca na História deste País" foram tão desavergonhadamente descumpridas. Não que o outro fizesse melhor; a diferença é que o butim seria amealhado com mais profissionalismo, se é que posso me expressar assim.
De mais a mais, serão quatro anos de difícil governabilidade - apesar da pífia "oposição" que temos aqui. A sorte é que o povinho é mais manso que gado dopado, com exceção do pessoal do MST e de um e outro radical que ainda sobrou por aí, os quais serão devidamente manipulados pela Sua Majestade Barbuda (como se refere a ele a Heloísa Helena) . Mas sei lá, do jeito que a coisa vai, não falta muito para estourar o "foda-se" geral. Aqui da minha janela vejo pequenas amostras disso.
Mudando ligeiramente de foco: o que se espera de um vizinho de vaga no condomínio onde você mora? Respeito, civilidade, essas coisas? Nãããããããoooo!! Espera-se que ele seja o menos filhadaputa possível. Mas nem isso se pode ter dessa gentinha que aqui vive. Se a vaga for ao lado, o vivente faz questão de encostar o máximo possível na SUA vaga. Aí, quando você chega, não tem como abrir a porta nem de um lado, nem do outro. Às vezes, é necessário sair pelo porta-malas, quando isso é possível. Se a vaga for daquelas de uma na frente, outra atrás, piorou: o nego encosta a porcaria do 147, do fusca, do escambau dele de modo a que seu carro não tenha como entrar no espaço que lhe é reservado. Você precisa descer do seu, torcer para o calhorda ter deixado o freio de mão destravado e empurrar a barcaça (e sujar mãos, roupas etc.) à meia-noite, depois de um dia inteiro de trabalho e calor. Melhor ainda se estiver chovendo.
Pergunto: sou só eu ou tem mais alguém que acha que isso não é exceção, mas é o padrão da dita humanidade?
E aí me chega uma pessoa de quem gosto muito e sugere uma terapia de regressão. Alguns nem precisam disso: já andam meio de quatro, não sabem falar, babam no guardanapo e grunhem sozinhos. Regredir para quê?
De mais a mais, serão quatro anos de difícil governabilidade - apesar da pífia "oposição" que temos aqui. A sorte é que o povinho é mais manso que gado dopado, com exceção do pessoal do MST e de um e outro radical que ainda sobrou por aí, os quais serão devidamente manipulados pela Sua Majestade Barbuda (como se refere a ele a Heloísa Helena) . Mas sei lá, do jeito que a coisa vai, não falta muito para estourar o "foda-se" geral. Aqui da minha janela vejo pequenas amostras disso.
Mudando ligeiramente de foco: o que se espera de um vizinho de vaga no condomínio onde você mora? Respeito, civilidade, essas coisas? Nãããããããoooo!! Espera-se que ele seja o menos filhadaputa possível. Mas nem isso se pode ter dessa gentinha que aqui vive. Se a vaga for ao lado, o vivente faz questão de encostar o máximo possível na SUA vaga. Aí, quando você chega, não tem como abrir a porta nem de um lado, nem do outro. Às vezes, é necessário sair pelo porta-malas, quando isso é possível. Se a vaga for daquelas de uma na frente, outra atrás, piorou: o nego encosta a porcaria do 147, do fusca, do escambau dele de modo a que seu carro não tenha como entrar no espaço que lhe é reservado. Você precisa descer do seu, torcer para o calhorda ter deixado o freio de mão destravado e empurrar a barcaça (e sujar mãos, roupas etc.) à meia-noite, depois de um dia inteiro de trabalho e calor. Melhor ainda se estiver chovendo.
Pergunto: sou só eu ou tem mais alguém que acha que isso não é exceção, mas é o padrão da dita humanidade?
E aí me chega uma pessoa de quem gosto muito e sugere uma terapia de regressão. Alguns nem precisam disso: já andam meio de quatro, não sabem falar, babam no guardanapo e grunhem sozinhos. Regredir para quê?
24 de outubro de 2006
Não esperem nada de bom
Olha, gostaria demais de me enganar a respeito, mas não vejo nenhuma perspectiva de que entremos num ciclo de melhorias econômicas, sociais, culturais, o que seja. A quem imagina que chegamos ao fundo do poço, sinto desapontar com a notícia de que não, não chegamos ainda lá. Podemos afundar mais, e iremos. Discordo de muito bons amigos, que vêem um horizonte onde o sol brilha e todas as pessoas serão felizes, porque, se assim for, estamos todos ferrados: precisamos de chuva, e muita, que encha os reservatórios e garanta água e represas cheias que gerem energia. Não vejo o futuro que eles vêem porque não concebo a idéia de que o malfeito de um justifica o do outro, e assim por diante. Ou pior: de que o "nosso" malfeito seja bom, já que visa "consertar" o país. Não vislumbro esperança onde o "certo" é apenas a garantia de que tudo vai ficar exatamente como está, incluindo as falcatruas. Onde a educação está entregue aos tubarões e aos incompetentes usuais. Onde quem grita mais (e chantageia no mesmo diapasão) pode mais. Isto não é um país, mas um amontoado de imbecis e de canalhas brigando para ver quem é o último a raspar o fundo da burra de dinheiro. Somos todos uns idiotas, seja pela omissão, seja pela ação sempre para o lado errado. Um país que elege C..., M...fs, Cl.., Sar..., e por aí afora. Um país onde leporídeos e psicóticos posam de escritores. Onde um despreparado total banca o presidente. Vão por mim: guardem o dinheiro do final do ano, que os próximos quatro vão colocar muita gente na posição da qual nunca deveriam ter saído: a de quadrúpedes.
P.S.: mas que fique muito claro; não faço o jogo da oposição, que considero tão incapaz quanto quem manda. No fundo, literalmente, somos todos uns bundões.
P.S.: mas que fique muito claro; não faço o jogo da oposição, que considero tão incapaz quanto quem manda. No fundo, literalmente, somos todos uns bundões.
20 de outubro de 2006
Dos "nãos"
Não vou participar de nada que me interessa realmente. Tenho obrigações profissionais.
Não vou sair de casa à noite para me divertir. Tenho medo da violência.
Não vou me encontrar com as pessoas de que gosto. Tenho medo de brigar com elas.
Não vou comer isso nem beber aquilo. Tenho medo de que isso me faça mal.
Não vou me dar o prazer de um dia ou uma noite de sossego. Tenho de pagar minhas contas.
Não vou descansar enquanto não destruir todos os meus inimigos. Tenho medo de não ser amado.
Não vou a lugar algum. Tenho medo de chegar lá.
Não vou sair de casa à noite para me divertir. Tenho medo da violência.
Não vou me encontrar com as pessoas de que gosto. Tenho medo de brigar com elas.
Não vou comer isso nem beber aquilo. Tenho medo de que isso me faça mal.
Não vou me dar o prazer de um dia ou uma noite de sossego. Tenho de pagar minhas contas.
Não vou descansar enquanto não destruir todos os meus inimigos. Tenho medo de não ser amado.
Não vou a lugar algum. Tenho medo de chegar lá.
15 de outubro de 2006
Comentários rápidos
Quando o mau-caratismo, a filhadaputice, a mentira - tudo isso acompanhado da preguiça intelectual e seus corolários - parecem se constituir práticas normais da vida pública do país, tenho asco só de imaginar o que não deve acontecer na privada, digo, na vida privada dessa gente.
Dizem que a compaixão, a solidariedade, a bondade e a decência seriam algumas das características humanas mais típicas. Isso é porque quem disse isso não conhecia a verdadeira índole dessa espécie. Ou havia recebido um suborno para dizê-lo.
E depois me questionam dos motivos de minha misantropia...
Dizem que a compaixão, a solidariedade, a bondade e a decência seriam algumas das características humanas mais típicas. Isso é porque quem disse isso não conhecia a verdadeira índole dessa espécie. Ou havia recebido um suborno para dizê-lo.
E depois me questionam dos motivos de minha misantropia...
10 de outubro de 2006
Poema, depois de muito tempo.
Louvação
Talvez haja um canto junto ao esgoto,
Talvez os ratos caminhem a esmo,
Hoje quis chover mas o sol não deixou
E as pessoas franziram os cenhos e
Cerraram os punhos e venderam
Suas mães e seus filhos para os açougues
E encheram suas gavetas de promessas
E de poeira e corpos decompostos.
Aleluia, louvemos todos.
Aleluia, me respondem.
Talvez o grito seja arrancado como a
Um dente ou as unhas das mãos;
Talvez uma garoa nos molhe o rosto,
Ou nos mitigue a sede gretada.
Mas do céu só nos vem o chumbo
Que entra nas veias e nos amarga a boca,
E nos cega a vista e corrói a pele
E pêlos pela saliva dos lagartos.
Aleluia, ergamos as mãos.
Aleluia, todos entoam.
Talvez os homens deponham as armas,
Talvez antes que um tiro se dispare;
Mas é desejar que os porcos não grunham,
E que os dentes dos lobos não rasguem
A carne de suas vítimas e o sangue
Não borre as paredes e se misture na
Lama dos excrementos e da urina,
E que haja alguma paz nesta terra
Mesmo aos homens de boa-vontade.
Então eu urro: Aleluia! Aleluia,
Ruminantes incivis. Aleluia,
Mugem todos,
E erguem as patas.
Talvez haja um canto junto ao esgoto,
Talvez os ratos caminhem a esmo,
Hoje quis chover mas o sol não deixou
E as pessoas franziram os cenhos e
Cerraram os punhos e venderam
Suas mães e seus filhos para os açougues
E encheram suas gavetas de promessas
E de poeira e corpos decompostos.
Aleluia, louvemos todos.
Aleluia, me respondem.
Talvez o grito seja arrancado como a
Um dente ou as unhas das mãos;
Talvez uma garoa nos molhe o rosto,
Ou nos mitigue a sede gretada.
Mas do céu só nos vem o chumbo
Que entra nas veias e nos amarga a boca,
E nos cega a vista e corrói a pele
E pêlos pela saliva dos lagartos.
Aleluia, ergamos as mãos.
Aleluia, todos entoam.
Talvez os homens deponham as armas,
Talvez antes que um tiro se dispare;
Mas é desejar que os porcos não grunham,
E que os dentes dos lobos não rasguem
A carne de suas vítimas e o sangue
Não borre as paredes e se misture na
Lama dos excrementos e da urina,
E que haja alguma paz nesta terra
Mesmo aos homens de boa-vontade.
Então eu urro: Aleluia! Aleluia,
Ruminantes incivis. Aleluia,
Mugem todos,
E erguem as patas.
6 de outubro de 2006
Adendo de última hora
Pessoas desmedidas são, como nos ensina a teoria literária, sujeitos afins com a raiz trágica das coisas. O desmesurado, o sem-noção-do-decoro, o herói trágico. Infelizmente, nos tempos em que vivemos, essa categoria foi rebaixada à figura do canalha. O canalha é aquele que imagina, em seus delírios, estar no centro da existência universal. O canalha é o que se agarra às sinecuras como um náufrago, ao mesmo tempo que as desdenha. Mas diz estar "defendendo sua honra". O canalha, para fazer valer sua opinião, exerce coerção sobre seus inferiores. O canalha ameaça, grita, esperneia. O canalha, desrespeitador das leis, faz uso delas quando lhe interessa, brande a tábua dos Mandamentos quando algo sai fora de seu figurino autoritário. O canalha acha que sempre vai se safar. Mas, ainda que na condição de rebaixado, a tragicidade de sua trajetória só pode mesmo redundar em sua destruição, no despedaçamento, na dilaceração. Ao contrário, porém, do herói trágico, o fim do canalha provoca, no máximo, um suspiro de alívio em suas vítimas, e o lamento hipócrita de seus seguidores.
4 de outubro de 2006
Corredor Literário na Paulista...
O debate ocorrido ontem à noite, com o Marcelino Freire, o Nelson de Oliveira, o Juliano Pessanha, o Fabrício Carpinejar e o Manuel da Costa Pinto, até que foi bom. O lugar é que não era dos melhores, embora proporcionasse a saudável aproximação física da platéia com o público ali presente, que não era dos menores. Acresce que a existência de um café ali do lado (estou falando do espaço de debates da FNAC da avenida Paulista) trazia certo desconforto auditivo, pois a barulheira de quem estava ali somente para tomar alguma coisa e jogar conversa fora, mais as xícaras, mais aquela campainha irritante chamando os fregueses pelas senhas, tudo contribuiu para me dispersar um pouco. Mas, após as falas dos participantes, as questões feitas pelo público suscitaram intervenções divertidíssimas (e outras nem tanto) dos debatedores. Na fala de todos, porém, um dado me chamou a atenção: a existência de uma neurose por parte de alguns escritores em superar os demais em termos de vendagem, de resenhas, do escambau. Uma espécie de corrida de obstáculos, digamos, de ordem intelectual. Se é que posso me expressar assim. E que, de acordo com os presentes à mesa, era uma imbecilidade, um desserviço à causa literária. Conheço alguns assim, infelizmente. Adeptos da causa do "eu primeiro e único". Espero que seja somente devido à dosagem subestimada do remédio que tomam. Mas sinceramente, duvido que o problema seja só esse.
2 de outubro de 2006
29 de setembro de 2006
Comentário do dia
É bonito posar de defensor das minorias. Dá audiência. Angaria prestígio. Pena que nada disso venha acompanhado de atitudes condizentes. De que adianta se dizer "do povo" quando, para se diferenciar dos demais, você proclama sua condição heterossexual como qualidade positiva? De que adianta se misturar às massas, se tudo o que você consegue fazer é aquele angu indigesto - resultado de sua imaturidade e incapacidade de viver socialmente? De que adianta se proclamar vítima de perseguição, se você a provoca, com suas regurgitações públicas e sua empafia majestática? Talvez um poderzinho a mais, um tempo extra na banheira suja na qual se refestelam você e os demais apaniguados. De ilusão também se vive.
26 de setembro de 2006
Pequenas frases históricas, por Mr. Eggman
"Diante de minha posição no contexto cultural inglês, é de espantar que ainda não me tenham chamado para uma representação diplomática, como adido, no Senegal..."
"Acolhida com entusiasmo pelas massas insossas, minha proposta de ministrar um curso de cultura pré-pós-pop-híper-moderna abordará aspectos do cinema, da música (erudita e popular), da literatura, da televisão, das novas mídias, do futebol, da sinuca e do carteado na instância da descontinuidade da desconstrução tal como preconizada pela filosofia contemporânea do último século..."
"Aliás, toda a produção futebolística inglesa padece de um excesso de atitude expositiva, além de de apresentar traços de um reacionarismo político nocivo ao reinado de Sua Majestade. Por falar nisso, não esqueçam de, na saída, comprarem o vídeo desta conferência!"
"Há males que nunca vão. E malas que nunca chegam que lhes baste."
Obs.: Mr. Eggman é um ser fictício, sem qualquer relação de semelhança (que, se ocorrer, será totalmente acidental) com pessoas, vivas, mortas ou mesmo as muito vivas. Na verdade, a idéia me ocorreu ao ler o último livro de Bretch lançado aqui no Brasil - Histórias do Sr. Keuner. O espírito era mais ou menos esse. Se não funcionou, isso se deve às limitações deste escriba.
"Acolhida com entusiasmo pelas massas insossas, minha proposta de ministrar um curso de cultura pré-pós-pop-híper-moderna abordará aspectos do cinema, da música (erudita e popular), da literatura, da televisão, das novas mídias, do futebol, da sinuca e do carteado na instância da descontinuidade da desconstrução tal como preconizada pela filosofia contemporânea do último século..."
"Aliás, toda a produção futebolística inglesa padece de um excesso de atitude expositiva, além de de apresentar traços de um reacionarismo político nocivo ao reinado de Sua Majestade. Por falar nisso, não esqueçam de, na saída, comprarem o vídeo desta conferência!"
"Há males que nunca vão. E malas que nunca chegam que lhes baste."
Obs.: Mr. Eggman é um ser fictício, sem qualquer relação de semelhança (que, se ocorrer, será totalmente acidental) com pessoas, vivas, mortas ou mesmo as muito vivas. Na verdade, a idéia me ocorreu ao ler o último livro de Bretch lançado aqui no Brasil - Histórias do Sr. Keuner. O espírito era mais ou menos esse. Se não funcionou, isso se deve às limitações deste escriba.
23 de setembro de 2006
Como ser um escroto em oito lições práticas
1. Construa uma imagem para si, de preferência que faça de você um defensor das minorias, dos pobres, dos frascos e dos comprimidos. Também vale aquela em que você posa de sábio, de intelectual - preferencialmente de esquerda.
2. Escreva livros ou dê palestras a respeito daquilo que acham que você sabe. Consultorias e programas de televisão, mesmo que de TVs educativas, valem ouro. Ou vire líder sindical, que dá no mesmo. Neste caso, e dependendo do sindicato, vale cultivar a imagem de tosco, meio pornográfico, grosseirão, que "fala como o povo".
3. Faça amigos que detenham algum poder em postos-chaves da máquina estatal ou de instituições privadas. Bajule-os o mais que puder, sem parecer que o faz.
4. Instigue seus subalternos contra os demais chefes. Conte mentiras, calunie, difame, aumente. Vale tudo. Se vierem interpelá-lo, negue tudo e escreva (ou pague a um ghost-writer) um artigo em que você reitera sua retidão comportamental, moral e ética. Se puder, faça um discurso falando de sua inocência e da trama que a oposição está armando contra sua genialidade e demais condições pessoais.
5. Diga o quanto você é macho, sugerindo que os demais não o são, e dando a entender que essa última condição é um demérito para o exercício de qualquer profissão ou cargo público. Faça piadinhas a respeito das peculiaridades de uma cidade qualquer.
6. Instigue seus subalternos contra os demais chefes. Conte mentiras, calunie, difame, aumente.
7. Cumprimente todo mundo, em público, para que as pessoas vejam o quanto você é de boa índole. Depois, não se esqueça de contar mentiras, caluniar, difamar etc. Nada como ter as massas agindo a seu favor na hora H.
8. Faça-se de vítima.
Obs.: evidente que isso não se aplica a nenhum caso concreto, nem da esfera pública, muito menos no âmbito da privada, ops, da esfera privada. Trata-se apenas de ajustar as carapuças, caso largas ou justas além da conta.
2. Escreva livros ou dê palestras a respeito daquilo que acham que você sabe. Consultorias e programas de televisão, mesmo que de TVs educativas, valem ouro. Ou vire líder sindical, que dá no mesmo. Neste caso, e dependendo do sindicato, vale cultivar a imagem de tosco, meio pornográfico, grosseirão, que "fala como o povo".
3. Faça amigos que detenham algum poder em postos-chaves da máquina estatal ou de instituições privadas. Bajule-os o mais que puder, sem parecer que o faz.
4. Instigue seus subalternos contra os demais chefes. Conte mentiras, calunie, difame, aumente. Vale tudo. Se vierem interpelá-lo, negue tudo e escreva (ou pague a um ghost-writer) um artigo em que você reitera sua retidão comportamental, moral e ética. Se puder, faça um discurso falando de sua inocência e da trama que a oposição está armando contra sua genialidade e demais condições pessoais.
5. Diga o quanto você é macho, sugerindo que os demais não o são, e dando a entender que essa última condição é um demérito para o exercício de qualquer profissão ou cargo público. Faça piadinhas a respeito das peculiaridades de uma cidade qualquer.
6. Instigue seus subalternos contra os demais chefes. Conte mentiras, calunie, difame, aumente.
7. Cumprimente todo mundo, em público, para que as pessoas vejam o quanto você é de boa índole. Depois, não se esqueça de contar mentiras, caluniar, difamar etc. Nada como ter as massas agindo a seu favor na hora H.
8. Faça-se de vítima.
Obs.: evidente que isso não se aplica a nenhum caso concreto, nem da esfera pública, muito menos no âmbito da privada, ops, da esfera privada. Trata-se apenas de ajustar as carapuças, caso largas ou justas além da conta.
21 de setembro de 2006
Mais notas ligeiras, que a semana anda brava!
A ironia é você perceber que, quanto menos trabalha, menos tempo tem para fazer o que precisa ser feito.
Todos temos necessidade de ser amados. Dona Escrotinha, entretanto, precisa ser idolatrada - posto que nada tenha a apresentar senão sua própria miséria de caráter e seu ego tão descomunal quanto sua derriére. Complexo de divindade ou de inferioridade, vocês escolham.
Não importa o que você faça, não vai funcionar mesmo.
Em face dos últimos acontecimentos, a mera possibilidade de o embusteiro-mor desta nação poder continuar desfilando suas platitudes e perpetrando o assalto aos cofres públicos via aparelhamento do Estado deveria se constituir num escândalo. Mas somos um país composto por uma parcela imensa de idiotas, e que sentem prazer nessa idiotia. Não sei o que é pior: se essa passividade bovina, ou se as justificativas dos ditos intelectuais para a permanência do embusteiro.
Só tem coisa ainda pior: pessoas que discordam de você apenas pelo prazer (algo sexual, me parece) de discordar. Não têm o menor argumento, mas precisam dizer a palavrinha mágica: "mas..."
O calor deu uma amenizada. E isso é para que não digam que só sei criticar. Já disse: quem gosta de calor é lagarto, barata e efemérides. E quem tem piscina em casa ou mora perto da praia.
Todos temos necessidade de ser amados. Dona Escrotinha, entretanto, precisa ser idolatrada - posto que nada tenha a apresentar senão sua própria miséria de caráter e seu ego tão descomunal quanto sua derriére. Complexo de divindade ou de inferioridade, vocês escolham.
Não importa o que você faça, não vai funcionar mesmo.
Em face dos últimos acontecimentos, a mera possibilidade de o embusteiro-mor desta nação poder continuar desfilando suas platitudes e perpetrando o assalto aos cofres públicos via aparelhamento do Estado deveria se constituir num escândalo. Mas somos um país composto por uma parcela imensa de idiotas, e que sentem prazer nessa idiotia. Não sei o que é pior: se essa passividade bovina, ou se as justificativas dos ditos intelectuais para a permanência do embusteiro.
Só tem coisa ainda pior: pessoas que discordam de você apenas pelo prazer (algo sexual, me parece) de discordar. Não têm o menor argumento, mas precisam dizer a palavrinha mágica: "mas..."
O calor deu uma amenizada. E isso é para que não digam que só sei criticar. Já disse: quem gosta de calor é lagarto, barata e efemérides. E quem tem piscina em casa ou mora perto da praia.
14 de setembro de 2006
Notas ligeiras
1) Abriram a porta do Inferno e esqueceram de fechar.
2) A melhor profissão do mundo deve ser a do tradutor de filmes pornôs: ganha para trabalhar cinco minutos ou para traduzir duas frases.
3) Diga com quem andas e eu te direi quem realmente és. Há os que, para ganhar um lugarzinho ao sol (e desenvolver um câncer de pele), são capazes de vender a mãe. Mas começam a vender a si mesmos, e isso é tudo.
4) Amizade se conquista a partir da confiança, e não com tapinhas nas costas e ameaças. Muito menos com arrogância e arroubos ditatoriais. Mas há quem pense diferente.
5) Pior que isso é quem se alia, por conveniência ou ausência de caráter, ao poderzinho instituído.
6) A ausência de elos coesivos neste post é fruto da morte de metade dos neurônios deste escriba. Eu devia mesmo é entrar com pedido de indenização por insalubridade, mas vai que dá certo...
2) A melhor profissão do mundo deve ser a do tradutor de filmes pornôs: ganha para trabalhar cinco minutos ou para traduzir duas frases.
3) Diga com quem andas e eu te direi quem realmente és. Há os que, para ganhar um lugarzinho ao sol (e desenvolver um câncer de pele), são capazes de vender a mãe. Mas começam a vender a si mesmos, e isso é tudo.
4) Amizade se conquista a partir da confiança, e não com tapinhas nas costas e ameaças. Muito menos com arrogância e arroubos ditatoriais. Mas há quem pense diferente.
5) Pior que isso é quem se alia, por conveniência ou ausência de caráter, ao poderzinho instituído.
6) A ausência de elos coesivos neste post é fruto da morte de metade dos neurônios deste escriba. Eu devia mesmo é entrar com pedido de indenização por insalubridade, mas vai que dá certo...
13 de setembro de 2006
De volta aos poucos...

Semana atribulada: tudo por fazer. Mas sempre sobra um segundo para postar neste blogue...
1. Papel jornal é um artigo muito caro para ser desperdiçado com platitudes ou ausência de idéias. E, no entanto...
2. O 11 de setembro passou de novo. Grande coisa.
3. O MST diminuiu o ritmo de suas invasões para não prejudicar a campanha do atual Presidente. Pior é que ainda há quem acredite nas boas intenções dessa gente.
4. Falei que o calor voltaria? E, com ele, os insetos voadores. Já disse: se calor fosse bom, as baratas não proliferariam justamente nesse clima...
5. Há aqueles cujo ego é tão grande que não conseguem sequer fazer uma curva fechada. E precisam demonstrar sua magnitude a cada instante - mesmo sendo ridículos. Gente assim precisava apanhar "de cinta", como se dizia antigamente.
6. O uroboro. Resumo iconográfico da semana. Vocês decifrem esse código, ora essa!
7. Odeio marketing, propaganda e tudo que for relativo a essa nobre atividade. É questão pessoal mesmo.
Em tempo: eu também aderi à campanha Xô, S...! Gostaria, entretanto, que ela se estendesse a outras figuras tão hediondas quanto, cujos nomes não reproduzo aqui para não contaminar este blogue ainda mais.
5 de setembro de 2006
Às portas de um feriado!
Quando eu era criança, o comércio do bairro se concentrava nas chamadas quitandas - lugar onde se encontrava de tudo um pouco, incluindo balas e doces. Funcionavam bem, ao menos enquanto a cidade não era a monstruosidade na qual se tornou. Algumas resistiram à passagem dos anos, teimando em manter o caderninho dos devedores, a caixa feita de madeira (onde era guardado o dinheiro de cada dia), a bagunça das prateleiras altíssimas, aquele ar caseiro de improviso. Mas estão sendo passadas para trás, pelos supermercados, pela informática, pelo avanço do capitalismo (tardio, entre nós). Permanecem aqui e acolá, o quitandeiro e sua mulher, o moleque que lhes auxilia, o cheiro das coisas que, se não morreram, já o deveriam ter feito. O pior mesmo é o moleque, a cara de bolacha, agarrado ao servicinho sujo que lhe cabe. Não há como ter saudades disso...
Vamos todos assistir ao desfile cívico? Pois é, quem diria que veríamos, repetida, a sensação que tínhamos nos idos de 1972, 1973...? Vai piorar? Ah, mas não tenham dúvida.
Prepotência parece ser a palavra de ordem. Isso vale para zeladores, cozinheiros, professores, milionários de jaez revolucionário, políticos em geral etc. etc. Vamos, assim, copiando mais uma vez determinada prática social de nossos irmãos do Norte, que sobre ela criaram mais outra indústria... Democracia é uma palavra muito bonita, mesmo na boca de um ditadorzinho em potencial. Ou, como disse um importante pensador, evidentemente tratando de outro assunto: "trata-se de um conceito fácil de se pronunciar, mas de difícil realização" Ao que acrescentaria eu: ainda mais dito por pessoas que não vêem a hora de botar na rua seus bofes autoritários, os quais disfarçam sob a capa da inocência ou da ignorância.
Falei em feriado? Mas onde é que eu estava com minha consciência????
Vamos todos assistir ao desfile cívico? Pois é, quem diria que veríamos, repetida, a sensação que tínhamos nos idos de 1972, 1973...? Vai piorar? Ah, mas não tenham dúvida.
Prepotência parece ser a palavra de ordem. Isso vale para zeladores, cozinheiros, professores, milionários de jaez revolucionário, políticos em geral etc. etc. Vamos, assim, copiando mais uma vez determinada prática social de nossos irmãos do Norte, que sobre ela criaram mais outra indústria... Democracia é uma palavra muito bonita, mesmo na boca de um ditadorzinho em potencial. Ou, como disse um importante pensador, evidentemente tratando de outro assunto: "trata-se de um conceito fácil de se pronunciar, mas de difícil realização" Ao que acrescentaria eu: ainda mais dito por pessoas que não vêem a hora de botar na rua seus bofes autoritários, os quais disfarçam sob a capa da inocência ou da ignorância.
Falei em feriado? Mas onde é que eu estava com minha consciência????
4 de setembro de 2006
Nota relevante
Dois mil visitantes? Isso até mereceria comemoração, não estivesse entre esses 2.000 gente que eu não convidaria para meu funeral... Mas, aos amigos e amigas que eventualmente me visitam (mesmo que privados dos comentários), meus agradecimentos! Em breve voltaremos à nossa programação normal...
1 de setembro de 2006
Até que enfim...
... é sexta-feira!
Mas vale dizer que não foi uma semana das piores. Claro, fui ameaçado de morte, sofri emboscadas, assédios morais; enfim, nada que fugisse dos padrões normais de uma existência igualmente comum. Registro aqui o ramerrão costumeiro: aulas para turmas interessantes e interessadas, com as desonrosas exceções de praxe. A última moda é fazer exercícios de outra disciplina enquanto você se esgoela tentando dar conta da parte que lhe cabe neste latifúndio. Ou ficar trocando mensagens pelo celular, idem, idem. Dá vontade de perguntar uma dessas coisas:
a) O celular é novo?
b) Você já ouviu falar numa nova modalidade de competição? Chama-se arremesso de celular. Ganha quem conseguir espatifar o aparelho em mais pedaços. Me empresta o seu para eu fazer uma demonstração?
Mas, claro, não posso fazer isso. Não nesses tempos chicaneiros em que arrastamos nossas carcaças. Houve um tempo em que viver era apenas "muito perigoso"...
Tem feito frio. Infelizmente vai durar pouco e o que se seguirá é uma seqüência medonha de dias quentes e melados. E não tem nada mais disgusting que gente suada. Ou melhor, tem; mas vamos deixar esse assunto de lado.
Mas vale dizer que não foi uma semana das piores. Claro, fui ameaçado de morte, sofri emboscadas, assédios morais; enfim, nada que fugisse dos padrões normais de uma existência igualmente comum. Registro aqui o ramerrão costumeiro: aulas para turmas interessantes e interessadas, com as desonrosas exceções de praxe. A última moda é fazer exercícios de outra disciplina enquanto você se esgoela tentando dar conta da parte que lhe cabe neste latifúndio. Ou ficar trocando mensagens pelo celular, idem, idem. Dá vontade de perguntar uma dessas coisas:
a) O celular é novo?
b) Você já ouviu falar numa nova modalidade de competição? Chama-se arremesso de celular. Ganha quem conseguir espatifar o aparelho em mais pedaços. Me empresta o seu para eu fazer uma demonstração?
Mas, claro, não posso fazer isso. Não nesses tempos chicaneiros em que arrastamos nossas carcaças. Houve um tempo em que viver era apenas "muito perigoso"...
Tem feito frio. Infelizmente vai durar pouco e o que se seguirá é uma seqüência medonha de dias quentes e melados. E não tem nada mais disgusting que gente suada. Ou melhor, tem; mas vamos deixar esse assunto de lado.
29 de agosto de 2006
Das manias...
Tocar campainha das casas e sair correndo.
Telefonar de madrugada fazendo voz de tarado ou contando piadas sem graça.
Cutucar o nariz. Pelo lado de dentro. Em público.
Falar maravilhas de si próprio enquanto rebaixa os colegas do escritório.
Achar-se predestinado e irritar-se quando não reconhecem isso em você.
Tomar refrigerante normal e descer o cacete em quem toma a versão light.
Achar que a calça está caindo e sempre puxá-la para cima - sem perceber que a cena é ridícula e o movimento, inútil.
Pensar que, quando duas pessoas conversam, elas estão necessariamente falando de você.
Ou imaginar que, seja qual for o assunto do texto, o alvo também é você.
Fazer regime. E comer pastel, só "unzinho", que não faz mal.
Começar a subir qualquer escada com o pé direito. Ou o esquerdo.
Enviar e-mails indignados aos amigos, inimigos, correligionários e aos jornais.
Escrever blogues.
P.S.: os comentários foram desativados por tempo indeterminado. Agradecimentos diretamente a meu "perseguidor".
Telefonar de madrugada fazendo voz de tarado ou contando piadas sem graça.
Cutucar o nariz. Pelo lado de dentro. Em público.
Falar maravilhas de si próprio enquanto rebaixa os colegas do escritório.
Achar-se predestinado e irritar-se quando não reconhecem isso em você.
Tomar refrigerante normal e descer o cacete em quem toma a versão light.
Achar que a calça está caindo e sempre puxá-la para cima - sem perceber que a cena é ridícula e o movimento, inútil.
Pensar que, quando duas pessoas conversam, elas estão necessariamente falando de você.
Ou imaginar que, seja qual for o assunto do texto, o alvo também é você.
Fazer regime. E comer pastel, só "unzinho", que não faz mal.
Começar a subir qualquer escada com o pé direito. Ou o esquerdo.
Enviar e-mails indignados aos amigos, inimigos, correligionários e aos jornais.
Escrever blogues.
P.S.: os comentários foram desativados por tempo indeterminado. Agradecimentos diretamente a meu "perseguidor".
26 de agosto de 2006
Porque hoje é sábado...
Voltou a fazer calor e os motoristas - irritados - gargarejam impropérios e ameaçam os passantes com palavras de desordem.
Há cafés onde não se serve café, e onde a comida é resultado de uma luta entre o mundo e a ausência de fundos.
A voz pastosa do pastor ecoa pelas paredes do templo. Os fiéis erguem os braços, gritam e se descabelam. E saem todos para cumprir a missão que lhes dada.
Melhor sair de casa e tomar sorvete de mangostim. Depois ir ao cinema e sonhar que se pode dominar o mundo.
Sempre há o risco de se cortar o dedo quando se manipula facas. Caso isso ocorra, tente estancar o sangue com água gelada. Se houver esguichamento (de sangue, evidentemente), não se apavore: a morte costuma ser rápida. Mas isso só acontecerá por extrema inabilidade ou por estupidez mesmo.
Assustador é saber que uma porcentagem considerável da humanidade é psicopata, e que você pode estar sentado(a) ao lado de um no metrô ou no ônibus, por exemplo.
A novela das 8 (que nem é mais das 8, mas tudo bem) não está assim tão fora do esquadro, como muitos podem pensar.
Quando se sobe (por vias naturais ou não) a alturas algo elevadas, é sempre bom se prevenir contra os males do ar rarefeito.
Há cafés onde não se serve café, e onde a comida é resultado de uma luta entre o mundo e a ausência de fundos.
A voz pastosa do pastor ecoa pelas paredes do templo. Os fiéis erguem os braços, gritam e se descabelam. E saem todos para cumprir a missão que lhes dada.
Melhor sair de casa e tomar sorvete de mangostim. Depois ir ao cinema e sonhar que se pode dominar o mundo.
Sempre há o risco de se cortar o dedo quando se manipula facas. Caso isso ocorra, tente estancar o sangue com água gelada. Se houver esguichamento (de sangue, evidentemente), não se apavore: a morte costuma ser rápida. Mas isso só acontecerá por extrema inabilidade ou por estupidez mesmo.
Assustador é saber que uma porcentagem considerável da humanidade é psicopata, e que você pode estar sentado(a) ao lado de um no metrô ou no ônibus, por exemplo.
A novela das 8 (que nem é mais das 8, mas tudo bem) não está assim tão fora do esquadro, como muitos podem pensar.
Quando se sobe (por vias naturais ou não) a alturas algo elevadas, é sempre bom se prevenir contra os males do ar rarefeito.
24 de agosto de 2006
18 de agosto de 2006
Esclarecimentos desnecessários
... claro está que nem precisaria dizer que o texto abaixo nada mais é que uma alegoria. Mas como a gente precisa explicar tudo neste mundo sem Deus, melhor deixar esclarecido, antes que apareça alguém aqui para dizer inconveniências...
12 de agosto de 2006
Mas...
... eu devia deixar de ser trouxa e aprender de uma vez por todas a não confiar nas pessoas. Pelo menos em determinadas pessoas. Mas, não, sempre vou manter um fiapo de esperança na boa índole de gente próxima - só para constatar, mais uma vez (e outra, e outra, e outra...), que a única saída para o gênero humano é a explosão deste planeta miserável e os viventes que o infestam. Incluindo este que vos escreve - que é para eu deixar definitivamente de ser besta.
Vale dizer que eu só cumprimento gente que eu minimamente respeite. No entanto, há quem ainda insista...
Vale dizer que eu só cumprimento gente que eu minimamente respeite. No entanto, há quem ainda insista...
11 de agosto de 2006
Notas sobre o Rio de Janeiro e adjacências
1. O Rio, visto de perto, parece São Paulo com praia e sotaque diferente.
2. Quando você faz uma "corrida" de táxi no Rio, a palavra é levada às últimas conseqüências.
3. Diferentemente do que fazem os turistas normais, fui conhecer - ciceroneado por um casal de amigos (Gabi e Ricardo), mais uma amiga deles - o Centro da cidade. Andamos na rua do Ouvidor (Machado de Assis certamente passou por ali), fomos conhecer a Confeitaria Colombo e o Centro Cultural Banco do Brasil. Mas, para não ser totalmente diferente, esticamos até Copacabana. Pena que já estava escurecendo. Mas o passeio valeu.
4. Os congressos tiveram seus altos e baixos. O do GEL, em Araraquara, foi bem ruim - tanto em termos de localização, quanto no que diz respeito à qualidade dos trabalhos. Mas pude conhecer pessoas interessantes, o que sempre é um ponto positivo. Já o encontro nacional da Abralic foi ótimo, pelo menos até onde pude ver. E todo mundo que vale a pena, na área de Literatura, estava lá.
5. Hotéis são um risco. Sempre.
6. Não comi feijoada no Rio. Em compensação, comi sushi - que estava bom, por sinal.
De resto, o de sempre: muito trabalho pelo frente, perspectivas sombrias em relação à minha subsistência, um desânimo generalizado entre colegas - impressão forte de fim de jogo. Nada de novo no front de batalha.
Queria estar na FLIP, mas como não fui convidado, nem pensar! (hehehe!)
2. Quando você faz uma "corrida" de táxi no Rio, a palavra é levada às últimas conseqüências.
3. Diferentemente do que fazem os turistas normais, fui conhecer - ciceroneado por um casal de amigos (Gabi e Ricardo), mais uma amiga deles - o Centro da cidade. Andamos na rua do Ouvidor (Machado de Assis certamente passou por ali), fomos conhecer a Confeitaria Colombo e o Centro Cultural Banco do Brasil. Mas, para não ser totalmente diferente, esticamos até Copacabana. Pena que já estava escurecendo. Mas o passeio valeu.
4. Os congressos tiveram seus altos e baixos. O do GEL, em Araraquara, foi bem ruim - tanto em termos de localização, quanto no que diz respeito à qualidade dos trabalhos. Mas pude conhecer pessoas interessantes, o que sempre é um ponto positivo. Já o encontro nacional da Abralic foi ótimo, pelo menos até onde pude ver. E todo mundo que vale a pena, na área de Literatura, estava lá.
5. Hotéis são um risco. Sempre.
6. Não comi feijoada no Rio. Em compensação, comi sushi - que estava bom, por sinal.
De resto, o de sempre: muito trabalho pelo frente, perspectivas sombrias em relação à minha subsistência, um desânimo generalizado entre colegas - impressão forte de fim de jogo. Nada de novo no front de batalha.
Queria estar na FLIP, mas como não fui convidado, nem pensar! (hehehe!)
1 de agosto de 2006
Ainda perdido!
Feito louco escrevendo um trabalho cuja entrega está marcada para sexta-feira - mas não vai dar tempo. E ainda tenho de ir ao Rio de Janeiro quinta-feira, embora meu desejo fosse participar todos os dias do congresso, mas haja dinheiro! Então continuamos assim: vocês aguardam sentadinhos(as) aí, comendo pipoca, deitando no sofá e cuidando do gato, que eu vou até ali e já volto, ok?
Ah, e amanhã tem lançamento do Nelson de Oliveira, na Livraria da Vila, aqui em São Paulo, a partir das 19h00. Vale a pena, tanto para conhecer a simpatia de figura que é o Nelson, como para comprar seu mais recente livro de contos. Ah, e também para tomar um café nos fundos da livraria, que é um charme só!
Ah, e amanhã tem lançamento do Nelson de Oliveira, na Livraria da Vila, aqui em São Paulo, a partir das 19h00. Vale a pena, tanto para conhecer a simpatia de figura que é o Nelson, como para comprar seu mais recente livro de contos. Ah, e também para tomar um café nos fundos da livraria, que é um charme só!
23 de julho de 2006
Quase de volta!
Voltei ontem de viagem - uma pequena parada para esquecer os problemas acumulados - mas não será hoje que haverá algo de novo neste pequeno front. Semana que vem estarei no encontro do Grupo de Estudos Lingüísticos de SP; na próxima, será a vez do encontro da Abralic (Associação Brasileira de Literatura Comparada), no Rio de Janeiro. Sem contar que as aulas recomeçam... Aguardem mais um pouco.
13 de julho de 2006
Nada a ver, mas...
Como dizem por aí, "cada um é cada um", ou seja, não devemos pautar o comportamento alheio - reprovável ou não - pelos valores que defendemos e praticamos. E, ainda que eu mesmo não seja um exemplo de boa pessoa, acredito na validade de algumas coisas, digamos, "ultrapassadas". Senso de compromisso, por exemplo. Ao assumir uma tarefa, desde que ela não me tenha sido imposta (entenda-se: enfiada goela abaixo), faço o que for possível para cumpri-la até o fim. Caso não consiga, por motivos vários, isso sempre me custa caro: doenças somatizadas, analista etc. Porque é uma questão de palavra empenhada, artigo cada vez mais raro por aqui e em qualquer outro lugar do mundo. Fato é que me irrita além da conta gente que não cumpre o acordado, que pula fora do barco na primeira oportunidade sob qualquer alegação que não seja morte em família ou a sua própria, ou mesmo problemas de saúde incontornáveis. A sensação é que você foi ludibriado, perdeu tempo e inteligência com pessoas que não souberam valorizar o empenho pessoal que você dispendeu. É um porre mesmo. Tive experiências recentes com isso, e, olha, isso só me fez reforçar certas idéias que eu já elaborava a respeito. Essa é a parte boa, para que não digam que sou um irremediável pessimista: não dê um chapéu nos outros, porque a sensação é horrível. Ok, há quem mereça, mas nem mesmo isso justifica seus atos. Pior mesmo é quando você descobre que a pessoa que aprontou com você está se divertindo por aí, na boa, sem um pingo de culpa. Mas, como eu disse logo acima, "cada um é (mesmo) cada um"...
11 de julho de 2006
Lançamentos, eventos... julho tem sido um mês quente!



E, de quebra, amanhã mesmo, dia 12, na Casa das Rosas - Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura (avenida Paulista, 37), a partir das 19h30, as Escritoras Suicidas fazem recital/sarau com seus textos. Aproveite, já que você chegou neste blogue, e confira o excelente site delas. É só clicar aqui.
1 de julho de 2006
Resta o silêncio...
Até que enfim acabou. Agora serão horas e horas de debates, mesas-redondas e quadradas, bate-bola, bate-papo, encheção de saco e o cacete - tudo para tentar explicar a derrota, ou melhor, mais que isso, a ruindade do time. E que não era novidade para ninguém. Derrotar a Austrália, Japão e Gana nunca foram façanhas dignas de um time que se pretendia "o melhor do mundo" - ainda mais jogando como jogou. Sei também que irão dizer que a culpa é do técnico, o que não deixa de ser verdade. Que os jogadores só se preocupam com dinheiro (mas queriam o quê, por todos os deuses? Afinal, são jogadores profissionais!). E "que isso" e "que aquilo", e por aí iríamos pela madrugada. Fomos piores que nosso adversário, só isso. As razões efetivas para o "fracasso", entretanto, serão sempre de ordem econômica, como talvez dissesse o velho Marx. Mas isso, sinceramente, tem alguma importância?
26 de junho de 2006
Juro que é o último dessa leva!
"Preconceitos"
Por longos anos de minha vida, fui levado a crer em alguns mitos que assombraram (e ainda assombram) os descendentes nipônicos nas terras tupiniquins. O primeiro deles, como não poderia deixar de ser, é a questão do tamanho do membro. Ele mesmo, o Bráulio, o Bernardo, o Asdrúbal, todos esses sinônimos que a Sociolingüística já estudou, no que diz respeito aos termos considerados obscenos. Os sexólogos, porém, encarregaram-se de colocar abaixo esse preconceito, para a sorte e felicidade de nós, tristes representantes da comunidade nipo-brasileira.
Outro grande mito é o da inteligência. "Garanta sua vaga no vestibular: mate um japonês", lembram-se disso? Quando não havia muitos chineses e coreanos por aqui, esse era o grande lema entre os vestibulandos. Só Deus e eu sabemos o quanto e como sofri por conta desse problema. Meu pai me obrigava a ser o primeiro da classe, senão... E tome ameaças e, desculpem se caio no lugar-comum, mas acho que grande parte de meus traumas vem desse tempo de estudos forçados. Enfim, a gradativa integração da comunidade aos costumes brasileiros e vice-versa, mais a já aludida invasão dos chineses e coreanos derrubaram esse 2º mito e liberaram o meio de campo para os artistas plásticos, videomakers, cineastas, músicos etc. de origem nipônica, sem que precisássemos nos esconder dos parentes e conhecidos.
Agora, o 3º mito, e assunto principal desta crônica, é o seguinte: os chamados relacionamentos inter-raciais. Nunca ouvi de meus pais uma proibição taxativa (embora tenha amigos e amigas que já passaram por essa experiência), mas imagino qual seria a reação deles se eu começasse a sair com uma não-japonesa de qualquer espécie. E aí está o curioso: todos os meus objetos (no bom sentido, por favor) de desejo pertenciam, ou à comunidade alemã, ou à italiana. É de se conjecturar, inclusive, se não foi esse o motivo pelo qual Japão, Alemanha e Itália se juntaram para formar o Eixo, na Segunda Guerra Mundial. Penso que não, mas como explicar a atração, ou melhor, a compulsão que eu sentia pelas garotas do ginásio, colégio e da faculdade que tivessem as referidas ascendências? Creio que foi esse o motivo de minha atração por Márcia, Ângela, Sandra e Mônica, só para ficar nos exemplos mais imediatos. Mas a mais duradoura de todas e, acredito, a de maior peso em minha vida, foi Bettina.
Antes que alguém se lembre de alguma antiga novela da TV, é necessário esclarecer que Bettina foi (ou melhor, é) das poucas boas lembranças que tenho de minha passagem pelo Rio Grande do Sul. Eu a conheci como freqüentadora de um curso que ministrei por lá e, depois, continuamos a nos encontrar nos corredores da Casa de Cultura Mário Quintana e nos bares de Porto Alegre. De acordo com ela, a intelectualidade (entenda-se "artistas") de lá sempre aparecia nos mesmos lugares, daí o encontro inevitável. Nessas ocasiões, trocávamos figurinhas, por assim dizer, exercitando todas as funções de linguagem. Entre as reiterações fáticas e as persuasões conativas (traduzindo: entre os "sabe?" e as cantadas veladas), tínhamos tempo para conversas poéticas. Bettina era uma escritora razoável - ainda que ela própria se achasse ruim - e uma publicitária instigante, embora eu suspeitasse que seu verdadeiro talento estivesse nas ditas artes visuais (sem qualquer malícia). Nós nos encantávamos com nossos próprios umbigos, mas tínhamos consciência dessa egomania dupla. Eu a sentia crescer dentro de mim, sua figura alegre e melancólica, a contradição barroca num perfil árcade, idealizada por um poeta romântico (no caso, eu). E assim nos víamos, ela me apresentava alguns amigos e amigas, mas eu só reconhecia seus cabelos longos e loiros, seus olhos de um verde sem adjetivos e suas pernas quase sempre à mostra, por conta do calor da capital gaúcha. Eu estava me sentindo envolvido por ela, ou por mim, sabe-se lá. Bettina era tudo o que eu desejava, mas a verdade é que não sabia se estava ansiando por uma imagem ou por uma pessoa, ou - o mais certo - eu até soubesse sim, a Bettina de pele clara e lábios finos, de uma delicadeza tão pouco teutônica, talvez minha "Fräulein" (Mário, me perdoe!). Mas o que eu queria era a amante? A mãe? A cúmplice? O que eu esperava de Bettina senão o beijo, o sexo, os cabelos me entrando nos olhos e na boca; o calor e o frio porto-alegrenses, eu só queria a felicidade concretizada e sabia, bem dentro de mim, o quanto isso era ilusório, desejo mesmo, na acepção original da palavra.
Mas foi numa noite, a última (para variar) na cidade que, entre um martíni e outro, Bettina e eu trocamos um beijo, um beijo de literatura, também quente e frio, o aroma do álcool misturado às salivas, poemas trocados em guardanapos. Foi só um beijo, mas longo e sem explicação como são os melhores, uma troca, a compreensão de nossas igualdades e diferenças, de nossa humanidade tão pequena. Em volta, pessoas nos olhavam, espantadas. Dependendo do lugar, japoneses e alemãs ainda não se juntam com tanta freqüência.
Por longos anos de minha vida, fui levado a crer em alguns mitos que assombraram (e ainda assombram) os descendentes nipônicos nas terras tupiniquins. O primeiro deles, como não poderia deixar de ser, é a questão do tamanho do membro. Ele mesmo, o Bráulio, o Bernardo, o Asdrúbal, todos esses sinônimos que a Sociolingüística já estudou, no que diz respeito aos termos considerados obscenos. Os sexólogos, porém, encarregaram-se de colocar abaixo esse preconceito, para a sorte e felicidade de nós, tristes representantes da comunidade nipo-brasileira.
Outro grande mito é o da inteligência. "Garanta sua vaga no vestibular: mate um japonês", lembram-se disso? Quando não havia muitos chineses e coreanos por aqui, esse era o grande lema entre os vestibulandos. Só Deus e eu sabemos o quanto e como sofri por conta desse problema. Meu pai me obrigava a ser o primeiro da classe, senão... E tome ameaças e, desculpem se caio no lugar-comum, mas acho que grande parte de meus traumas vem desse tempo de estudos forçados. Enfim, a gradativa integração da comunidade aos costumes brasileiros e vice-versa, mais a já aludida invasão dos chineses e coreanos derrubaram esse 2º mito e liberaram o meio de campo para os artistas plásticos, videomakers, cineastas, músicos etc. de origem nipônica, sem que precisássemos nos esconder dos parentes e conhecidos.
Agora, o 3º mito, e assunto principal desta crônica, é o seguinte: os chamados relacionamentos inter-raciais. Nunca ouvi de meus pais uma proibição taxativa (embora tenha amigos e amigas que já passaram por essa experiência), mas imagino qual seria a reação deles se eu começasse a sair com uma não-japonesa de qualquer espécie. E aí está o curioso: todos os meus objetos (no bom sentido, por favor) de desejo pertenciam, ou à comunidade alemã, ou à italiana. É de se conjecturar, inclusive, se não foi esse o motivo pelo qual Japão, Alemanha e Itália se juntaram para formar o Eixo, na Segunda Guerra Mundial. Penso que não, mas como explicar a atração, ou melhor, a compulsão que eu sentia pelas garotas do ginásio, colégio e da faculdade que tivessem as referidas ascendências? Creio que foi esse o motivo de minha atração por Márcia, Ângela, Sandra e Mônica, só para ficar nos exemplos mais imediatos. Mas a mais duradoura de todas e, acredito, a de maior peso em minha vida, foi Bettina.
Antes que alguém se lembre de alguma antiga novela da TV, é necessário esclarecer que Bettina foi (ou melhor, é) das poucas boas lembranças que tenho de minha passagem pelo Rio Grande do Sul. Eu a conheci como freqüentadora de um curso que ministrei por lá e, depois, continuamos a nos encontrar nos corredores da Casa de Cultura Mário Quintana e nos bares de Porto Alegre. De acordo com ela, a intelectualidade (entenda-se "artistas") de lá sempre aparecia nos mesmos lugares, daí o encontro inevitável. Nessas ocasiões, trocávamos figurinhas, por assim dizer, exercitando todas as funções de linguagem. Entre as reiterações fáticas e as persuasões conativas (traduzindo: entre os "sabe?" e as cantadas veladas), tínhamos tempo para conversas poéticas. Bettina era uma escritora razoável - ainda que ela própria se achasse ruim - e uma publicitária instigante, embora eu suspeitasse que seu verdadeiro talento estivesse nas ditas artes visuais (sem qualquer malícia). Nós nos encantávamos com nossos próprios umbigos, mas tínhamos consciência dessa egomania dupla. Eu a sentia crescer dentro de mim, sua figura alegre e melancólica, a contradição barroca num perfil árcade, idealizada por um poeta romântico (no caso, eu). E assim nos víamos, ela me apresentava alguns amigos e amigas, mas eu só reconhecia seus cabelos longos e loiros, seus olhos de um verde sem adjetivos e suas pernas quase sempre à mostra, por conta do calor da capital gaúcha. Eu estava me sentindo envolvido por ela, ou por mim, sabe-se lá. Bettina era tudo o que eu desejava, mas a verdade é que não sabia se estava ansiando por uma imagem ou por uma pessoa, ou - o mais certo - eu até soubesse sim, a Bettina de pele clara e lábios finos, de uma delicadeza tão pouco teutônica, talvez minha "Fräulein" (Mário, me perdoe!). Mas o que eu queria era a amante? A mãe? A cúmplice? O que eu esperava de Bettina senão o beijo, o sexo, os cabelos me entrando nos olhos e na boca; o calor e o frio porto-alegrenses, eu só queria a felicidade concretizada e sabia, bem dentro de mim, o quanto isso era ilusório, desejo mesmo, na acepção original da palavra.
Mas foi numa noite, a última (para variar) na cidade que, entre um martíni e outro, Bettina e eu trocamos um beijo, um beijo de literatura, também quente e frio, o aroma do álcool misturado às salivas, poemas trocados em guardanapos. Foi só um beijo, mas longo e sem explicação como são os melhores, uma troca, a compreensão de nossas igualdades e diferenças, de nossa humanidade tão pequena. Em volta, pessoas nos olhavam, espantadas. Dependendo do lugar, japoneses e alemãs ainda não se juntam com tanta freqüência.
22 de junho de 2006
Historinha para passar na "Sessão da Tarde"
“O primeiro beijo ou: A garota mais vagal da cidade”
Andréia foi uma das alunas que tive quando dei aulas num colégio técnico em São Paulo. No começo, como em todos os anos, minha atenção restringiu-se ao comum: mais uma garota em meio a tantas outras que, estudando Processamento de Dados, não se conformava em ter Língua Portuguesa no currículo. Depois, passei a me sentir estreitamente ligado a ela. Não sei, uns cabelos negros e finos, e olhos dourados, e um corpo que sabia ser adolescente, deixando quase de o ser. Mas os lábios... os lábios grossos, quase pedindo, articulando palavras naquele tom fino e seguro e frágil, parecia sedução e eu me sentia tocado pelo contato tépido de sua língua e o ouro de suas íris irradiando luzes fixas sobre mim. Mas era minha aluna, uma garota ainda; como superar as culpas que eu sentia?
Soube, depois, que ela costumava, vez por outra, tomar o mesmo ônibus que eu, ao voltar para casa. Nessas ocasiões, ensaiávamos conversas tímidas de ambos os lados, eu sentia um desejo crescendo nela, ela em mim, só que não ousávamos ultrapassar o limite traçado, sei que havia o medo da rejeição, da palavra dura como um veredicto, do que seria uma mentira, mas o que fazer com as contradições humanas? Percebia, percebíamos nossas hesitações, mas nada se efetivava, e assim fomos até setembro.
Nessa época, eu iria me mudar de São Paulo, pedira demissão do emprego, era um dos meus últimos dias de aula. Andréia e eu saímos juntos, como nos acostumáramos a fazer. É engraçado pensar que, mesmo entre os seus e os meus colegas, não havia insinuações maldosas ou maliciosas, como se o que existisse entre nós fosse tão hipotético que sequer mereceria atenção. Chegamos à parada de ônibus, ambos num silêncio cheio de pontas; eu mesmo não entendia o porquê de minha mudança, que eu atribuía a experiências novas (com as conseqüências imagináveis) e, a despeito do que eu sentia por Andréia, ou por conta da incerteza de seus sentimentos, ou pelos dois fatores, o certo é que eu sairia da cidade. Dentro do coletivo, o mesmo mutismo. Nós nos olhávamos furtivamente, um querendo que o outro quebrasse a barreira do vazio que crescia entre mim e ela. Mas talvez fosse a última chance e, então, Andréia sussurrou:
- Vou descer um ponto depois do meu. Você me acompanha?
Sim, eu concordei e, apesar das sombras e da noite e do precário da situação, desci com ela, propus que caminhássemos até sua casa. Ela assentiu. Durante o percurso, paramos, Andréia virou-se de frente para mim, eu respirava com dificuldade, ela se equilibrou na ponta dos pés para me alcançar, passou seus braços em torno do meu pescoço, segurei sua cintura, passei minha língua por seus lábios úmidos, nos beijamos com delicadeza no início, depois com fúria, trocamos líquidos quentes, sim, eu beijei Andréia, um beijo doce de chiclete e desejos, beijei Andréia, rapazes!, e senti o aroma de seus cabelos e a firmeza de seu corpo sem dores, nos beijamos e quase em seguida nos afastamos, talvez uma culpa, não sei bem, sentimos vergonha do que fizéramos, sequer sabíamos por quê, e nos olhamos novamente, e voltamos a nos abraçar num beijo mais longo, sob as luzes artificiais da cidade.
- Minha despedida, disse Andréia, num sorriso de que eu nunca soube precisar o alcance.
Após isso, ficamos sem nos ver mais. Nesse tempo, voltei para São Paulo, readaptei-me à vida agitada daqui, procurei viver. Minha ex-aluna, no entanto, não me saía da memória. Escrevi para ela, telefonei-lhe, mas jamais obtive resposta ou retorno. Todos os dias, passava em frente a sua casa, numa tentativa tola de encontrá-la sem, no entanto, ter coragem de tocar a campainha e perguntar por ela.
Uma noite, pude revê-la. Entrou no ônibus, reconheceu-me, novamente aquele sorriso que tanto me cativara. Era quase a mesma: percebia-se o cabelo mais curto, ligeiramente ruivo, o corpo mais desenvolvido. Crescera: os seios querendo beijar o mundo.
- Oi, Ricardo!, ela me cumprimentou. E, diante do meu olhar interrogativo: Desculpa não ter ligado; você sabe, continuo muito preguiçosa. Fez o comentário e emendou: Conhece o Márcio?, apresentando-me seu namorado.
Beijei-a no rosto, estendi a mão ao rapaz, os dois se afastaram. Virei-me para Denise, uma amiga que me acompanhava, expliquei:
- Uma ex-aluna minha.
Foi o que eu disse. Mas pensei, disfarçando a sensação da perda quase irreparável que, ao menos, ele era bonito, muito mais bonito do que eu.
Andréia foi uma das alunas que tive quando dei aulas num colégio técnico em São Paulo. No começo, como em todos os anos, minha atenção restringiu-se ao comum: mais uma garota em meio a tantas outras que, estudando Processamento de Dados, não se conformava em ter Língua Portuguesa no currículo. Depois, passei a me sentir estreitamente ligado a ela. Não sei, uns cabelos negros e finos, e olhos dourados, e um corpo que sabia ser adolescente, deixando quase de o ser. Mas os lábios... os lábios grossos, quase pedindo, articulando palavras naquele tom fino e seguro e frágil, parecia sedução e eu me sentia tocado pelo contato tépido de sua língua e o ouro de suas íris irradiando luzes fixas sobre mim. Mas era minha aluna, uma garota ainda; como superar as culpas que eu sentia?
Soube, depois, que ela costumava, vez por outra, tomar o mesmo ônibus que eu, ao voltar para casa. Nessas ocasiões, ensaiávamos conversas tímidas de ambos os lados, eu sentia um desejo crescendo nela, ela em mim, só que não ousávamos ultrapassar o limite traçado, sei que havia o medo da rejeição, da palavra dura como um veredicto, do que seria uma mentira, mas o que fazer com as contradições humanas? Percebia, percebíamos nossas hesitações, mas nada se efetivava, e assim fomos até setembro.
Nessa época, eu iria me mudar de São Paulo, pedira demissão do emprego, era um dos meus últimos dias de aula. Andréia e eu saímos juntos, como nos acostumáramos a fazer. É engraçado pensar que, mesmo entre os seus e os meus colegas, não havia insinuações maldosas ou maliciosas, como se o que existisse entre nós fosse tão hipotético que sequer mereceria atenção. Chegamos à parada de ônibus, ambos num silêncio cheio de pontas; eu mesmo não entendia o porquê de minha mudança, que eu atribuía a experiências novas (com as conseqüências imagináveis) e, a despeito do que eu sentia por Andréia, ou por conta da incerteza de seus sentimentos, ou pelos dois fatores, o certo é que eu sairia da cidade. Dentro do coletivo, o mesmo mutismo. Nós nos olhávamos furtivamente, um querendo que o outro quebrasse a barreira do vazio que crescia entre mim e ela. Mas talvez fosse a última chance e, então, Andréia sussurrou:
- Vou descer um ponto depois do meu. Você me acompanha?
Sim, eu concordei e, apesar das sombras e da noite e do precário da situação, desci com ela, propus que caminhássemos até sua casa. Ela assentiu. Durante o percurso, paramos, Andréia virou-se de frente para mim, eu respirava com dificuldade, ela se equilibrou na ponta dos pés para me alcançar, passou seus braços em torno do meu pescoço, segurei sua cintura, passei minha língua por seus lábios úmidos, nos beijamos com delicadeza no início, depois com fúria, trocamos líquidos quentes, sim, eu beijei Andréia, um beijo doce de chiclete e desejos, beijei Andréia, rapazes!, e senti o aroma de seus cabelos e a firmeza de seu corpo sem dores, nos beijamos e quase em seguida nos afastamos, talvez uma culpa, não sei bem, sentimos vergonha do que fizéramos, sequer sabíamos por quê, e nos olhamos novamente, e voltamos a nos abraçar num beijo mais longo, sob as luzes artificiais da cidade.
- Minha despedida, disse Andréia, num sorriso de que eu nunca soube precisar o alcance.
Após isso, ficamos sem nos ver mais. Nesse tempo, voltei para São Paulo, readaptei-me à vida agitada daqui, procurei viver. Minha ex-aluna, no entanto, não me saía da memória. Escrevi para ela, telefonei-lhe, mas jamais obtive resposta ou retorno. Todos os dias, passava em frente a sua casa, numa tentativa tola de encontrá-la sem, no entanto, ter coragem de tocar a campainha e perguntar por ela.
Uma noite, pude revê-la. Entrou no ônibus, reconheceu-me, novamente aquele sorriso que tanto me cativara. Era quase a mesma: percebia-se o cabelo mais curto, ligeiramente ruivo, o corpo mais desenvolvido. Crescera: os seios querendo beijar o mundo.
- Oi, Ricardo!, ela me cumprimentou. E, diante do meu olhar interrogativo: Desculpa não ter ligado; você sabe, continuo muito preguiçosa. Fez o comentário e emendou: Conhece o Márcio?, apresentando-me seu namorado.
Beijei-a no rosto, estendi a mão ao rapaz, os dois se afastaram. Virei-me para Denise, uma amiga que me acompanhava, expliquei:
- Uma ex-aluna minha.
Foi o que eu disse. Mas pensei, disfarçando a sensação da perda quase irreparável que, ao menos, ele era bonito, muito mais bonito do que eu.
19 de junho de 2006
Uma pausa para nossos comerciais!
| O assunto da hora parece mesmo ser a Copa do Mundo de Futebol. Do meu ponto de vista bastante míope, digo que tudo isso me aborrece por demais. É a ditadura do pensamento único: não se pode sair para jantar, não dá para assistir a um mísero filme no cinema, não é possível sequer pedir comida pelo telefone. E pobre de você se não tiver TV a cabo: se gosta da coisa, é obrigado a ouvir a voz irritante e os comentários "brilhantes" do locutor da única emissora que transmite os jogos. Se não gosta, o show de horrores de sempre é a opção. Pior: o monopólio faz com que o telespectador seja obrigado (a não que tire o som da TV) a ouvir as ladainhas a respeito do "Fenômeno", jogador "como nunca houve neste país". A mim me irrita essa patriotada de bandeirinhas nos automóveis, de cortinas verde-amarelas, de camisas idem e unhas (!!!!) também. Fora as cornetas no saguão do prédio, a gritaria histérica, o buzinaço depois das vitórias. Darwin estava corretíssimo, convenhamos. |
16 de junho de 2006
Mais provas de um crime antigo: o de escrever narrativas...
“Teoria do medalhão enviesada ou ‘Audaciosamente indo onde nenhum homem jamais esteve’”
Acho que quase todo mundo já teve, em sua vida escolar, momentos de sucesso, seja intelectual ou esportivo, seguidos das decorrências naturais desses acontecimentos: admiração, inveja e garotas, nem sempre nessa ordem, muito menos simultaneamente. Uns conseguiam mais, outros menos, conforme sua inteligência e aparência, duas qualidades que dificilmente se achavam juntas numa mesma pessoa. Fato curioso, concordo, nem que visto pelo enfoque de vitamina de preconceitos. No reboque disso, as fantasias e os sonhos, que vão perdendo a ingenuidade à medida em que se sai da infância e batemos todos com a cabeça na fase adolescente, que não tem esse nome por acaso. Se é disso que vou falar? Penso que sim, embora não tenha certeza dos rumos desta história, nem se ela valeria alguma coisa hoje. Enfim, são relatos de outros tempos.
Era meu primeiro ano numa escola pública, estadual, e me surpreendia a quantidade e variedade de tipos humanos no pátio, num maremoto de calças de tergal cinza-escuro e camisas quase brancas dos veteranos contrastando com a luminosidade dos recém-chegados. "Vais encontrar o mundo", diria meu pai, se tivesse lido O Ateneu , o que não era o caso. Deixando de ser o único filho em idade escolar, eu perdera o privilégio relativo do ensino particular, à época ainda inferior a algumas escolas do Estado. Meu pai, como bom representante da etnia nipônica, mantinha uma espécie de pacto conosco, ou seja, aquele que nos obrigava a tirar sempre as melhores notas em todas as matérias. Para ser mais exato, sua expectativa era a de que fôssemos os primeiros da classe, da escola, do bairro, da cidade, do país, do planeta e, se não fosse pedir muito, do universo. Para quem conhece o seriado "Jornada das Estrelas", eu deveria ser uma espécie de sr. Spock mirim. Ou, caso prefiram a "Nova Geração", da mesma série, o Tenente Comandante Data, um andróide. Meu irmão, ignoro se por esperteza ou comodismo, nunca foi o aluno que meu pai desejava em suas maquinações. Eu, ao contrário, me revelei um pequeno gênio escolar, com desempenhos notáveis em todas as disciplinas. Não que me agradasse, propriamente, estudar feito um obstinado; mesmo porque, aos oito anos, você não está em condições de usufruir daquelas vantagens advindas com a notoriedade, referidas logo no início desta história. As garotas, especialmente. Digo isto agora, embora me lembre de ter olhos muito especiais para uma loirinha que se sentava duas fileiras a meu lado, mas que minha timidez cuidou de afastar definitivamente de minha vida. Então era isso: eu estudava por temer represálias traumatizantes, de que meu irmão era vítima, obrigado a ler e reler e refazer exercícios matemáticos e científicos em geral, de sentido e objetivos desconhecidos até para mim, com minha longa experiência de três anos de incessante labuta escolar.
Havia, porém, pedras em meu caminho de estudante de sucesso. Duas, especificamente. Dois, para ser mais preciso. O primeiro se chamava Aílton; o segundo, Nehemias. Incomuns até nos nomes, além de excelentes alunos. A rivalidade entre nós, diferente do que possa parecer, se restringia ao desempenho nas provas. Aílton era o mais próximo de mim, inclusive no sentido espacial, pois éramos quase vizinhos. Magro como salário de professor, e até mais, isso lhe valeu, nos anos seguintes, o criativo apelido de "Osso" (por sinal, alcunha do Dr.McCoy, médico da nave estelar Enterprise, chamado de Bones pelo capitão Kirk). Haveria, nessa coincidência, algum vaticínio? O convívio diário mostrou que não, e mesmo no futebol pelejávamos numa harmonia perfeita maior, errando e acertando o mesmo número de lances. Nada que lembrasse os entreveros entre Spock e McCoy, na série de T.V. Ou tudo, dependendo da interpretação que se dê. Já Nehemias mantinha uma certa distância da turma em geral, embora não deixasse de ser simpático conosco em todas as ocasiões. Se fosse buscar semelhanças contemporâneas, Nehemias seria um Michael Jackson desengonçado, característica que se foi acentuando com o passar do tempo, não sei se por outra coincidência ou por um acidente de percurso, como se diz hoje.
Não bastasse, recapitulando, a pressão paterna e da competição pela primazia das notas, havia também um terceiro componente esmagador, e que nos fitava diariamente, afixado no espaço acima do quadro-negro: o retrato do Presidente da República, com seu olhar austero, logo acompanhado pelo do Ministro da Educação, este menos aterrorizante, embora me parecendo tão onipresente quanto o outro. A verdade é que não havia ocasião em que meu olhar não cruzasse com os dos retratos, tornando minha batalha ainda mais extenuante, visto me sentir obrigado a derrotar dois oponentes e a satisfazer, não apenas um pai, mas três, e todos severíssimos, para meu azar e de todos os demais alunos e não-alunos daquela e de outras escolas e lugares.
Enfim , o ano letivo passou com todos os contratempos previstos e, ao seu final, recebemos o boletim com as notas decisivas. Aílton ficara com a média de 98; Nehemias, com 97; e eu, oh glória das glórias, 100. Impossível dizer, hoje, quais foram minhas sensações naquela ocasião, se experimentei alguma daquelas alegrias catatônicas ou – preso ainda a minha ingenuidade dos oito anos – não atinei com a importância daquilo, ao menos no que diz respeito a pais e mestres. Porque era apenas uma medalha o prêmio por meus esforços. Uma pecinha de cobre ou latão contendo uma frase inscrita: "Honra ao Mérito", de significado longínquo e misterioso, quase cercado daquela aura das obras de arte e objetos sagrados. A fitinha verde e amarela que ornava a peça lembrava-me, para piorar, do caráter patriótico daquela – vá lá que seja – honraria, que não teve qualquer efeito prático imediato em minha vida, a não ser o de complicá-la ainda mais, visto as cobranças em relação a meu desempenho escolar aumentarem em tamanho e qualidade nos anos seguintes, sem que eu conseguisse corresponder a essas, digamos, esperanças. Constatava, entre desconsolado e decepcionado, que teria sido melhor se eu recebesse uma insígnia como aquelas que havia nos uniformes da tripulação da Enterprise. Pertencer à Frota Estelar seria, sem dúvida, mais honroso e menos trabalhoso – pensava eu – que manter o posto de melhor aluno da classe, um lugar muito sem graça e de poucas perspectivas aventureiras ou emocionais.
Aílton, com o tempo, confirmou sua habilidade para com a matemática, mas não teve condições de desenvolvê-la até o infinito. Ou teve, sei lá. Uma onda mais forte o levou e só o devolveu dois dias depois, devidamente lacrado num caixão pobre, num dia muito quente, lembro-me bem disso. Nehemias, perto da oitava série, afastou-se de nós, tornando-se companheiro do chamado "pessoal da bagunça" e assumindo um comportamento que eu, na época, achei estranho e mesmo perigoso, e que só depois fui identificar como sendo homossexual. A meu respeito, posso dizer que a medalha, se algum efeito teve, foi o de me tornar um medroso em relação a conquistas, a sucessos ou coisas que tais. É como se eu visse, nessa possibilidade, uma série de situações de tensão que me seriam insuportáveis, caso viesse a enfrentá-las. Psicologia barata, diria minha querida amiga Luciana, do alto de sua formação profissional. De um modo ou de outro, todos os três fracassamos, por vontade própria talvez, por imposição de um Destino sádico, por um motivo diverso qualquer, ignoro exatamente o quê. E só para encerrar: como toda medalha tem dois ou até três lados, é preciso dizer que, no ano de minha efêmera e incômoda glória, o Brasil sagrou-se tri-campeão mundial de futebol e "Jornada nas Estrelas", a série, completava seu primeiro ano de encerramento, para tristeza de todos os que viam e viviam um pouco além daqueles anos medrosos.
Acho que quase todo mundo já teve, em sua vida escolar, momentos de sucesso, seja intelectual ou esportivo, seguidos das decorrências naturais desses acontecimentos: admiração, inveja e garotas, nem sempre nessa ordem, muito menos simultaneamente. Uns conseguiam mais, outros menos, conforme sua inteligência e aparência, duas qualidades que dificilmente se achavam juntas numa mesma pessoa. Fato curioso, concordo, nem que visto pelo enfoque de vitamina de preconceitos. No reboque disso, as fantasias e os sonhos, que vão perdendo a ingenuidade à medida em que se sai da infância e batemos todos com a cabeça na fase adolescente, que não tem esse nome por acaso. Se é disso que vou falar? Penso que sim, embora não tenha certeza dos rumos desta história, nem se ela valeria alguma coisa hoje. Enfim, são relatos de outros tempos.
Era meu primeiro ano numa escola pública, estadual, e me surpreendia a quantidade e variedade de tipos humanos no pátio, num maremoto de calças de tergal cinza-escuro e camisas quase brancas dos veteranos contrastando com a luminosidade dos recém-chegados. "Vais encontrar o mundo", diria meu pai, se tivesse lido O Ateneu , o que não era o caso. Deixando de ser o único filho em idade escolar, eu perdera o privilégio relativo do ensino particular, à época ainda inferior a algumas escolas do Estado. Meu pai, como bom representante da etnia nipônica, mantinha uma espécie de pacto conosco, ou seja, aquele que nos obrigava a tirar sempre as melhores notas em todas as matérias. Para ser mais exato, sua expectativa era a de que fôssemos os primeiros da classe, da escola, do bairro, da cidade, do país, do planeta e, se não fosse pedir muito, do universo. Para quem conhece o seriado "Jornada das Estrelas", eu deveria ser uma espécie de sr. Spock mirim. Ou, caso prefiram a "Nova Geração", da mesma série, o Tenente Comandante Data, um andróide. Meu irmão, ignoro se por esperteza ou comodismo, nunca foi o aluno que meu pai desejava em suas maquinações. Eu, ao contrário, me revelei um pequeno gênio escolar, com desempenhos notáveis em todas as disciplinas. Não que me agradasse, propriamente, estudar feito um obstinado; mesmo porque, aos oito anos, você não está em condições de usufruir daquelas vantagens advindas com a notoriedade, referidas logo no início desta história. As garotas, especialmente. Digo isto agora, embora me lembre de ter olhos muito especiais para uma loirinha que se sentava duas fileiras a meu lado, mas que minha timidez cuidou de afastar definitivamente de minha vida. Então era isso: eu estudava por temer represálias traumatizantes, de que meu irmão era vítima, obrigado a ler e reler e refazer exercícios matemáticos e científicos em geral, de sentido e objetivos desconhecidos até para mim, com minha longa experiência de três anos de incessante labuta escolar.
Havia, porém, pedras em meu caminho de estudante de sucesso. Duas, especificamente. Dois, para ser mais preciso. O primeiro se chamava Aílton; o segundo, Nehemias. Incomuns até nos nomes, além de excelentes alunos. A rivalidade entre nós, diferente do que possa parecer, se restringia ao desempenho nas provas. Aílton era o mais próximo de mim, inclusive no sentido espacial, pois éramos quase vizinhos. Magro como salário de professor, e até mais, isso lhe valeu, nos anos seguintes, o criativo apelido de "Osso" (por sinal, alcunha do Dr.McCoy, médico da nave estelar Enterprise, chamado de Bones pelo capitão Kirk). Haveria, nessa coincidência, algum vaticínio? O convívio diário mostrou que não, e mesmo no futebol pelejávamos numa harmonia perfeita maior, errando e acertando o mesmo número de lances. Nada que lembrasse os entreveros entre Spock e McCoy, na série de T.V. Ou tudo, dependendo da interpretação que se dê. Já Nehemias mantinha uma certa distância da turma em geral, embora não deixasse de ser simpático conosco em todas as ocasiões. Se fosse buscar semelhanças contemporâneas, Nehemias seria um Michael Jackson desengonçado, característica que se foi acentuando com o passar do tempo, não sei se por outra coincidência ou por um acidente de percurso, como se diz hoje.
Não bastasse, recapitulando, a pressão paterna e da competição pela primazia das notas, havia também um terceiro componente esmagador, e que nos fitava diariamente, afixado no espaço acima do quadro-negro: o retrato do Presidente da República, com seu olhar austero, logo acompanhado pelo do Ministro da Educação, este menos aterrorizante, embora me parecendo tão onipresente quanto o outro. A verdade é que não havia ocasião em que meu olhar não cruzasse com os dos retratos, tornando minha batalha ainda mais extenuante, visto me sentir obrigado a derrotar dois oponentes e a satisfazer, não apenas um pai, mas três, e todos severíssimos, para meu azar e de todos os demais alunos e não-alunos daquela e de outras escolas e lugares.
Enfim , o ano letivo passou com todos os contratempos previstos e, ao seu final, recebemos o boletim com as notas decisivas. Aílton ficara com a média de 98; Nehemias, com 97; e eu, oh glória das glórias, 100. Impossível dizer, hoje, quais foram minhas sensações naquela ocasião, se experimentei alguma daquelas alegrias catatônicas ou – preso ainda a minha ingenuidade dos oito anos – não atinei com a importância daquilo, ao menos no que diz respeito a pais e mestres. Porque era apenas uma medalha o prêmio por meus esforços. Uma pecinha de cobre ou latão contendo uma frase inscrita: "Honra ao Mérito", de significado longínquo e misterioso, quase cercado daquela aura das obras de arte e objetos sagrados. A fitinha verde e amarela que ornava a peça lembrava-me, para piorar, do caráter patriótico daquela – vá lá que seja – honraria, que não teve qualquer efeito prático imediato em minha vida, a não ser o de complicá-la ainda mais, visto as cobranças em relação a meu desempenho escolar aumentarem em tamanho e qualidade nos anos seguintes, sem que eu conseguisse corresponder a essas, digamos, esperanças. Constatava, entre desconsolado e decepcionado, que teria sido melhor se eu recebesse uma insígnia como aquelas que havia nos uniformes da tripulação da Enterprise. Pertencer à Frota Estelar seria, sem dúvida, mais honroso e menos trabalhoso – pensava eu – que manter o posto de melhor aluno da classe, um lugar muito sem graça e de poucas perspectivas aventureiras ou emocionais.
Aílton, com o tempo, confirmou sua habilidade para com a matemática, mas não teve condições de desenvolvê-la até o infinito. Ou teve, sei lá. Uma onda mais forte o levou e só o devolveu dois dias depois, devidamente lacrado num caixão pobre, num dia muito quente, lembro-me bem disso. Nehemias, perto da oitava série, afastou-se de nós, tornando-se companheiro do chamado "pessoal da bagunça" e assumindo um comportamento que eu, na época, achei estranho e mesmo perigoso, e que só depois fui identificar como sendo homossexual. A meu respeito, posso dizer que a medalha, se algum efeito teve, foi o de me tornar um medroso em relação a conquistas, a sucessos ou coisas que tais. É como se eu visse, nessa possibilidade, uma série de situações de tensão que me seriam insuportáveis, caso viesse a enfrentá-las. Psicologia barata, diria minha querida amiga Luciana, do alto de sua formação profissional. De um modo ou de outro, todos os três fracassamos, por vontade própria talvez, por imposição de um Destino sádico, por um motivo diverso qualquer, ignoro exatamente o quê. E só para encerrar: como toda medalha tem dois ou até três lados, é preciso dizer que, no ano de minha efêmera e incômoda glória, o Brasil sagrou-se tri-campeão mundial de futebol e "Jornada nas Estrelas", a série, completava seu primeiro ano de encerramento, para tristeza de todos os que viam e viviam um pouco além daqueles anos medrosos.
14 de junho de 2006
Pequena fábula escrita após o jogo do Brasil.
Mr. Malaman resolveu tornar-se publicamente meu amigo. Faz questão de me cumprimentar ao me ver; chama-me pelo nome, bem alto, para que todos vejam como ele sabe ser gentil e como é incapaz de guardar rancores. E, principalmente, para demonstrar que eu é que sou o mau, o perseguidor sem motivo, o invejoso de sua carreira bem sucedida de criador - traduzido e lido em mil idiomas. Estranho considerar que se eu, na ótica de Mr. Malaman, sou tão desprezível, o que o leva a querer que eu reconheça sua presença acachapante e sua voz de cano furado? Mr. Malaman, definitivamente, é um sujeito perigoso. Ridículo, mas nem por isso isento de periculosidade.
13 de junho de 2006
Outro texto dos tempos d'antanho...
“Refrigerante”
Festa na escola, vocês já passaram por isso? Não sei se ainda são feitas, tamanha a violência que infesta nossas vidas, mas eram prática comum nas escolas públicas estaduais, sempre às voltas com falta de verbas, motivo pelo qual as associações de pais e mestres (entidades criadas para suprir o que o governo não fazia, ou seja: tudo) organizavam essas atividades caça-níqueis. No começo, eram só as famigeradas e odiosas (para mim) festas juninas. Tinha e tenho trauma dessas coisas. Primeiro que acho ridículo esse negócio de, vivendo em São Paulo, se fantasiar de caipira (com todo o respeito aos que possuem raízes interioranas). Depois, obrigar a criançada a dançar quadrilha que, no meu entender, só vale para assaltos a bancos. Por fim, a extorsão qualificada que era a "cadeia", um lugar para onde levavam qualquer um que tivesse cara de trouxa ou não fosse forte o suficiente para resistir a seus captores. Bom, mas estou me desviando do assunto.
Então, começaram com as tais festas e, após algumas tentativas frustradas com temas infelizes - do salgado, de doces etc. - tiveram (ignoro quem) a idéia de promover uma festa do guaraná. Não, nada de orgias aspergidas com o suposto afrodisíaco. Guaraná, aquele que vem em garrafas, gasoso, doce, e produzido pela mesma companhia que produz a melhor cerveja do país (de acordo com ela própria). Não, não é a Brahma. (Um parênteses: como é duro evitar o merchandising hoje em dia!) Festa do Guaraná, com fornecimento de bebidas pela Antárctica, atual Ambev (pronto, tá feita a propaganda!), salgados e sanduíches pelas mães, e canecas vendidas juntamente com o convite que dava direito à entrada e a todo o guaraná que você conseguisse beber.
Devo confessar que nunca fui fã desse refrigerante. Hoje, talvez pela invasão quase hecatômbica da... da... Coca-Cola (desisto!), me sinto tentado a bebericar o líquido dourado e doce enquanto me enveneno com um Big Mac. Mas, naquela época, já sentia saudades de uma daquelas marcas locais, desaparecidas por conta do poderio econômico dos concorrentes. Havia a Tubaína, que ainda pode ser encontrada em certos bairros, mas que não chega aos pés das que bebi. Melhor que esta, no entanto, era a Cerejinha que, evidentemente, não tinha resquício nem lembrança da fruta que inspirava seu nome, mas era única, um diferencial perante a mesmice de bebidas inócuas (ou quase) de hoje.
Enfim, o guaraná... Imaginem um bando de pré-adolescentes dos anos 70 numa festa em que pode beber o quanto quiser. É lógico que vão inventar alguma idiotice do tipo "vamos ver quem bebe mais?" Venceria quem bebesse o maior número de canecas, metaforicamente falando, é claro. Lembram que, um pouco antes, eu havia dito que guaraná é doce? Pois bem, depois da 20ª dose (uns quatro litros, pelo que posso calcular) não é mais. Além de um aumento considerável da barriga (devido ao gás) e da vontade de urinar (por motivos óbvios), crescia em todos nós - e em mim, com mais certeza - um amargor na boca, que parecia se estender à garganta e ao estômago, e que tirava todo nosso apetite no que diz respeito aos sanduíches que eram vendidos. Hoje, com a sabedoria adquirida com os anos, eu diria tratar-se de uma azia. Na época, era só um treco esquisito, ou seja lá como chamávamos a isso.
Diante do quadro emergencial, dirigimo-nos, um de cada vez (pois, mesmo naqueles tempos, o que iriam pensar de um grupo de rapazes, de pós-infantes, de panacas, enfim, entrando todos num recinto fechado e recluso), dirigimo-nos, repito, ao banheiro. A dúvida que me assaltou, e aos outros, era se aliviávamos a bexiga ou o estômago (este, via garganta). Parecia que todo mundo havia descarregado fora do vaso, tamanha a quantidade de água (água?) no chão. Isso, fora o cheiro dominante, um tanto pesado para quem bebera e comera além da conta. Hamlet, se estivesse em meu lugar, teria reformulado sua famosa dúvida existencial. Para resumir, segurei o quanto pude a respiração e esvaziei minha bexiga, que nunca mais seria a mesma depois daquele dia.
Não só ela, aliás; nossa escola também, já que, devido ao sucesso alcançado, os organizadores resolveram repetir a dose nos anos seguintes, prova incontestável da proliferação geométrica da idiotice, ao menos naquela região. Meus amigos e eu, baseados na lógica de nossa idade, é evidente, está mais que na cara (novamente no sentido figurado, por favor), não havia outro caminho a optar que não fosse comparecer lá todos os anos, cometendo as mesmíssimas besteiras. Não sei porque ninguém teve a idéia de trocar o guaraná pela Grapette, outro refrigerante que marcou minha infância. Mas acho que, se fossem fazer isso, colocariam a Fanta Uva no lugar. E essa, eu detestava.
Nessa altura, eu sei que vão dizer que faltaram sexo, drogas e rock'n roll. Também não houve palavrões, nem sangue, nem morte. E, para falar a verdade, nem história, se formos ser rigorosos. Mas, ora, o que é que vocês queriam de uma geração como a minha, marcada ainda pela repressão educacional nipônica? É verdade que, um tempo depois, muitas dessas coisas, que alguns considerariam hediondas, entraram em minha vida. Quanto a meus amigos, uns fumam; outros bebem; outros praticam as duas atividades; outros, nenhuma delas; e todos engordam e envelhecem. Penso se o mesmo não ocorre comigo, mas creio que não, ao menos no grau deles. Culpa dos refrigerantes? Pode ser, embora eu ache que o problema maior esteja em outras artificialidades do dia-a-dia. Mesmo porque festas como aquelas, nunca mais as tivemos, e acho que esta é a nota melancólica desta - vá lá que seja - história, só para não fugir de meus hábitos. Mas a melancolia, os motivos, ficam pra uma próxima vez.
Festa na escola, vocês já passaram por isso? Não sei se ainda são feitas, tamanha a violência que infesta nossas vidas, mas eram prática comum nas escolas públicas estaduais, sempre às voltas com falta de verbas, motivo pelo qual as associações de pais e mestres (entidades criadas para suprir o que o governo não fazia, ou seja: tudo) organizavam essas atividades caça-níqueis. No começo, eram só as famigeradas e odiosas (para mim) festas juninas. Tinha e tenho trauma dessas coisas. Primeiro que acho ridículo esse negócio de, vivendo em São Paulo, se fantasiar de caipira (com todo o respeito aos que possuem raízes interioranas). Depois, obrigar a criançada a dançar quadrilha que, no meu entender, só vale para assaltos a bancos. Por fim, a extorsão qualificada que era a "cadeia", um lugar para onde levavam qualquer um que tivesse cara de trouxa ou não fosse forte o suficiente para resistir a seus captores. Bom, mas estou me desviando do assunto.
Então, começaram com as tais festas e, após algumas tentativas frustradas com temas infelizes - do salgado, de doces etc. - tiveram (ignoro quem) a idéia de promover uma festa do guaraná. Não, nada de orgias aspergidas com o suposto afrodisíaco. Guaraná, aquele que vem em garrafas, gasoso, doce, e produzido pela mesma companhia que produz a melhor cerveja do país (de acordo com ela própria). Não, não é a Brahma. (Um parênteses: como é duro evitar o merchandising hoje em dia!) Festa do Guaraná, com fornecimento de bebidas pela Antárctica, atual Ambev (pronto, tá feita a propaganda!), salgados e sanduíches pelas mães, e canecas vendidas juntamente com o convite que dava direito à entrada e a todo o guaraná que você conseguisse beber.
Devo confessar que nunca fui fã desse refrigerante. Hoje, talvez pela invasão quase hecatômbica da... da... Coca-Cola (desisto!), me sinto tentado a bebericar o líquido dourado e doce enquanto me enveneno com um Big Mac. Mas, naquela época, já sentia saudades de uma daquelas marcas locais, desaparecidas por conta do poderio econômico dos concorrentes. Havia a Tubaína, que ainda pode ser encontrada em certos bairros, mas que não chega aos pés das que bebi. Melhor que esta, no entanto, era a Cerejinha que, evidentemente, não tinha resquício nem lembrança da fruta que inspirava seu nome, mas era única, um diferencial perante a mesmice de bebidas inócuas (ou quase) de hoje.
Enfim, o guaraná... Imaginem um bando de pré-adolescentes dos anos 70 numa festa em que pode beber o quanto quiser. É lógico que vão inventar alguma idiotice do tipo "vamos ver quem bebe mais?" Venceria quem bebesse o maior número de canecas, metaforicamente falando, é claro. Lembram que, um pouco antes, eu havia dito que guaraná é doce? Pois bem, depois da 20ª dose (uns quatro litros, pelo que posso calcular) não é mais. Além de um aumento considerável da barriga (devido ao gás) e da vontade de urinar (por motivos óbvios), crescia em todos nós - e em mim, com mais certeza - um amargor na boca, que parecia se estender à garganta e ao estômago, e que tirava todo nosso apetite no que diz respeito aos sanduíches que eram vendidos. Hoje, com a sabedoria adquirida com os anos, eu diria tratar-se de uma azia. Na época, era só um treco esquisito, ou seja lá como chamávamos a isso.
Diante do quadro emergencial, dirigimo-nos, um de cada vez (pois, mesmo naqueles tempos, o que iriam pensar de um grupo de rapazes, de pós-infantes, de panacas, enfim, entrando todos num recinto fechado e recluso), dirigimo-nos, repito, ao banheiro. A dúvida que me assaltou, e aos outros, era se aliviávamos a bexiga ou o estômago (este, via garganta). Parecia que todo mundo havia descarregado fora do vaso, tamanha a quantidade de água (água?) no chão. Isso, fora o cheiro dominante, um tanto pesado para quem bebera e comera além da conta. Hamlet, se estivesse em meu lugar, teria reformulado sua famosa dúvida existencial. Para resumir, segurei o quanto pude a respiração e esvaziei minha bexiga, que nunca mais seria a mesma depois daquele dia.
Não só ela, aliás; nossa escola também, já que, devido ao sucesso alcançado, os organizadores resolveram repetir a dose nos anos seguintes, prova incontestável da proliferação geométrica da idiotice, ao menos naquela região. Meus amigos e eu, baseados na lógica de nossa idade, é evidente, está mais que na cara (novamente no sentido figurado, por favor), não havia outro caminho a optar que não fosse comparecer lá todos os anos, cometendo as mesmíssimas besteiras. Não sei porque ninguém teve a idéia de trocar o guaraná pela Grapette, outro refrigerante que marcou minha infância. Mas acho que, se fossem fazer isso, colocariam a Fanta Uva no lugar. E essa, eu detestava.
Nessa altura, eu sei que vão dizer que faltaram sexo, drogas e rock'n roll. Também não houve palavrões, nem sangue, nem morte. E, para falar a verdade, nem história, se formos ser rigorosos. Mas, ora, o que é que vocês queriam de uma geração como a minha, marcada ainda pela repressão educacional nipônica? É verdade que, um tempo depois, muitas dessas coisas, que alguns considerariam hediondas, entraram em minha vida. Quanto a meus amigos, uns fumam; outros bebem; outros praticam as duas atividades; outros, nenhuma delas; e todos engordam e envelhecem. Penso se o mesmo não ocorre comigo, mas creio que não, ao menos no grau deles. Culpa dos refrigerantes? Pode ser, embora eu ache que o problema maior esteja em outras artificialidades do dia-a-dia. Mesmo porque festas como aquelas, nunca mais as tivemos, e acho que esta é a nota melancólica desta - vá lá que seja - história, só para não fugir de meus hábitos. Mas a melancolia, os motivos, ficam pra uma próxima vez.
9 de junho de 2006
Mais um texto longo que ninguém vai ler...
“Os limites”
A amizade é sempre um aprendizado difícil. Enquanto brincamos, não importa se junto a árvores ou num videogame de última geração, estamos constantemente exercitando nossa capacidade de convivência, aceitando ou rejeitando o que o outro nos oferece ou subtrai. Já adultos, saindo em programas comuns ou oferecendo jantares, permanecemos aprendendo a controlar o encontro de egos os mais diversos, sempre temerosos da invasão alheia e da inevitável explosão que resultaria disso. Brigas, ofensas, mágoas, tudo parece um processo em que nós nos obrigamos a tomar atitudes que fundamentarão toda a nossa vida a partir daquele momento, apontando, ou para a felicidade, ou para a desgraça total.
Nunca fui de muitas amizades. Aliás, acho improvável que qualquer ser humano normal tenha, durante a vida, mais do que cinco ou seis amigos, daqueles de verdade. Durante a infância e a adolescência, tive pelo menos dois, em muita coisa opostos, mas que estiveram comigo em quase todos os momentos difíceis, desde a mudança de escola até o primeiro emprego. Sérgio era o mais expansivo; Henrique fazia o gênero ranzinza. Ainda que amigos, poucas vezes tivemos experiências em comum, talvez pela diferença de temperamentos que nos levava a posições, várias vezes, antagônicas. No geral, era eu o mediador, justamente o menos capaz de tomar qualquer tipo de decisão, quanto mais a que fosse correta ou conveniente. Uma vez, no entanto, tivemos de atuar juntos, ou quase.
Foi numa época em que a moda, entre nós, era jogar cartas. Nem importava muito o jogo, até porque não havia interesse monetário; éramos apenas um grupo de adolescentes competindo entre si para ver quem era o mais esperto ou o mais sortudo. Meus pais haviam saído, de modo que a casa era toda nossa. E, dentre as muitas bobagens que jovens são capazes de fazer quando se pilham sozinhos, alguns de nós escolheram a pior: beber. Sérgio estava nesse grupo. No começo, era difícil resistir ao rosto sorridente e redondo de nosso amigo, embalado por alguns goles de um vinho barato que alguém havia trazido. Os amendoins e as batatas fritas, que deveriam durar a tarde toda, estavam sendo devorados com uma velocidade inimaginável pelos que bebiam. Apenas Henrique e eu, sóbrios, acompanhávamos a escalada da euforia; no começo, divertidos; com o tempo, apreensivos. Sérgio parecia estar perdendo o controle, o que foi notado pelos demais: tudo o que fazia era olhar para as cartas que tinha na mão e rir, rir muito. Por melhor que fosse o jogo, não creio que houvesse motivo para tanta alegria, a não ser...
— Um bando de palhaços!, disse Sérgio.
— Como é que é?, perguntamos.
— Palhaços. O valete, a dama, o rei, o coringa... Ôrra, meu, cada figura esquisita!
O que fizemos foi trocar sensações de desamparo; nunca havíamos passado por aquilo. Nossos olhares se voltaram para o Nélson, um dos que trouxera as bebidas, e o mais experiente da turma. Sua tranqüilidade, seu autocontrole, seu senso de responsabilidade, com certeza, nos tirariam daquela situação complicada. Ele, levantando-se rapidamente, fez soar sua decisão:
— Bom, pessoal, hora de se mandar!
Se mandar? Mas que negócio era aquele? Nosso amigo ali, bancando o ridículo, mal podendo ficar sentado, quanto mais de pé, e a solução era ir embora? Além do mais, aquilo estava acontecendo em minha casa, e eu é que teria explicações a dar se o Sérgio, sei lá, desmaiasse, entrasse em coma, morresse. Além disso, onde deixaríamos o cadáver? Pensei no terreno baldio perto dali, mas foi um instante só. Logo voltei à realidade, constatando que, como bons adolescentes, estávamos, literalmente, entrando em pânico. Vozes se alternavam:
— Banho frio. Me disseram que banho frio é bom pra essas coisas.
— É, mas café é melhor pro cara acordar.
— Ele está dormindo?
— Bom, quando a gente deita no chão...
— Onde?!
—Ali, debaixo da mesa.
Com o coração dividido entre a batedeira e a geladeira, ou seja, entre a taquicardia e a síncope, decidimos aplicar todos os truques que conhecíamos para recuperar nosso amigo. Henrique, até então calado, lançou sua nota de sabedoria:
— Eu não falei? Só tinha que dar nisso mesmo! É o que dá não saber respeitar os limites!
— Limites? Que limites?, falei, enquanto tentava fazer com nosso bêbado debutante bebesse um pouco do café que havíamos preparado.
— Os limites, ora!, encerrou Henrique, balançando a cabeça.
Confesso que o mais difícil foi colocar o Sérgio no chuveiro, já que esse negócio de tirar roupa de homem não fazia parte de nosso cotidiano. Enfim, depois de muita luta e recomendações, deixamos o sujeito lá dentro, ainda vestido, rezando para que a água fria não o pusesse em estado de choque. Minutos de ansiedade se passaram até que a porta do banheiro se abriu, mostrando uma figura deplorável, os cabelos e as roupas pingando, e um riso sem graça nos lábios. Ainda trôpego, mas menos bêbado, Sérgio tentava se desculpar:
— Ô, pessoal, mancada, heim?, disse, enquanto se sentava.
O caso é que ele não se sentou. Digo melhor: desabou na cadeira e caiu direto ao chão, adquirindo a densidade do plasma. Não sei por quê, mas me lembrei também das aulas de biologia: nosso amigo era a encarnação da matéria protéica inerte, sem vontade própria. Entre a queda e esse pensamento, a debandada foi quase total: Nélson alegou uma dor de cabeça repentina, Walter tinha a lição de matemática para fazer, o Pedro esquecera a torneira do banheiro aberta. Ficamos somente o Henrique e eu. Além, é óbvio, de nosso incômodo bebum.
— E agora?, perguntei.
— Ele vomitou no banheiro. Bom, pelo menos acertou no vaso
Uma das figuras de linguagem mais recorrente em minhas relações fraternais era, sem dúvida, a ironia. Por outro lado, talvez ele estivesse falando aquilo a sério. Porque uma das coisas que mais me surpreendia no Henrique era sua capacidade quase única de ver a realidade sem qualquer maquiagem, extraindo dos fatos apenas o que eles continham de concreto.
— Vai morrer.
— Tá brincando!
— Você vai morrer se não arrumar essa bagunça. Olha o banheiro! A sala, então... E, balançando a cabeça: é o que dá passar dos limites.
Não agüentei aquele tom de sermão paterno adiantado. Afinal, já que eu tinha de levar a bronca, que ao menos fosse do titular, e não de um regra três qualquer. Com meus brios sacudidos, como diria o cronista, resolvi dar um basta naquela empulhação:
— Escuta, já tô por aqui com esse papo de “limites”, tá legal? Você só fala, fala, fala, mas fazer que é bom, nada! Quer saber? Por que você não foi embora junto com os outros? Pelo menos eu não tinha que ficar te agüentando aqui, me torrando! Sou eu que vou me ferrar, mesmo, não é?
Faltava um golpe final, uma frase arrasadora que colocaria aquele imbecil de uma vez por todas em seu lugar, aniquilando aquela existência miserável, alguma coisa do tipo...
— Pô, Henrique, me ajuda!
Por alguns segundos, os mais longos de minha vida até então, Henrique me olhou seriamente. Contemplou os copos sobre a mesa, as cartas espalhadas, bitucas de cigarros, a massa amorfa que um dia tinha sido nosso amigo, a água que ele trouxera do banheiro. Quando percebi, havia um sorriso em seu rosto, um sorriso meio gozador, meio solidário, não soube dizer exatamente qual seria, em meio a meu desespero.
— Se a gente começar agora acho que dá tempo até seus pais chegarem.
Não acreditei no que ouvi, pelo menos durante o pasmo inicial. Logo em seguida, porém, e mesmo sem compreender direito o que levara Henrique a mudar de humor, limpei, digo, limpamos todos os vestígios de nossa imprudência. Ao fim, restava apenas um, o mais pesado. Este, depois de mil pedidos de desculpas de nossa parte, foi entregue a seu pai, que, avalio, deve ter dado boas risadas com o ocorrido, passada a tempestade do primeiro momento.
Aquele dia, contudo, me marcou pela oportunidade de travar contato com um Henrique até então desconhecido. Ele, que não representava para mim mais que um colega muito mal-humorado, passara a ser uma pessoa com quem se podia contar, para os bons e maus momentos. Henrique me ensinara mais um passo na complicada arte da amizade. Com sua casmurrice, sua sinceridade irritante, mas, sobretudo, com sua tolerância, ele criou o elo que nos manteria unidos nos quase quinze anos seguintes, depois dos quais cada um de nós seguiu o seu caminho, seja lá para onde ele apontasse. Mas após tanto tempo, penso, algo satisfeito, que eu também lhe ensinei alguma coisa. O valor de um bom grito na hora certa, quem sabe? Ou a percepção dos limites da paciência alheia (no caso, a minha). Prefiro ser menos modesto, entretanto; digamos que, comigo, Henrique pôde exercer um pouco sua parte afetiva, escondida atrás da máscara da severidade nipônica tão longamente cultivada. Sem querer, ajudei meu amigo a romper um limite, mesmo que timidamente, e só naquela ocasião.
Nos anos seguintes, ainda aprenderíamos muito um com o outro, enquanto nossos egos cresciam e nossos olhos se voltavam para direções diversas. Jogamos futebol juntos, compartilhamos angústias amorosas, vivenciamos nossas dúvidas existenciais, até um dia em que deixamos de nos ver, de nos falar, de nos preocupar mutuamente com nosso bem-estar. Recentemente, pude vê-lo passando apressado pela rua. Esbocei um chamado, mas ele estava longe, talvez não me tivesse visto, ou preferisse mesmo não me ver. Eu poderia tê-lo alcançado, se quisesse, mas apenas observei-o dobrando a esquina seguinte, sumindo de minha vista. Creio que – é quase certo – talvez tenha sido melhor assim, somente a lembrança da amizade servindo de sustento para nosso afeto, de uma época em que romper limites pedia muito mais que coragem. A verdade é que não resistiríamos a nossos próprios fantasmas, à certeza de que o tempo passou e plantou raízes definitivas em todos nós, transformando-nos em homens vagos e insensíveis. Parece contradição, eu sei; mas quem disse que a vida não tem dessas coisas?
A amizade é sempre um aprendizado difícil. Enquanto brincamos, não importa se junto a árvores ou num videogame de última geração, estamos constantemente exercitando nossa capacidade de convivência, aceitando ou rejeitando o que o outro nos oferece ou subtrai. Já adultos, saindo em programas comuns ou oferecendo jantares, permanecemos aprendendo a controlar o encontro de egos os mais diversos, sempre temerosos da invasão alheia e da inevitável explosão que resultaria disso. Brigas, ofensas, mágoas, tudo parece um processo em que nós nos obrigamos a tomar atitudes que fundamentarão toda a nossa vida a partir daquele momento, apontando, ou para a felicidade, ou para a desgraça total.
Nunca fui de muitas amizades. Aliás, acho improvável que qualquer ser humano normal tenha, durante a vida, mais do que cinco ou seis amigos, daqueles de verdade. Durante a infância e a adolescência, tive pelo menos dois, em muita coisa opostos, mas que estiveram comigo em quase todos os momentos difíceis, desde a mudança de escola até o primeiro emprego. Sérgio era o mais expansivo; Henrique fazia o gênero ranzinza. Ainda que amigos, poucas vezes tivemos experiências em comum, talvez pela diferença de temperamentos que nos levava a posições, várias vezes, antagônicas. No geral, era eu o mediador, justamente o menos capaz de tomar qualquer tipo de decisão, quanto mais a que fosse correta ou conveniente. Uma vez, no entanto, tivemos de atuar juntos, ou quase.
Foi numa época em que a moda, entre nós, era jogar cartas. Nem importava muito o jogo, até porque não havia interesse monetário; éramos apenas um grupo de adolescentes competindo entre si para ver quem era o mais esperto ou o mais sortudo. Meus pais haviam saído, de modo que a casa era toda nossa. E, dentre as muitas bobagens que jovens são capazes de fazer quando se pilham sozinhos, alguns de nós escolheram a pior: beber. Sérgio estava nesse grupo. No começo, era difícil resistir ao rosto sorridente e redondo de nosso amigo, embalado por alguns goles de um vinho barato que alguém havia trazido. Os amendoins e as batatas fritas, que deveriam durar a tarde toda, estavam sendo devorados com uma velocidade inimaginável pelos que bebiam. Apenas Henrique e eu, sóbrios, acompanhávamos a escalada da euforia; no começo, divertidos; com o tempo, apreensivos. Sérgio parecia estar perdendo o controle, o que foi notado pelos demais: tudo o que fazia era olhar para as cartas que tinha na mão e rir, rir muito. Por melhor que fosse o jogo, não creio que houvesse motivo para tanta alegria, a não ser...
— Um bando de palhaços!, disse Sérgio.
— Como é que é?, perguntamos.
— Palhaços. O valete, a dama, o rei, o coringa... Ôrra, meu, cada figura esquisita!
O que fizemos foi trocar sensações de desamparo; nunca havíamos passado por aquilo. Nossos olhares se voltaram para o Nélson, um dos que trouxera as bebidas, e o mais experiente da turma. Sua tranqüilidade, seu autocontrole, seu senso de responsabilidade, com certeza, nos tirariam daquela situação complicada. Ele, levantando-se rapidamente, fez soar sua decisão:
— Bom, pessoal, hora de se mandar!
Se mandar? Mas que negócio era aquele? Nosso amigo ali, bancando o ridículo, mal podendo ficar sentado, quanto mais de pé, e a solução era ir embora? Além do mais, aquilo estava acontecendo em minha casa, e eu é que teria explicações a dar se o Sérgio, sei lá, desmaiasse, entrasse em coma, morresse. Além disso, onde deixaríamos o cadáver? Pensei no terreno baldio perto dali, mas foi um instante só. Logo voltei à realidade, constatando que, como bons adolescentes, estávamos, literalmente, entrando em pânico. Vozes se alternavam:
— Banho frio. Me disseram que banho frio é bom pra essas coisas.
— É, mas café é melhor pro cara acordar.
— Ele está dormindo?
— Bom, quando a gente deita no chão...
— Onde?!
—Ali, debaixo da mesa.
Com o coração dividido entre a batedeira e a geladeira, ou seja, entre a taquicardia e a síncope, decidimos aplicar todos os truques que conhecíamos para recuperar nosso amigo. Henrique, até então calado, lançou sua nota de sabedoria:
— Eu não falei? Só tinha que dar nisso mesmo! É o que dá não saber respeitar os limites!
— Limites? Que limites?, falei, enquanto tentava fazer com nosso bêbado debutante bebesse um pouco do café que havíamos preparado.
— Os limites, ora!, encerrou Henrique, balançando a cabeça.
Confesso que o mais difícil foi colocar o Sérgio no chuveiro, já que esse negócio de tirar roupa de homem não fazia parte de nosso cotidiano. Enfim, depois de muita luta e recomendações, deixamos o sujeito lá dentro, ainda vestido, rezando para que a água fria não o pusesse em estado de choque. Minutos de ansiedade se passaram até que a porta do banheiro se abriu, mostrando uma figura deplorável, os cabelos e as roupas pingando, e um riso sem graça nos lábios. Ainda trôpego, mas menos bêbado, Sérgio tentava se desculpar:
— Ô, pessoal, mancada, heim?, disse, enquanto se sentava.
O caso é que ele não se sentou. Digo melhor: desabou na cadeira e caiu direto ao chão, adquirindo a densidade do plasma. Não sei por quê, mas me lembrei também das aulas de biologia: nosso amigo era a encarnação da matéria protéica inerte, sem vontade própria. Entre a queda e esse pensamento, a debandada foi quase total: Nélson alegou uma dor de cabeça repentina, Walter tinha a lição de matemática para fazer, o Pedro esquecera a torneira do banheiro aberta. Ficamos somente o Henrique e eu. Além, é óbvio, de nosso incômodo bebum.
— E agora?, perguntei.
— Ele vomitou no banheiro. Bom, pelo menos acertou no vaso
Uma das figuras de linguagem mais recorrente em minhas relações fraternais era, sem dúvida, a ironia. Por outro lado, talvez ele estivesse falando aquilo a sério. Porque uma das coisas que mais me surpreendia no Henrique era sua capacidade quase única de ver a realidade sem qualquer maquiagem, extraindo dos fatos apenas o que eles continham de concreto.
— Vai morrer.
— Tá brincando!
— Você vai morrer se não arrumar essa bagunça. Olha o banheiro! A sala, então... E, balançando a cabeça: é o que dá passar dos limites.
Não agüentei aquele tom de sermão paterno adiantado. Afinal, já que eu tinha de levar a bronca, que ao menos fosse do titular, e não de um regra três qualquer. Com meus brios sacudidos, como diria o cronista, resolvi dar um basta naquela empulhação:
— Escuta, já tô por aqui com esse papo de “limites”, tá legal? Você só fala, fala, fala, mas fazer que é bom, nada! Quer saber? Por que você não foi embora junto com os outros? Pelo menos eu não tinha que ficar te agüentando aqui, me torrando! Sou eu que vou me ferrar, mesmo, não é?
Faltava um golpe final, uma frase arrasadora que colocaria aquele imbecil de uma vez por todas em seu lugar, aniquilando aquela existência miserável, alguma coisa do tipo...
— Pô, Henrique, me ajuda!
Por alguns segundos, os mais longos de minha vida até então, Henrique me olhou seriamente. Contemplou os copos sobre a mesa, as cartas espalhadas, bitucas de cigarros, a massa amorfa que um dia tinha sido nosso amigo, a água que ele trouxera do banheiro. Quando percebi, havia um sorriso em seu rosto, um sorriso meio gozador, meio solidário, não soube dizer exatamente qual seria, em meio a meu desespero.
— Se a gente começar agora acho que dá tempo até seus pais chegarem.
Não acreditei no que ouvi, pelo menos durante o pasmo inicial. Logo em seguida, porém, e mesmo sem compreender direito o que levara Henrique a mudar de humor, limpei, digo, limpamos todos os vestígios de nossa imprudência. Ao fim, restava apenas um, o mais pesado. Este, depois de mil pedidos de desculpas de nossa parte, foi entregue a seu pai, que, avalio, deve ter dado boas risadas com o ocorrido, passada a tempestade do primeiro momento.
Aquele dia, contudo, me marcou pela oportunidade de travar contato com um Henrique até então desconhecido. Ele, que não representava para mim mais que um colega muito mal-humorado, passara a ser uma pessoa com quem se podia contar, para os bons e maus momentos. Henrique me ensinara mais um passo na complicada arte da amizade. Com sua casmurrice, sua sinceridade irritante, mas, sobretudo, com sua tolerância, ele criou o elo que nos manteria unidos nos quase quinze anos seguintes, depois dos quais cada um de nós seguiu o seu caminho, seja lá para onde ele apontasse. Mas após tanto tempo, penso, algo satisfeito, que eu também lhe ensinei alguma coisa. O valor de um bom grito na hora certa, quem sabe? Ou a percepção dos limites da paciência alheia (no caso, a minha). Prefiro ser menos modesto, entretanto; digamos que, comigo, Henrique pôde exercer um pouco sua parte afetiva, escondida atrás da máscara da severidade nipônica tão longamente cultivada. Sem querer, ajudei meu amigo a romper um limite, mesmo que timidamente, e só naquela ocasião.
Nos anos seguintes, ainda aprenderíamos muito um com o outro, enquanto nossos egos cresciam e nossos olhos se voltavam para direções diversas. Jogamos futebol juntos, compartilhamos angústias amorosas, vivenciamos nossas dúvidas existenciais, até um dia em que deixamos de nos ver, de nos falar, de nos preocupar mutuamente com nosso bem-estar. Recentemente, pude vê-lo passando apressado pela rua. Esbocei um chamado, mas ele estava longe, talvez não me tivesse visto, ou preferisse mesmo não me ver. Eu poderia tê-lo alcançado, se quisesse, mas apenas observei-o dobrando a esquina seguinte, sumindo de minha vista. Creio que – é quase certo – talvez tenha sido melhor assim, somente a lembrança da amizade servindo de sustento para nosso afeto, de uma época em que romper limites pedia muito mais que coragem. A verdade é que não resistiríamos a nossos próprios fantasmas, à certeza de que o tempo passou e plantou raízes definitivas em todos nós, transformando-nos em homens vagos e insensíveis. Parece contradição, eu sei; mas quem disse que a vida não tem dessas coisas?
6 de junho de 2006
Outra reedição...
Também publicado no falecido blogue, ainda hoje este pequeno escrito me parece dizer respeito. Menos aos sentimentos nele envolvidos, mas muito mais pelos significados que acabei, digamos, "embutindo" em seus meandros... Boa leitura!
“O medo do goleiro”
Todos já tiveram, sem exceção, ao menos um grande amor na vida. Ainda que limitado a uma única experiência – em geral adolescente; em alguns casos na fase madura – vivenciar o nascimento disso que será o tormento fundamental da existência humana é, sem dúvida, uma daquelas coisas que se farão imprescindíveis na educação sentimental de qualquer ser humano que se preze. Na minha vida, o primeiro desses grandes amores talvez se localize num período entre meus oito e quatorze anos, início da década de 70, logo que comecei a estudar numa escola estadual, recém-reformada – por dentro e por fora – pelo governo.
Conheci Márcia numa sala de aula, segundo ano do antigo primário, hoje primeiro grau. Éramos bem umas trinta ou quarenta crianças, todas muito parecidas em suas carências e capacidades. Num tempo em que os hormônios pareciam só vir depois dos treze ou quatorze anos, sermos "crianças" não chegava a ser bem uma ofensa. Naturalmente, havia algumas mais desenvolvidas que outras, mas nada que chegasse a atrapalhar uma certa homogeneidade próxima à do leite Ninho Instantâneo. Mas ela estava lá, destacando-se no meio daquele perigo de algazarra, com seu perfil arrebitado, num orgulho ainda sem consciência, balançando os cabelos... vá lá: claros, um ouro impuro mas brando em meus olhos castanhos. Sei que foi ali, naquele lugar, um segundo da esperança que ela ergueu, um sorriso e o exercício de matemática sem solução, foi bem ali que passei a amar secretamente Márcia e seus mistérios.
Até o grande incidente que inaugurou nosso período de separação, por volta dos treze anos, havia – não sei bem como dizer – havia sempre um clima de entendimento entre nós dois. Por imposições escolares, Márcia e eu costumávamos nos ver cotidianamente, na casa de nossa professora. Eu, como o melhor aluno da classe na época, bem entendido; Márcia como sobrinha-neta. Isso desde os oito anos de idade, uma convivência pacífica, ainda que cercada de cuidados de minha parte, sem saber exatamente o que me impelia a querer ficar mais e mais a cada dia, sentindo o perfume do banho tomado, um conforto incômodo que emanava de minha amiga, misturando regras gramaticais e ciências naturais, geografia e história em estudos sociais. O fato é que Márcia era uma presença maior que o Ultra-Seven em minhas tardes sem lição de casa ou futebol na rua. Sei que parece idiota, talvez fosse mesmo, porque todos o éramos naqueles tempos incontestáveis; mas Márcia e eu formávamos alguma coisa boa, de que eu não sabia precisar a exata matéria.
Isso, até o primeiro rompimento, objeto de outro relato, já antigo. Algum tempo mais tarde, ambos entrados na adolescência, voltamos a estudar na mesma sala. De início, separados por uma torrente de amigos e inimigos, por comportamentos e, principalmente, por uma espécie de namoro que ela começara no ano anterior, com um dos chamados "repetentes", numa época em que isso era motivo de estigmatização por parte de todos. Rubão, era como o chamávamos nós, os "estudiosos", por motivos que iam da obviedade até o obscuro das conversas maliciosas. Seja como for, nada me parecia tão distante quanto Márcia de braços dados com Rubão, e pensamentos nada românticos se pendurando no trapézio machadiano de minha cabeça me diziam que eu nunca mais conquistaria Márcia, que era assim mesmo, o mundo pertencia aos mais fortes. Bem, não diria o mundo todo, mas pelo menos sua parte feminina, que era o que importava naquele momento. O fato é que minha outrora amiga como que parecia se comprazer de desfilar com os músculos de Rubão diante, principalmente, de mim, recolhido num canto do pátio com minha magreza de não-esportista, junto a meus iguais.
Naquele ano, o último de nossa inocência, a direção da escola resolveu promover um campeonato interno de futebol de salão, e o torneio da oitava série envolvia apenas quatro classes, entre elas a minha. Em princípio, nada que me dissesse respeito, até sabermos que a condição sine qua non para participar era o desempenho, digamos, acadêmico. Traduzindo: notas baixas, "vermelhas", como dizíamos, excluíam o pelejador do time. Traduzindo a tradução: fui alçado à categoria de titular, eu que, apesar de gostar do esporte, nunca me considerei nada além de um jogador esforçado. Apesar disso, e para resumir a história, conseguimos levar o torneio até uma partida de desempate com a classe favorita, aquela em que jogava – adivinharam – Rubão, inacreditavelmente isento das sanções escolares. Na torcida, outra obviedade desta história: Márcia. O jogo prometia ser um massacre, já que Rubão e companhia, mordidos pela derrota diante de nós no jogo anterior, juravam vingança. Para aumentar o clima de perigo, uma garoa já não tão paulistana tornava o piso da quadra tão seguro quanto amor de adolescente. Com tudo isso, havia entre os jogadores de nosso time, talvez mais em mim que nos demais, um desejo, uma esperança, quem sabe uma confiança de vencer, de mostrar uma capacidade que nós mesmos desconhecíamos, e Márcia ali sentada, olhando para mim, para Rubão, eu não tinha bem certeza, sei que essa vontade foi tomando conta da gente, próximos à beira do milagre, que é o que esperávamos. A verdade é que o jogo começou nervoso, nós apenas tentando impedir que o adversário fizesse o gol, até, num instante distraído, a bola sobrar para mim, cara a cara com o goleiro, e eu acertar o chute com raiva calculada, um a zero. Então, quase sem querer, meus olhos se voltaram para Márcia, ignoro com que intenção, e não vi nada, ou melhor, vi exatamente isso: nada. A Márcia que eu conhecera e amara, isso eu percebia naquele momento, ainda que não tivesse palavras para o dizer, aquela Márcia não existia mais, pode ser que nunca tivesse existido, fruto de desejos infantis e adolescentes, só sei que minha Márcia passou a ser apenas uma imagem emoldurada no quarto de meus fantasmas pessoais, tamanha a impressão causada por aquele olhar, o primeiro de muitos que eu teria de enfrentar na vida.
Depois daquilo, a partida não fazia mais qualquer diferença, ao menos para mim. Tudo se quebrara, sem solda ou cola possível que não o tempo, mas não somente os dois de um jogo de futebol. Vencemos, para não se dizer que a perda foi total. Vencemos os favoritos, levamos a taça, as medalhas, as pequenas glórias de nossos quatorze anos. Vencemos, sobretudo, nossos temores mais evidentes. Mas aquele gol marcou um fim e um começo, que só hoje sou capaz de compreender em todas as implicações. As mulheres movem a vida, afinal, e isso eu percebi quando Márcia beijou um Rubão desconsolado naquela noite plena de vitórias, derrotas, e novos saberes. As medalhas e a taça sumiram com o passar do tempo, assim como meus companheiros de jornada, muitos ainda vivos, outros nem tanto. De minha ex-amiga, soube, recentemente, estar casada e feliz, longe de Rubão. O beijo de Márcia, esse, no entanto, está comigo até hoje, marcado na pele e nos olhos assombrados pelo desejo. Mudo. Como o medo do goleiro na hora do gol.
“O medo do goleiro”
Todos já tiveram, sem exceção, ao menos um grande amor na vida. Ainda que limitado a uma única experiência – em geral adolescente; em alguns casos na fase madura – vivenciar o nascimento disso que será o tormento fundamental da existência humana é, sem dúvida, uma daquelas coisas que se farão imprescindíveis na educação sentimental de qualquer ser humano que se preze. Na minha vida, o primeiro desses grandes amores talvez se localize num período entre meus oito e quatorze anos, início da década de 70, logo que comecei a estudar numa escola estadual, recém-reformada – por dentro e por fora – pelo governo.
Conheci Márcia numa sala de aula, segundo ano do antigo primário, hoje primeiro grau. Éramos bem umas trinta ou quarenta crianças, todas muito parecidas em suas carências e capacidades. Num tempo em que os hormônios pareciam só vir depois dos treze ou quatorze anos, sermos "crianças" não chegava a ser bem uma ofensa. Naturalmente, havia algumas mais desenvolvidas que outras, mas nada que chegasse a atrapalhar uma certa homogeneidade próxima à do leite Ninho Instantâneo. Mas ela estava lá, destacando-se no meio daquele perigo de algazarra, com seu perfil arrebitado, num orgulho ainda sem consciência, balançando os cabelos... vá lá: claros, um ouro impuro mas brando em meus olhos castanhos. Sei que foi ali, naquele lugar, um segundo da esperança que ela ergueu, um sorriso e o exercício de matemática sem solução, foi bem ali que passei a amar secretamente Márcia e seus mistérios.
Até o grande incidente que inaugurou nosso período de separação, por volta dos treze anos, havia – não sei bem como dizer – havia sempre um clima de entendimento entre nós dois. Por imposições escolares, Márcia e eu costumávamos nos ver cotidianamente, na casa de nossa professora. Eu, como o melhor aluno da classe na época, bem entendido; Márcia como sobrinha-neta. Isso desde os oito anos de idade, uma convivência pacífica, ainda que cercada de cuidados de minha parte, sem saber exatamente o que me impelia a querer ficar mais e mais a cada dia, sentindo o perfume do banho tomado, um conforto incômodo que emanava de minha amiga, misturando regras gramaticais e ciências naturais, geografia e história em estudos sociais. O fato é que Márcia era uma presença maior que o Ultra-Seven em minhas tardes sem lição de casa ou futebol na rua. Sei que parece idiota, talvez fosse mesmo, porque todos o éramos naqueles tempos incontestáveis; mas Márcia e eu formávamos alguma coisa boa, de que eu não sabia precisar a exata matéria.
Isso, até o primeiro rompimento, objeto de outro relato, já antigo. Algum tempo mais tarde, ambos entrados na adolescência, voltamos a estudar na mesma sala. De início, separados por uma torrente de amigos e inimigos, por comportamentos e, principalmente, por uma espécie de namoro que ela começara no ano anterior, com um dos chamados "repetentes", numa época em que isso era motivo de estigmatização por parte de todos. Rubão, era como o chamávamos nós, os "estudiosos", por motivos que iam da obviedade até o obscuro das conversas maliciosas. Seja como for, nada me parecia tão distante quanto Márcia de braços dados com Rubão, e pensamentos nada românticos se pendurando no trapézio machadiano de minha cabeça me diziam que eu nunca mais conquistaria Márcia, que era assim mesmo, o mundo pertencia aos mais fortes. Bem, não diria o mundo todo, mas pelo menos sua parte feminina, que era o que importava naquele momento. O fato é que minha outrora amiga como que parecia se comprazer de desfilar com os músculos de Rubão diante, principalmente, de mim, recolhido num canto do pátio com minha magreza de não-esportista, junto a meus iguais.
Naquele ano, o último de nossa inocência, a direção da escola resolveu promover um campeonato interno de futebol de salão, e o torneio da oitava série envolvia apenas quatro classes, entre elas a minha. Em princípio, nada que me dissesse respeito, até sabermos que a condição sine qua non para participar era o desempenho, digamos, acadêmico. Traduzindo: notas baixas, "vermelhas", como dizíamos, excluíam o pelejador do time. Traduzindo a tradução: fui alçado à categoria de titular, eu que, apesar de gostar do esporte, nunca me considerei nada além de um jogador esforçado. Apesar disso, e para resumir a história, conseguimos levar o torneio até uma partida de desempate com a classe favorita, aquela em que jogava – adivinharam – Rubão, inacreditavelmente isento das sanções escolares. Na torcida, outra obviedade desta história: Márcia. O jogo prometia ser um massacre, já que Rubão e companhia, mordidos pela derrota diante de nós no jogo anterior, juravam vingança. Para aumentar o clima de perigo, uma garoa já não tão paulistana tornava o piso da quadra tão seguro quanto amor de adolescente. Com tudo isso, havia entre os jogadores de nosso time, talvez mais em mim que nos demais, um desejo, uma esperança, quem sabe uma confiança de vencer, de mostrar uma capacidade que nós mesmos desconhecíamos, e Márcia ali sentada, olhando para mim, para Rubão, eu não tinha bem certeza, sei que essa vontade foi tomando conta da gente, próximos à beira do milagre, que é o que esperávamos. A verdade é que o jogo começou nervoso, nós apenas tentando impedir que o adversário fizesse o gol, até, num instante distraído, a bola sobrar para mim, cara a cara com o goleiro, e eu acertar o chute com raiva calculada, um a zero. Então, quase sem querer, meus olhos se voltaram para Márcia, ignoro com que intenção, e não vi nada, ou melhor, vi exatamente isso: nada. A Márcia que eu conhecera e amara, isso eu percebia naquele momento, ainda que não tivesse palavras para o dizer, aquela Márcia não existia mais, pode ser que nunca tivesse existido, fruto de desejos infantis e adolescentes, só sei que minha Márcia passou a ser apenas uma imagem emoldurada no quarto de meus fantasmas pessoais, tamanha a impressão causada por aquele olhar, o primeiro de muitos que eu teria de enfrentar na vida.
Depois daquilo, a partida não fazia mais qualquer diferença, ao menos para mim. Tudo se quebrara, sem solda ou cola possível que não o tempo, mas não somente os dois de um jogo de futebol. Vencemos, para não se dizer que a perda foi total. Vencemos os favoritos, levamos a taça, as medalhas, as pequenas glórias de nossos quatorze anos. Vencemos, sobretudo, nossos temores mais evidentes. Mas aquele gol marcou um fim e um começo, que só hoje sou capaz de compreender em todas as implicações. As mulheres movem a vida, afinal, e isso eu percebi quando Márcia beijou um Rubão desconsolado naquela noite plena de vitórias, derrotas, e novos saberes. As medalhas e a taça sumiram com o passar do tempo, assim como meus companheiros de jornada, muitos ainda vivos, outros nem tanto. De minha ex-amiga, soube, recentemente, estar casada e feliz, longe de Rubão. O beijo de Márcia, esse, no entanto, está comigo até hoje, marcado na pele e nos olhos assombrados pelo desejo. Mudo. Como o medo do goleiro na hora do gol.
2 de junho de 2006
Reeditando um escrito...
Isto já foi publicado no blogue falecido, mas como aqui é tudo novo, achei melhor reeditá-lo. Aproveitem para reler a bagaça.
Dos limites ou: A metafísica dos barbeiros
Quando nasce a vaidade humana? Uns dizem que é inata; nascemos com ela e, à medida que dela necessitamos – quando o instinto de preservação da espécie assim o exige – se mostra, bela e resplandecente. Outros afirmam que seu surgimento se dá a partir da consciência da sexualidade, daí as crianças de hoje serem tão zelosas de sua aparência – as apresentadoras da TV estariam aí para confirmar essa posição teórica. Isso nos leva a concluir que o sexo, para variar, seria a motivação, não só da vaidade, mas de todos os comportamentos animais (humanos incluídos). Essa constatação, conquanto não respondesse com objetividade à minha pergunta, ao menos poderia servir de consolo quando eu, aos doze anos, era obrigado a cortar o cabelo por imposição paterna.
Parafraseando Mário de Andrade, diria que meu pai era um desmancha-prazeres cinzento, ainda que esse matiz não traduzisse o grau repressivo de seu caráter. Tendo passado por todas as fases do desenvolvimento infantil na sua relação com a figura paterna, ou seja, percebendo que a realidade brutal me impusera aquele homem como o grande carma de minha vida, era com inconformismo que me via obrigado a seguir um modelo imposto de corte de cabelo. Ora, estávamos em 1974, víamos os Secos e Molhados, o glitter rock estava no auge, o Led Zeppelin estourava nas paradas, e não era possível que só eu me visse alijado daquela tendência de longos cabelos (já que as idéias, na época, eram bem curtas...).
Além disso, havia as garotas: como impressioná-las sem o aparato (no bom sentido) necessário? Fora se vestir bem, era preciso ter cabelos longos. Como usávamos uniformes na escola, percebe-se que o primeiro item já estava prejudicado, ainda que todos os alunos fizessem uso dos limites permitidos nas medidas das roupas: barra com abertura máxima de 21 centímetros – no caso de calças; e saia até um palmo acima do joelho. Mesmo os cabelos não podiam ser muito compridos e, embora não houvesse regras explícitas, todos supúnhamos um tamanho "x" que se afigurasse como aceitável e pronto. Mas nem isso meu pai me permitia, é claro.
De modo que, uma vez por mês, o sacrifício de cortar minhas madeixas (que nem madeixas eram, mas tudo bem) impunha-se como ordem superior, divina, incontestável. E, contrariando o ditado que diz que as coisas não podem ficar piores, havia um barbeiro perto de casa especialmente escolhido para esse fim macabro. Por sinal, o próprio nome da atividade tinha alguma coisa de sinistro: nunca me esquecera a leitura dos livros de ciência, que davam notícia da existência de um inseto, transmissor da doença de Chagas, que recebia a mesma denominação do profissional citado. Outro dado estarrecedor era a antiga prática do uso de sanguessugas, quando os barbeiros faziam papel de médicos. Alguma coisa me dizia que aquilo ainda era praticado, em nossos tempos, ainda que sob disfarces sutis, sabe-se lá como.
Pois bem: eu já era vaidoso o suficiente para perceber que aquele tipo de imposição teria de acabar, sob pena de nunca sentir o gosto do beijo de uma garota, e o que viesse depois disso. Entrei no pequeno recinto disposto a modificar o jogo a meu favor. Sentei-me, aguardei aquela amarração incômoda de panos e disparei, tentando ser o mais convincente possível:
— Olha, me corta bem pouquinho, tá?
O sujeito parou, fitou-me atentamente e devolveu:
— Como? Fala mais alto, menino!
Duas complicações: não me ouvira e me chamara de "menino". Se havia uma coisa que me punha fora do sério era ser chamado daquela maneira. (Hoje, o mesmo efeito pode ser alcançado por quem me chama de "japonês". Pode parecer lógico, mas nem de longe é verdadeiro – sem contar a carga de preconceito embutida.) Diante daquilo, resolvi ser mais impositivo:
— Se o senhor puder, corta só um dedo, pode ser?
Evidentemente o pedido foi feito no sentido figurado. A reação do homem, entretanto, quase parecia indicar o oposto:
— Ué, então pra que você veio aqui, menino?
Descobri, do modo mais desastroso, que barbeiros são seres extremamente sensíveis no que diz respeito a sua atividade profissional. Ou seja: existe, em todos, uma vontade, uma volúpia, quem sabe uma tara de origem ancestral, que os leva a querer desbastar completamente a cobertura capilar do freguês, o que é – no mínimo – um contra-senso, pensando bem. Se você pede "dois dedos", cortam três; se deseja só "um acerto de corte", são capazes de ter chiliques. Não me intimidei, contudo. Naquele momento que me pareceu decisivo, encarei-o firmemente, dizendo:
— Vim cortar o cabelo, ora essa! – E, antes que ele movimentasse a tesoura: mas do meu jeito, pode ser?
E foi assim, orientando aquele homem sem imaginação, que eu cometi a primeira das minhas grandes desobediências, a primeira de muitas de um trajeto longuíssimo que não sei se terminará tão cedo. É certo, também, que os cabelos mais longos não me trouxeram nada daquilo que eu esperava. Mas foram uma conquista. Pequena, efêmera, fútil, mas uma conquista. Outras vieram, assim como derrotas desanimadoras, e não sei se o saldo é ou não favorável a mim, atualmente. A batalha dos cabelos, estopim de todas as outras, no entanto, eu só perderia para o tempo, pai de todos os deuses. Mas desse, infelizmente, eu não poderia me livrar.
Dos limites ou: A metafísica dos barbeiros
Quando nasce a vaidade humana? Uns dizem que é inata; nascemos com ela e, à medida que dela necessitamos – quando o instinto de preservação da espécie assim o exige – se mostra, bela e resplandecente. Outros afirmam que seu surgimento se dá a partir da consciência da sexualidade, daí as crianças de hoje serem tão zelosas de sua aparência – as apresentadoras da TV estariam aí para confirmar essa posição teórica. Isso nos leva a concluir que o sexo, para variar, seria a motivação, não só da vaidade, mas de todos os comportamentos animais (humanos incluídos). Essa constatação, conquanto não respondesse com objetividade à minha pergunta, ao menos poderia servir de consolo quando eu, aos doze anos, era obrigado a cortar o cabelo por imposição paterna.
Parafraseando Mário de Andrade, diria que meu pai era um desmancha-prazeres cinzento, ainda que esse matiz não traduzisse o grau repressivo de seu caráter. Tendo passado por todas as fases do desenvolvimento infantil na sua relação com a figura paterna, ou seja, percebendo que a realidade brutal me impusera aquele homem como o grande carma de minha vida, era com inconformismo que me via obrigado a seguir um modelo imposto de corte de cabelo. Ora, estávamos em 1974, víamos os Secos e Molhados, o glitter rock estava no auge, o Led Zeppelin estourava nas paradas, e não era possível que só eu me visse alijado daquela tendência de longos cabelos (já que as idéias, na época, eram bem curtas...).
Além disso, havia as garotas: como impressioná-las sem o aparato (no bom sentido) necessário? Fora se vestir bem, era preciso ter cabelos longos. Como usávamos uniformes na escola, percebe-se que o primeiro item já estava prejudicado, ainda que todos os alunos fizessem uso dos limites permitidos nas medidas das roupas: barra com abertura máxima de 21 centímetros – no caso de calças; e saia até um palmo acima do joelho. Mesmo os cabelos não podiam ser muito compridos e, embora não houvesse regras explícitas, todos supúnhamos um tamanho "x" que se afigurasse como aceitável e pronto. Mas nem isso meu pai me permitia, é claro.
De modo que, uma vez por mês, o sacrifício de cortar minhas madeixas (que nem madeixas eram, mas tudo bem) impunha-se como ordem superior, divina, incontestável. E, contrariando o ditado que diz que as coisas não podem ficar piores, havia um barbeiro perto de casa especialmente escolhido para esse fim macabro. Por sinal, o próprio nome da atividade tinha alguma coisa de sinistro: nunca me esquecera a leitura dos livros de ciência, que davam notícia da existência de um inseto, transmissor da doença de Chagas, que recebia a mesma denominação do profissional citado. Outro dado estarrecedor era a antiga prática do uso de sanguessugas, quando os barbeiros faziam papel de médicos. Alguma coisa me dizia que aquilo ainda era praticado, em nossos tempos, ainda que sob disfarces sutis, sabe-se lá como.
Pois bem: eu já era vaidoso o suficiente para perceber que aquele tipo de imposição teria de acabar, sob pena de nunca sentir o gosto do beijo de uma garota, e o que viesse depois disso. Entrei no pequeno recinto disposto a modificar o jogo a meu favor. Sentei-me, aguardei aquela amarração incômoda de panos e disparei, tentando ser o mais convincente possível:
— Olha, me corta bem pouquinho, tá?
O sujeito parou, fitou-me atentamente e devolveu:
— Como? Fala mais alto, menino!
Duas complicações: não me ouvira e me chamara de "menino". Se havia uma coisa que me punha fora do sério era ser chamado daquela maneira. (Hoje, o mesmo efeito pode ser alcançado por quem me chama de "japonês". Pode parecer lógico, mas nem de longe é verdadeiro – sem contar a carga de preconceito embutida.) Diante daquilo, resolvi ser mais impositivo:
— Se o senhor puder, corta só um dedo, pode ser?
Evidentemente o pedido foi feito no sentido figurado. A reação do homem, entretanto, quase parecia indicar o oposto:
— Ué, então pra que você veio aqui, menino?
Descobri, do modo mais desastroso, que barbeiros são seres extremamente sensíveis no que diz respeito a sua atividade profissional. Ou seja: existe, em todos, uma vontade, uma volúpia, quem sabe uma tara de origem ancestral, que os leva a querer desbastar completamente a cobertura capilar do freguês, o que é – no mínimo – um contra-senso, pensando bem. Se você pede "dois dedos", cortam três; se deseja só "um acerto de corte", são capazes de ter chiliques. Não me intimidei, contudo. Naquele momento que me pareceu decisivo, encarei-o firmemente, dizendo:
— Vim cortar o cabelo, ora essa! – E, antes que ele movimentasse a tesoura: mas do meu jeito, pode ser?
E foi assim, orientando aquele homem sem imaginação, que eu cometi a primeira das minhas grandes desobediências, a primeira de muitas de um trajeto longuíssimo que não sei se terminará tão cedo. É certo, também, que os cabelos mais longos não me trouxeram nada daquilo que eu esperava. Mas foram uma conquista. Pequena, efêmera, fútil, mas uma conquista. Outras vieram, assim como derrotas desanimadoras, e não sei se o saldo é ou não favorável a mim, atualmente. A batalha dos cabelos, estopim de todas as outras, no entanto, eu só perderia para o tempo, pai de todos os deuses. Mas desse, infelizmente, eu não poderia me livrar.
30 de maio de 2006
Novidades quase velhas
Primeira: fui convidado - e meu nome foi aprovado pelo Conselho Departamental - para substituir um professor e grande amigo na Escola de Comunicações e Artes da USP. Apenas um semestre, por conta de uma licença-prêmio dele. Esta notícia já havia sido veiculado no falecido blogue; o que não contei foi a quantidade de comentários apócrifos que surgiram, dizendo que eu estava me gabando de trabalhar de graça e coisa e loisa e mariposa... Fico a imaginar que motivação alguém teria para escrever tais coisas, mas creio nem ser necessário pensar muito... Ademais, não será de graça.
Segunda: creio que meu segundo livro de poemas deva ser publicado até o final do ano, quem sabe no início do próximo. Espero que isso aconteça antes que eu morra. Ou os eventuais compradores.
Terceira: fui convidado para participar de um evento em homenagem ao escritor João Antônio, falecido há quase 10 anos, e que foi objeto de minha dissertação de Mestrado. Será na Unesp, em outubro. Qual Unesp? Para quem é do ramo, é óbvio. Para quem não é, a informação: será em Assis.
Relembrando aquela frase que tanta celeuma causou: "Inveja pega mais que conjuntivite em banheiro coletivo." Trata-se, em suma, disso. Porque os amigos ficam felizes por nossos sucessos, ao contrário dos que fingem gostar da gente. Posso ser criticável em muitos aspectos, mas ninguém pode dizer que eu finja gostar de quem eu não goste.
Segunda: creio que meu segundo livro de poemas deva ser publicado até o final do ano, quem sabe no início do próximo. Espero que isso aconteça antes que eu morra. Ou os eventuais compradores.
Terceira: fui convidado para participar de um evento em homenagem ao escritor João Antônio, falecido há quase 10 anos, e que foi objeto de minha dissertação de Mestrado. Será na Unesp, em outubro. Qual Unesp? Para quem é do ramo, é óbvio. Para quem não é, a informação: será em Assis.
Relembrando aquela frase que tanta celeuma causou: "Inveja pega mais que conjuntivite em banheiro coletivo." Trata-se, em suma, disso. Porque os amigos ficam felizes por nossos sucessos, ao contrário dos que fingem gostar da gente. Posso ser criticável em muitos aspectos, mas ninguém pode dizer que eu finja gostar de quem eu não goste.
Esclarecimentos
O texto abaixo é antigo e nunca foi publicado em lugar algum. Fazia parte de uma série de escritos de caráter memorialístico que perpetrei no início da década de 90 nos encontros do grupo de Redação Criativa do Museu Lasar Segall. Este, junto com outros que foram publicados no falecido Defenestrando o Inútil, são exemplos claros de que minha carreira como narrador tinha mesmo que ser abortada. Mesmo assim, gosto daqueles textos e, já que blogues foram feitos também para isso - para esse exercício mórbido de desencavar fósseis - achei por bem publicá-los. Há quem - além de mim - goste deles...
Pequeno escrito arqueológico
Doces visões da infância
Domingo no parque, ou melhor: passeio ao zoológico. Naquele ano de 1971, alguma alma benfazeja propôs que as classes do 3º ano fizessem uma excursão do tipo educativo e, já que não estávamos em época de Salão da Criança, a única saída possível era o Jardim Zoológico, local propício à prática pedagógica e ao aprendizado peripatético, ainda que marcados por algumas sutis diferenças: não vivíamos na Grécia Antiga, e nossas professoras estavam um pouco longe de Sócrates, em vários sentidos.
Ao saber da notícia, fiquei dividido entre uma certa euforia – própria das crianças que se deparam com novidades – e uma desconfiança quanto à forma com que a coisa se processaria. Pois eu presenciara, nos já referidos Salões da Criança, cenas dantescas em que dezenas de garotas e garotos eram conduzidos por suas respectivas mestras por meio de – como direi? – "cercadinhos" de corda; uma espécie de trenzinho de Carnaval, só que absolutamente contido. E eu, livre, próximo a meus pais, via tudo aquilo com assombro e superioridade, e os rostos tristes e ávidos eram de um contraste pavoroso com a minha situação. Seria assim nosso passeio?, conjecturava eu com os botões de meu pijama, na noite anterior ao acontecimento. Uma longuíssima noite, diga-se de passagem.
E já que falei em passagem, no dia seguinte, à porta da escola, um ônibus fretado nos esperava. Fretado ou furtado, sabe-se lá, pois parecia sobra daquela revolução de sete anos antes, com o agravante que andava e transportaria setenta crianças encapetadas e suas professoras. Um de meus colegas, como que numa premonição de seu... destino, tomou conta da cadeira do cobrador e, ainda que não houvesse dinheiro no caixa, adquiriu um certo ar distinto que jamais voltaria a ter, porque jamais se sentaria num lugar mais alto novamente, a não ser aquele mesmo. Cada um com a glória que merece, diria meu vírus neoliberal, escondendo – na verdade – minha inveja pelo destaque ganho por ele. O ônibus, confirmando a etimologia, recebeu a todos e, com o motorista a postos, pôs-nos a caminho e ao encontro das feras.
Bless the beasts and the children, cantaria Karen Carpenter. Há, de fato, alguma coisa em comum entre esses dois representantes do reino animal. Muito provavelmente a tendência a atitudes irracionais. Ou uma inocência de feições destruidoras. Graças, porém, à prudência dos organizadores, nosso passeio foi marcado, não num domingo, mas numa sexta-feira. A tranqüilidade do lugar só quebrada por nossos gritos, que se misturavam aos das crianças de outras escolas. Enfim, tínhamos o parque quase todo só para nós, fato que recebíamos com a alegria egoísta dessa faixa etária. Isso foi vital para que a idéia do "trenzinho" fosse abandonada, visto haver certa segurança, já que aprendíamos coisas úteis como "não confiar em estranhos", "chame um policial se se sentir em perigo", ou "não compre doces na porta da escola: eles podem estar envenenados". Mesmo assim, como resistir às guloseimas vendidas naquele paraíso? Maçãs do amor brilhantes, algodão doce, cachorro quente, e todas essas coisas meio nojentas aos olhos dos adultos. E churros. Não desses que se vendem hoje, com recheio e referências fálicas, mas dos simples – mais finos e somente recobertos de açúcar e canela. Assim, devidamente autorizados, usávamos nossos cruzeiros novos na compra daquelas coisas, devoradas com um prazer parecido com o do urso, que vimos ser alimentado habilmente pelo funcionário encarregado.
Aílton, meu amigo pessoal e adversário acadêmico, compartilhava comigo do espanto do primeiro contato com determinados animais, conhecidos apenas nos livros. O lobo guará, o rinoceronte, o leão preguiçoso e as cobras aparentemente viscosas, todos eles enchiam nossos pulmões de medo e nossos estômagos de água, pelo aspecto e pelo odor desagradável que exalava de seus recantos e corpos. Meu amigo, estranhamente, não parecia atraído pelos sabores, brilhos, e pelo colorido das guloseimas à nossa disposição, limitando-se a comer dos biscoitos que trouxera de casa. Mas por quê?, indaguei, imaginando náuseas grotescas, e sem perceber o olhar sem graça que me dirigira. "Não tenho dinheiro", era o que ele falava, sem abrir a boca. Coisa que, aliás, eu mesmo deveria ter feito, se fosse mais esperto. Ficamos, assim, os dois sentados à beira do caminho, um sol fresco naqueles anos cinzentos, olhando as árvores daquele Brasil que a mão de Deus abençoou, como dizia uma canção que tomaria conta das paradas militares, digo, de sucesso, no ano seguinte. Os colegas se divertiam no parquinho de areia malcheirosa; então me voltei para Aílton, e propus: "Vamos comer um churro?"
Ele permaneceu por alguns segundos em silêncio, soltou algumas palavras de recusa, mas insisti, eu pagaria, que besteira era aquela, deixa de ser bobo, e puxei-o pelo braço, arrastando-o comigo, sem me esquecer de avisar a uma das professoras aonde iríamos. Comprei dois pedaços recém prontos, ainda espalhando o aroma inconfundível e, sem malícia, compartilhamos daquele prazer descomplicado, antes mesmo que eu pudesse guardar o troco recebido. Ao terminarmos, o dinheiro ainda em minha mão, disse para Aílton: "Toma, fica pra você!", sem dar tempo para protestos e contestações. Contrafeito, aceitou as notas, guardando-as no bolso frontal da camisa. Confesso não me recordar da quantia ofertada, se muita ou pouca, mas o fato se repetiu mais duas vezes naquele dia, as bolachas esquecidas na bolsa, Aílton mais conformado com minha insistência, e nos divertimos bem, longe de um mundo que excluía os diferentes, os animais na sua mansuetude enganosa e crianças em fase de descobertas.
Na semana seguinte, em casa após uma segunda-feira cansativa, tocaram a campainha. Minha mãe atendeu e me chamou. Era comigo, o que seria? Na rua, Aílton e uma senhora idosa. Ares estranhos, e mais ainda para mim, que não entendia o porquê daquela visita. Aproximei-me, temeroso por alguma coisa que não fizera. Ou fizera? Quando Aílton, instigado por sua mãe (soube então), me falou do motivo daquela aparição inesperada... Era mais do que evidente: o dinheiro do zoológico. A mulher me interpelou:
— Mas você deu mesmo tudo isso pra ele?, e me mostrava as diversas notas, um tanto amarfanhadas, onde se distinguiam as efígies da Princesa Isabel e do Pedro Álvares Cabral, não sei se mera coincidência ou fato carregado de simbologias que só muitos anos depois eu poderia interpretar.
Eu, surpreso com tudo aquilo, olhava para o rosto de Aílton, abaixado e – avalio hoje – envergonhado, e para o de sua mãe, vincado de rugas, uma lágrima começando a surgir. Mesmo sem compreender, respondi que sim, o dinheiro era dele, não havia problema algum. Então, aquela mulher ergueu os olhos e os braços e me agradeceu muito, Deus haveria de pagar aquele ato de bondade, disse, segurando minhas mãos. Nos olhamos mutuamente, os três, afogados em silêncios e lágrimas, então ela se despediu, Aílton também, deixando-me ali sem saber o que fazer, vendo-os descer a rua até sumirem na primeira curva.
Naquele dia, tive meu primeiro contato com um gosto novo, diverso do das maçãs e dos churros. Um prazer muito mais duradouro e, ao mesmo tempo, incômodo. Nunca entendi o porquê de minha atitude naquele passeio escolar: se por desconhecer o valor do dinheiro; se por um sentimento de solidariedade, raro naqueles dias como hoje; ou se por um anseio de me sentir poderoso, como aquele menino no banco do cobrador, sonhando com seu uniforme, a posse da catraca e suas conseqüências. O fato é que, sob diferentes modos, esse sentimento iria nortear boa parte de minha vida dali por diante, com raríssimas vantagens pessoais para mim e, por que não dizer?, até mesmo enfrentando prejuízos de todas as ordens. Enfim, fiquemos com a tese da bondade. Ela é insustentável e explica muito pouco desta história absurda, eu sei. Mas, pensando bem, talvez seja por isso mesmo; afinal, pelo óbvio ou pelo mistério, nem tudo carece de explicação, até para conferir algum significado aproveitável para esta crônica de paquidermes, urutus e outros bichos menos memoráveis.
Domingo no parque, ou melhor: passeio ao zoológico. Naquele ano de 1971, alguma alma benfazeja propôs que as classes do 3º ano fizessem uma excursão do tipo educativo e, já que não estávamos em época de Salão da Criança, a única saída possível era o Jardim Zoológico, local propício à prática pedagógica e ao aprendizado peripatético, ainda que marcados por algumas sutis diferenças: não vivíamos na Grécia Antiga, e nossas professoras estavam um pouco longe de Sócrates, em vários sentidos.
Ao saber da notícia, fiquei dividido entre uma certa euforia – própria das crianças que se deparam com novidades – e uma desconfiança quanto à forma com que a coisa se processaria. Pois eu presenciara, nos já referidos Salões da Criança, cenas dantescas em que dezenas de garotas e garotos eram conduzidos por suas respectivas mestras por meio de – como direi? – "cercadinhos" de corda; uma espécie de trenzinho de Carnaval, só que absolutamente contido. E eu, livre, próximo a meus pais, via tudo aquilo com assombro e superioridade, e os rostos tristes e ávidos eram de um contraste pavoroso com a minha situação. Seria assim nosso passeio?, conjecturava eu com os botões de meu pijama, na noite anterior ao acontecimento. Uma longuíssima noite, diga-se de passagem.
E já que falei em passagem, no dia seguinte, à porta da escola, um ônibus fretado nos esperava. Fretado ou furtado, sabe-se lá, pois parecia sobra daquela revolução de sete anos antes, com o agravante que andava e transportaria setenta crianças encapetadas e suas professoras. Um de meus colegas, como que numa premonição de seu... destino, tomou conta da cadeira do cobrador e, ainda que não houvesse dinheiro no caixa, adquiriu um certo ar distinto que jamais voltaria a ter, porque jamais se sentaria num lugar mais alto novamente, a não ser aquele mesmo. Cada um com a glória que merece, diria meu vírus neoliberal, escondendo – na verdade – minha inveja pelo destaque ganho por ele. O ônibus, confirmando a etimologia, recebeu a todos e, com o motorista a postos, pôs-nos a caminho e ao encontro das feras.
Bless the beasts and the children, cantaria Karen Carpenter. Há, de fato, alguma coisa em comum entre esses dois representantes do reino animal. Muito provavelmente a tendência a atitudes irracionais. Ou uma inocência de feições destruidoras. Graças, porém, à prudência dos organizadores, nosso passeio foi marcado, não num domingo, mas numa sexta-feira. A tranqüilidade do lugar só quebrada por nossos gritos, que se misturavam aos das crianças de outras escolas. Enfim, tínhamos o parque quase todo só para nós, fato que recebíamos com a alegria egoísta dessa faixa etária. Isso foi vital para que a idéia do "trenzinho" fosse abandonada, visto haver certa segurança, já que aprendíamos coisas úteis como "não confiar em estranhos", "chame um policial se se sentir em perigo", ou "não compre doces na porta da escola: eles podem estar envenenados". Mesmo assim, como resistir às guloseimas vendidas naquele paraíso? Maçãs do amor brilhantes, algodão doce, cachorro quente, e todas essas coisas meio nojentas aos olhos dos adultos. E churros. Não desses que se vendem hoje, com recheio e referências fálicas, mas dos simples – mais finos e somente recobertos de açúcar e canela. Assim, devidamente autorizados, usávamos nossos cruzeiros novos na compra daquelas coisas, devoradas com um prazer parecido com o do urso, que vimos ser alimentado habilmente pelo funcionário encarregado.
Aílton, meu amigo pessoal e adversário acadêmico, compartilhava comigo do espanto do primeiro contato com determinados animais, conhecidos apenas nos livros. O lobo guará, o rinoceronte, o leão preguiçoso e as cobras aparentemente viscosas, todos eles enchiam nossos pulmões de medo e nossos estômagos de água, pelo aspecto e pelo odor desagradável que exalava de seus recantos e corpos. Meu amigo, estranhamente, não parecia atraído pelos sabores, brilhos, e pelo colorido das guloseimas à nossa disposição, limitando-se a comer dos biscoitos que trouxera de casa. Mas por quê?, indaguei, imaginando náuseas grotescas, e sem perceber o olhar sem graça que me dirigira. "Não tenho dinheiro", era o que ele falava, sem abrir a boca. Coisa que, aliás, eu mesmo deveria ter feito, se fosse mais esperto. Ficamos, assim, os dois sentados à beira do caminho, um sol fresco naqueles anos cinzentos, olhando as árvores daquele Brasil que a mão de Deus abençoou, como dizia uma canção que tomaria conta das paradas militares, digo, de sucesso, no ano seguinte. Os colegas se divertiam no parquinho de areia malcheirosa; então me voltei para Aílton, e propus: "Vamos comer um churro?"
Ele permaneceu por alguns segundos em silêncio, soltou algumas palavras de recusa, mas insisti, eu pagaria, que besteira era aquela, deixa de ser bobo, e puxei-o pelo braço, arrastando-o comigo, sem me esquecer de avisar a uma das professoras aonde iríamos. Comprei dois pedaços recém prontos, ainda espalhando o aroma inconfundível e, sem malícia, compartilhamos daquele prazer descomplicado, antes mesmo que eu pudesse guardar o troco recebido. Ao terminarmos, o dinheiro ainda em minha mão, disse para Aílton: "Toma, fica pra você!", sem dar tempo para protestos e contestações. Contrafeito, aceitou as notas, guardando-as no bolso frontal da camisa. Confesso não me recordar da quantia ofertada, se muita ou pouca, mas o fato se repetiu mais duas vezes naquele dia, as bolachas esquecidas na bolsa, Aílton mais conformado com minha insistência, e nos divertimos bem, longe de um mundo que excluía os diferentes, os animais na sua mansuetude enganosa e crianças em fase de descobertas.
Na semana seguinte, em casa após uma segunda-feira cansativa, tocaram a campainha. Minha mãe atendeu e me chamou. Era comigo, o que seria? Na rua, Aílton e uma senhora idosa. Ares estranhos, e mais ainda para mim, que não entendia o porquê daquela visita. Aproximei-me, temeroso por alguma coisa que não fizera. Ou fizera? Quando Aílton, instigado por sua mãe (soube então), me falou do motivo daquela aparição inesperada... Era mais do que evidente: o dinheiro do zoológico. A mulher me interpelou:
— Mas você deu mesmo tudo isso pra ele?, e me mostrava as diversas notas, um tanto amarfanhadas, onde se distinguiam as efígies da Princesa Isabel e do Pedro Álvares Cabral, não sei se mera coincidência ou fato carregado de simbologias que só muitos anos depois eu poderia interpretar.
Eu, surpreso com tudo aquilo, olhava para o rosto de Aílton, abaixado e – avalio hoje – envergonhado, e para o de sua mãe, vincado de rugas, uma lágrima começando a surgir. Mesmo sem compreender, respondi que sim, o dinheiro era dele, não havia problema algum. Então, aquela mulher ergueu os olhos e os braços e me agradeceu muito, Deus haveria de pagar aquele ato de bondade, disse, segurando minhas mãos. Nos olhamos mutuamente, os três, afogados em silêncios e lágrimas, então ela se despediu, Aílton também, deixando-me ali sem saber o que fazer, vendo-os descer a rua até sumirem na primeira curva.
Naquele dia, tive meu primeiro contato com um gosto novo, diverso do das maçãs e dos churros. Um prazer muito mais duradouro e, ao mesmo tempo, incômodo. Nunca entendi o porquê de minha atitude naquele passeio escolar: se por desconhecer o valor do dinheiro; se por um sentimento de solidariedade, raro naqueles dias como hoje; ou se por um anseio de me sentir poderoso, como aquele menino no banco do cobrador, sonhando com seu uniforme, a posse da catraca e suas conseqüências. O fato é que, sob diferentes modos, esse sentimento iria nortear boa parte de minha vida dali por diante, com raríssimas vantagens pessoais para mim e, por que não dizer?, até mesmo enfrentando prejuízos de todas as ordens. Enfim, fiquemos com a tese da bondade. Ela é insustentável e explica muito pouco desta história absurda, eu sei. Mas, pensando bem, talvez seja por isso mesmo; afinal, pelo óbvio ou pelo mistério, nem tudo carece de explicação, até para conferir algum significado aproveitável para esta crônica de paquidermes, urutus e outros bichos menos memoráveis.
27 de maio de 2006
As criaturas do esgoto
Um amigo, na verdade um grande amigo, disse-me que eu deveria deixar de me apoquentar com as cobras que, há alguns dias, resolveram fixar morada em minha casa. Confesso que, no começo, elas me assustavam: a pele viscosa, quase gosmenta; os dentes agudos pingando veneno; os olhos de não-ser (como diria Riobaldo). Silvavam naquele timbre irritante entre o metálico e o borbulhante, sabe como? Entravam pelas frestas, refestelavam-se nos móveis, deixavam tudo impregnado com um cheiro meio de vômito. Desapareciam quando eu me aproximava. Incômodo total. Tinha de limpar tudo, passar pano, desinfetante, álcool, abrir as janelas, deixar entrar o sol. E antes que o dia terminasse, bastava eu sair um minuto, elas voltavam. Até que conversei com esse meu amigo, na verdade um grande amigo. O segredo é não se deixar incomodar por elas. Ignorá-las. Mostrar qual é o verdadeiro lugar delas: as sombras, o esgoto, o imundo. Pena que já era um pouco tarde para salvar minha casa, toda carcomida pelas malditas. Aqui, porém, elas não virão. E, caso o façam, já sei exatamente como proceder.
Aviso aos navegantes
Todos os textos publicados neste blogue são ficcionais, ou seja, saíram da mente doente, paranóica e pérfida deste escriba. Qualquer semelhança das personagens que porventura aparecerem nos referidos textos com pessoas supostamente reais, vivas ou mortas (incluindo as muito vivas) será mera coincidência. Portanto, poupem seus advogados.
Por outro lado, todo e qualquer comentário de visitantes será de exclusiva responsabilidade de quem o postou, não cabendo ao proprietário deste blogue qualquer responsabilidade jurídica em relação a seja lá quem se sentir ofendido pelo comentários. Casos anônimos de ofensas serão devidamente encaminhados aos canais devidos e competentes.
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24 de maio de 2006
Recomeço. Recomeço.
Todo começo tem de ter um começo? Bem, isto aqui teve um - mas a história é longa, mais ou menos conhecida por quem visita este blogue, e já me encheu as medidas. Então ficamos assim.
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